Paulo Coelho


 



A bruxa
de
Portobello

Oh, Maria concebida sem pecado, rogai por ns que recorremos a Vs. Amm.







33Ningum acende uma 
lmpada e a pe em lugar oculto ou debaixo da amassadeira, mas 
sobre um candeeiro, para alumiar os que entram.
Lucas, 11, 33




Heron Ryan, 44 anos, jornalista

Ningum acende uma lmpada para escond-la atrs da
porta: o objetivo de luz  trazer mais luz  sua volta, abrir os
olhos, mostrar as maravilhas ao redor. 
Ningum oferece em sacrifcio a coisa mais importante 
que possui: o amor. 
Ningum entrega seus sonhos nas mos daqueles que 
podem destru-lo.
Exceto Athena. 
Muito tempo depois de sua morte, sua antiga mestra me 
pediu que a acompanhasse at a cidade de Prestopans, na Esccia. 
Ali, aproveitando-se de uma lei feudal que foi abolida no ms 
seguinte, a cidade concedeu o perdo oficial a 81 pessoas - e 
seus gatos - executadas por prtica de bruxaria entre os sculos 
XVI e XVII.
Segundo a porta-voz oficial dos Bares de 
Prestoungrange e Dolphinstoun, "a maioria tinha sido condenada
sem nenhuma evidncia concreta, com base apenas nas testemunhas
de acusao, que declaravam sentir a presena de espritos
malignos".
No vale a pena lembrar de novo todos os excessos da
Inquisio, com suas cmaras de tortura e suas fogueiras em
chamas de dio e vingana. Mas, no caminho, Edda repetiu vrias
vezes que havia algo neste gesto que ela no podia aceitar: a 
cidade, e o 14 Baro de Prestoungrange & Dolphinstoun, estavam 
"concedendo perdo" s pessoas executadas brutalmente. 
- Estamos em pleno sculo XXI, e os descendentes dos 
verdadeiros criminosos, aqueles que mataram inocentes, ainda se
julgam no direito de "perdoar". Voc sabe, Heron.
Eu sabia. Uma nova caa s bruxas comea a ganhar 
terreno; desta vez a arma no  mais o ferro em brasa, mas a 
ironia ou a represso. Todo aquele que descobre um dom por acaso 
e ousa falar de sua capacidade, passa a ser visto com 
desconfiana. E geralmente o marido, esposa, pai, filho, seja l 
quem for, ao invs de orgulhar-se, termina proibindo qualquer 
meno ao assunto, com medo de expor sua famlia ao ridculo. 
Antes de conhecer Athena, achava que tudo no passava 
de uma forma desonesta de explorar a desesperana do ser humano. 
Minha viagem  Transilvnia para o documentrio sobre vampiros 
era tambm uma maneira de mostrar como as pessoas so facilmente 
enganadas; certas crendices permanecem no imaginrio do ser 
humano, por mais absurdas que possam parecer, e terminam sendo 
usadas por gente sem escrpulo. Quando visitei o castelo de 
Drcula, reconstrudo apenas para dar aos turistas a sensao de 
que estavam em um lugar especial, fui procurado por um 
funcionrio do governo; insinuou que eu terminaria recebendo um 
presente bastante "significativo" (segundo suas palavras) quando 
o filme fosse exibido na BBC. Para esse funcionrio, eu estava 
ajudando a propagar a importncia do mito, e isso merecia ser 
recompensado generosamente.  Um dos guias disse que o nmero de 
visitantes aumentava a cada ano, e que qualquer referncia ao 
lugar seria positiva, mesmo aquelas afirmando que o castelo era 
falso, que Vlad Dracul era um personagem histrico sem qualquer 
referncia ao mito, e tudo no passava do delrio de um irlands 
(N.R.: Bram Stoker) que jamais visitara a regio. 
Naquele exato momento, entendi que por mais rigoroso 
que pudesse ser com os fatos, eu estava involuntariamente 
colaborando com a mentira; mesmo que a idia do meu roteiro fosse 
justamente desmistificar o local, as pessoas acreditam no que 
desejam; o guia estava certo, no fundo estaria colaborando para 
fazer mais propaganda. Desisti imediatamente do projeto, mesmo 
tendo investido uma quantia razovel na viagem e nas pesquisas. 
Mas a ida  Transilvnia terminaria tendo um impacto 
gigantesco em minha vida: conheci Athena, quando buscava sua me. 
O destino, este misterioso, implacvel destino, nos colocou 
frente a frente em um insignificante hall de um hotel mais 
insignificante ainda. Fui testemunha de sua primeira conversa com 
Deidre - ou Edda, como gosta de ser chamada. Assisti, como se 
fosse espectador de mim mesmo,  luta intil que meu corao 
travou para no deixar-me seduzir por uma mulher que no 
pertencia ao meu mundo. Aplaudi quando a razo perdeu a batalha, 
e a nica alternativa que me restou foi entregar-me, aceitar que 
estava apaixonado.
E esta paixo me levou a ver rituais que nunca 
imaginei existirem, duas materializaes, transes. Achando que 
estava cego pelo amor, duvidei de tudo; a dvida, ao invs de me 
paralisar, me empurrou em direo a oceanos que eu no podia 
admitir que existiam. Foi esta fora que nos momentos mais 
difceis me permitiu enfrentar o cinismo de outros amigos 
jornalistas, e escrever a respeito de Athena e de seu trabalho. E 
como o amor continua vivo, embora Athena j esteja morta, a fora 
continua presente, mas tudo que desejo  esquecer o que vi e 
aprendi. S podia navegar neste mundo segurando as mos de 
Athena. 
Estes eram os seus jardins, os seus rios, as suas 
montanhas. Agora que ela partiu, preciso que tudo volte 
rapidamente a ser como antes; vou concentrar-me mais nos 
problemas do trnsito, na poltica exterior da Gr-Bretanha, na 
maneira como administram nossos impostos. Quero tornar a pensar 
que o mundo da magia  apenas um truque bem elaborado. Que as 
pessoas so supersticiosas. Que as coisas que a cincia no pode 
explicar, no tm o direito de existir. 
Quando as reunies em Portobello comearam a sair de 
controle, foram inmeras as discusses sobre o seu comportamento, 
embora hoje em dia me alegre que ela jamais me tenha escutado. Se 
existe algum consolo na tragdia de perder algum que amamos 
tanto,  a esperana, sempre necessria, de que talvez tenha sido 
melhor assim. 
Eu acordo e durmo com esta certeza; foi melhor que 
Athena tivesse partido antes de descer aos infernos desta terra. 
Jamais tornaria a conseguir paz de esprito desde os eventos que 
a caracterizaram como "a bruxa de Portobello". O resto de sua 
vida seria um confronto amargo dos seus sonhos pessoais com a 
realidade coletiva. Conhecendo sua natureza, iria lutar at o 
final, gastar sua energia e sua alegria tentando provar algo que 
ningum, absolutamente ningum est disposto a acreditar. 
Quem sabe, procurou a morte como um nufrago procura 
uma ilha. Deve ter estado em muitas estaes de metr de 
madrugada, aguardando assaltantes que no vinham. Caminhou pelos 
bairros mais perigosos de Londres, em busca de um assassino que 
no se mostrava. Provocou a ira dos fortes, que no conseguiram 
manifestar a raiva. 
At que conseguiu ser brutalmente assassinada. Mas, no 
final das contas, quantos de ns escapamos de ver as coisas 
importantes de nossas vidas desaparecerem de uma hora para a 
outra? No me refiro aqui apenas a pessoas, mas tambm aos nossos 
ideais e sonhos: podemos resistir um dia, uma semana, alguns 
anos, mas estamos sempre condenados a perder. Nosso corpo 
continua vivo, mas a alma termina recebendo um golpe mortal cedo 
ou tarde. Um crime perfeito, onde no sabemos quem assassinou 
nossa alegria, quais os motivos que provocaram isso, e onde esto 
os culpados. 
E esses culpados, que no dizem seus nomes, ser que 
tm conscincia de seus gestos? Penso que no, porque eles tambm 
so vtimas da realidade que criaram - embora sejam depressivos, 
arrogantes, impotentes e poderosos. 
No entendem e no entenderiam nunca o mundo de 
Athena. Ainda bem que estou dizendo desta maneira: o mundo de 
Athena. Estou finalmente aceitando que estava ali de passagem, 
como um favor, como algum que est em um lindo palcio, comendo 
o que existe de melhor, consciente que aquilo  apenas uma festa, 
o palcio no  seu, a comida no foi comprada com seu dinheiro, 
e em um dado momento as luzes se apagam, os donos vo dormir, os 
empregados voltam para seus quartos, a porta se fecha, e de novo 
estamos na rua, esperando um txi ou um nibus, de volta  
mediocridade do seu dia-a-dia.
Estou voltando. Melhor dizendo: uma parte de mim est 
voltando para este mundo em que s faz sentido aquilo que vemos, 
tocamos, e podemos explicar. Quero de novo as multas por alta 
velocidade, as pessoas discutindo nos caixas de banco, as eternas 
reclamaes sobre o tempo, os filmes de terror e as corridas de 
Frmula 1. Esse  o universo que terei que conviver pelo resto de 
meus dias; vou casar, ter filhos, e o passado ser uma lembrana 
distante, que no final me far perguntar durante o dia: como pude 
ser to cego, como pude ser to ingnuo? 
Sei tambm que, durante a noite, outra parte de mim 
ficar vagando no espao, em contato com coisas que so to reais 
como o mao de cigarros e o copo de gim que tenho na minha 
frente. Minha alma danar com a alma de Athena, eu estarei com 
ela enquanto durmo, acordarei suando, irei at a cozinha beber um 
copo de gua, entenderei que para combater fantasmas  preciso 
usar coisas que no fazem parte da realidade. Ento, seguindo 
conselhos de minha av, colocarei uma tesoura aberta na mesa de 
cabeceira, e assim cortarei a continuao do sonho. 
No dia seguinte, olharei para a tesoura com certo 
arrependimento. Mas preciso adaptar-me de novo a este mundo, ou 
termino ficando louco. 


Andrea McCain, 32 anos, atriz de teatro

"Ningum pode manipular ningum. Em uma relao, os 
dois sabem o que esto fazendo, mesmo que um deles venha depois 
queixar-se que foi usado." 
Isso Athena dizia - mas agia de maneira oposta, porque 
fui usada e manipulada sem qualquer considerao pelos meus 
sentimentos. A coisa fica ainda mais sria quando estamos falando 
de magia; afinal de contas era minha mestra, encarregada de 
transmitir os mistrios sagrados, despertar da fora desconhecida 
que todos ns possumos. Quando nos aventuramos neste mar 
desconhecido, confiamos cegamente naqueles que nos guiam - 
acreditando que sabem mais que ns. 
Pois eu posso garantir: no sabem. Nem Athena, nem 
Edda, nem as pessoas que terminei conhecendo por causa delas. Ela 
me dizia que estava aprendendo  medida que ensinava, e embora eu 
no incio me recusasse a acreditar, pude mais tarde me convencer 
que talvez pudesse ser verdade, terminei descobrindo que era mais 
uma de suas muitas maneiras de fazer com que abaixssemos nossas 
guardas, e nos entregssemos ao seu encanto. 
As pessoas que esto na busca espiritual no pensam: 
querem resultados. Querem sentir-se poderosas, longe das massas 
annimas. Querem ser especiais. Athena brincava com sentimentos 
alheios de maneira aterradora. 
Me parece que, em seu passado, teve uma profunda 
admirao por Santa Teresa de Lisieux. A religio catlica no me 
interessa, mas, pelo que ouvi, Teresa tinha uma espcie de 
comunho mstica e fsica com Deus. Athena mencionou certa vez 
que gostaria que seu destino fosse parecido com o dela: neste 
caso devia ter entrado para um convento, dedicado sua vida  
contemplao ou ao servio dos pobres. Seria muito mais til ao 
mundo, e muito menos perigoso que induzir pessoas, atravs de 
msicas e de rituais, a uma espcie de intoxicao onde podemos 
entrar em contato com o melhor, mas tambm com o pior de ns 
mesmos. 
Eu a procurei em busca de uma resposta para o sentido 
da minha vida - embora tivesse dissimulado isso em nosso primeiro 
encontro. Devia ter percebido desde o incio que Athena no 
estava muito interessada nisso; queria viver, danar, fazer amor, 
viajar, reunir gente a sua volta para mostrar como era sbia, 
exibir seus dons, provocar os vizinhos, aproveitar tudo que temos 
de mais profano - mesmo que procurasse dar um verniz espiritual  
sua busca. 
Cada vez que nos encontrvamos, para cerimnias 
mgicas ou para ir a um bar, eu sentia seu poder. Era quase capaz 
de toc-lo, de to forte que se manifestava. No incio fiquei 
fascinada, queria ser como ela. Mas um dia, em um bar, ela 
comeou a comentar sobre o "Terceiro Rito", que envolve a 
sexualidade. Fez isso na frente do meu namorado. Seu pretexto era 
ensinar-me. Seu objetivo, na minha opinio, era seduzir o homem 
que amava.
E, claro, terminou conseguindo. 
No  bom falar mal de pessoas que passaram desta vida 
para o plano astral. Athena no ter que prestar contas a mim, 
mas a todas aquelas foras que, em vez de canalizar para o bem da 
humanidade e para sua prpria elevao espiritual, usou apenas em 
benefcio prprio. 
E o que  pior: tudo que comeamos juntos podia ter 
dado certo, se no fosse sua compulso para o exibicionismo. 
Bastava ter agido de maneira mais discreta, e hoje estaramos 
cumprindo juntas a misso que nos foi confiada. Mas no conseguia 
controlar-se, julgava-se dona da verdade, capaz de ultrapassar 
todas as barreiras usando apenas seu poder de seduo. 
Qual foi o resultado? Eu fiquei sozinha. E no posso 
mais abandonar o trabalho no meio - terei que ir at o final, 
embora me sinta s vezes fraca, e quase sempre desanimada. 
No me surpreende que sua vida tenha terminado desta 
maneira: ela vivia flertando com o perigo. Dizem que as pessoas 
extrovertidas so mais infelizes que as introvertidas, e precisam 
compensar isso mostrando a si mesmas que esto contentes, 
alegres, de bem com a vida; pelo menos no caso dela, este 
comentrio  absolutamente correto. 
Athena era consciente do seu carisma, e fez sofrer 
todos aqueles que a amaram.
Inclusive eu. 


Deidre O"Neill, 37 anos, mdica, conhecida como Edda

Se um homem que no conhecemos telefona hoje, conversa 
um pouco, no insinua nada, no diz nada de especial, mas mesmo 
assim nos deu uma ateno que raramente recebemos, somos capazes 
de ir para a cama aquela noite relativamente apaixonadas. Somos 
assim, e no h nada de errado nisso -  da natureza feminina 
abrir-se para o amor com grande facilidade. 
Foi esse amor que me abriu para o encontro com a Me 
quando tinha 19 anos. Athena tambm tinha esta idade quando 
entrou pela primeira vez em transe atravs da dana. Mas essa era 
a nica coisa que tnhamos em comum - a idade de nossa iniciao. 
Em tudo mais ramos total e profundamente distintas, 
principalmente em nossa maneira de lidar com os outros. Como sua 
mestra, eu dei sempre o melhor de mim, de modo que pudesse 
organizar sua busca interna. Como sua amiga - embora no tenha 
certeza de que este sentimento era correspondido - procurei 
alert-la para o fato de que o mundo ainda no est pronto para 
as transformaes que ela queria provocar. Lembro-me que perdi 
algumas noites de sono at tomar a deciso de permitir que agisse 
com total liberdade, seguindo apenas o que seu corao mandava.
Seu grande problema era ser a mulher do sculo XXII, 
vivendo apenas no sculo XXI - e permitindo que todos vissem 
isso. Pagou um preo? Sem dvida. Mas teria pago um preo muito 
maior se tivesse reprimido sua exuberncia. Seria amarga, 
frustrada, sempre preocupada com "o que os outros vo pensar", 
sempre dizendo "deixa eu resolver antes estes assuntos, depois me 
dedico ao meu sonho", sempre reclamando que "as condies ideais 
no chegam nunca". 
Todos buscam um mestre perfeito; acontece que os 
mestres so humanos, embora seus ensinamentos possam ser divinos 
- e a est algo que as pessoas custam a aceitar. No confundir o 
professor com a aula, o ritual com o xtase, o transmissor do 
smbolo com o smbolo em si mesmo. A Tradio est ligada ao 
encontro com as foras da vida, e no com as pessoas que 
transmitem isso. Mas somos fracos: pedimos que a Me nos envie 
guias, quando ela envia apenas os sinais da estrada que 
precisamos percorrer. 
Ai daqueles que buscam pastores, ao invs de ansiar 
pela liberdade! O encontro com a energia superior est ao alcance 
de qualquer um, mas est longe daqueles que transferem sua 
responsabilidade para os outros. Nosso tempo nesta terra  
sagrado, e devemos celebrar cada momento. 
A importncia disso foi completamente esquecida: at 
mesmo os feriados religiosos se transformaram em ocasies para se 
ir  praia, ao parque, s estaes de esqui. No h mais ritos. 
No se consegue mais transformar as aes ordinrias em 
manifestaes sagradas. Cozinhamos reclamando da perda de tempo, 
quando podamos estar transformando amor em comida. Trabalhamos 
achando que  uma maldio divina, quando devamos usar nossas 
habilidades para nos dar prazer, e para espalhar a energia da 
Me. 
Athena trouxe para a superfcie o riqussimo mundo que 
todos ns carregamos na alma, sem se dar conta de que as pessoas 
ainda no esto prontas para aceitar seus poderes. 
Ns, as mulheres, quando buscamos um sentido para 
nossa vida, ou o caminho do conhecimento, sempre nos 
identificamos com um dos quatro arqutipos clssicos. 
A Virgem (e aqui no estou falando de sexualidade)  
aquela cuja busca se d atravs da independncia completa, e tudo 
que aprende  fruto de sua capacidade de enfrentar sozinha os 
desafios. 
A Mrtir descobre na dor, na entrega, e no sofrimento, 
uma maneira de conhecer a si mesma. 
A Santa encontra no amor sem limites, na capacidade de 
dar sem nada pedir em troca, a verdadeira razo de sua vida. 
Finalmente, a Bruxa vai em busca do prazer completo e 
ilimitado - justificando assim sua existncia. 
Athena foi as quatro ao mesmo tempo, quando devemos 
geralmente escolher apenas uma destas tradies femininas. 
Claro que podemos justificar seu comportamento, 
alegando que todos os que entram em estado de transe ou de xtase 
perdem o contato com a realidade. Isso  falso: o mundo fsico e 
o mundo espiritual so a mesma coisa. Podemos enxergar o Divino 
em cada gro de poeira, e isso no nos impede de afast-lo com 
uma esponja molhada. O divino no parte, mas se transforma na 
superfcie limpa. 
Athena devia ter se cuidado mais. Refletindo sobre a 
vida e a morte de minha discpula,  melhor eu mudar um pouco 
minha maneira de agir. 

Lella Zainab, 64 anos, numerloga

Athena? Que nome interessante! Vamos ver o seu nmero 
Mximo  o nove. Otimista, social, capaz de ser notada no meio de 
uma multido. Pessoas devem se aproximar dela em busca de 
compreenso, compaixo, generosidade, e justamente por isso deve 
ficar muito atenta, porque a tendncia  popularidade pode subir 
 sua cabea, e terminar perdendo mais do que ganhando. Deve 
tambm ter cuidado com sua lngua, pois tende a falar mais do que 
manda o bom senso.
Quanto ao seu nmero Mnimo: onze. Penso que ela 
almeja alguma posio de chefia. Interesse por temas msticos; 
atravs deles procura trazer harmonia a todos que se encontram a 
sua volta. 
Mas isso entra diretamente em confronto com o nmero 
Nove, que  a soma do dia, ms, e ano do seu nascimento, 
reduzidos a um nico algarismo: estar sempre sujeita  inveja, 
tristeza, introverso, e decises temperamentais. Cuidado com as 
seguintes vibraes negativas: ambio excessiva, intolerncia, 
abuso de poder, extravagncia.
Por causa deste conflito, sugiro que procure dedicar-
se a algo que no envolva um contato emocional com as pessoas, 
como trabalho na rea de informtica ou engenharia. 
Est morta? Desculpe. O que ela fazia, afinal?





O que Athena fazia afinal? Athena fez um pouco de 
tudo, mas, se tivesse que resumir sua vida, diria: uma 
sacerdotisa que compreendia as foras na natureza. Melhor 
dizendo, era algum que, pelo simples fato de no ter muito o que 
perder ou esperar da vida, arriscou alm do que os outros fazem, 
e terminou transformando-se nas foras que julgava dominar. 
Foi assistente de supermercado, bancria, vendedora de 
terrenos, e em cada uma destas posies jamais deixou de 
manifestar a sacerdotisa que tinha dentro de si. Convivi com ela 
durante oito anos, e lhe devia isso: recuperar sua memria, sua 
identidade. 
A coisa mais difcil ao recolher estes depoimentos foi 
convencer as pessoas a me permitirem usar seus nomes verdadeiros. 
Umas alegavam que no queriam estar envolvidas neste tipo de 
histria, outras procuravam esconder suas opinies e seus 
sentimentos. Expliquei que minha verdadeira inteno era fazer 
que todos os envolvidos a entendessem melhor, e ningum 
acreditaria em depoimentos annimos. 
Como cada um dos entrevistados julgava possuir a nica 
e definitiva verso de qualquer evento, por mais insignificante 
que ele fosse, terminaram aceitando. No decorrer das gravaes, 
vi que as coisas no so absolutas, elas existem dependendo da 
percepo de cada um. E a melhor maneira de saber quem somos, 
muitas vezes,  procurar saber como os outros nos vem.
Isso no quer dizer que vamos fazer o que esperam; mas 
pelo menos nos compreendemos melhor. Eu devia isso  Athena.
Recuperar sua histria. Escrever o seu mito. 


Samira R. Khalil, 57 anos, dona de casa, me de Athena

No a chame de Athena, por favor. Seu verdadeiro nome 
 Sherine. Sherine Khalil, filha muito querida, muito desejada, 
que tanto eu como meu marido queramos ter gerado por ns mesmos! 
Mas a vida tinha outros planos - quando a generosidade 
do destino  muito grande, sempre h um poo onde todos os sonhos 
podem despencar. 
Vivamos em Beirute no tempo em que todos a 
consideravam como a mais bela cidade do Oriente Mdio. Meu marido 
era um bem-sucedido industrial, casamos por amor, viajvamos  
Europa todos os anos, tnhamos amigos, ramos convidados para 
todos os acontecimentos sociais importantes, e certa vez cheguei 
a receber em minha casa um presidente dos Estados Unidos, 
imagine! Foram trs dias inesquecveis: dois deles onde o servio 
secreto americano esquadrinhou cada canto de nossa casa (eles j 
estavam no bairro h mais de um ms, ocupando  posies 
estratgicas, alugando apartamentos, disfarando-se como mendigos 
ou casais apaixonados). E um dia - melhor dizendo, duas horas de 
festa. Jamais me esquecerei da inveja nos olhos de nossos amigos, 
e da alegria de poder tirar fotos com o homem mais poderoso do 
planeta. 
Tnhamos tudo, menos aquilo que mais desejvamos: um 
filho. Portanto, no tnhamos nada. 
Tentamos de todas as maneiras, fizemos promessas, 
fomos a lugares onde garantiam que era possvel um milagre, 
consultamos mdicos, curandeiros, tomamos remdios e bebemos 
elixires e poes mgicas. Por duas vezes fiz inseminao 
artificial, e perdi o beb. Na segunda, perdi tambm meu ovrio 
esquerdo, e no consegui mais encontrar nenhum mdico que 
quisesse arriscar-se em uma nova aventura deste tipo. 
Foi quando um dos muitos amigos que conhecia a nossa 
situao, sugeriu a nica sada possvel: adotar uma criana. 
Disse que tinha contatos na Romnia, e que o processo no 
demoraria muito. 
Pegamos um avio um ms depois; nosso amigo tinha 
negcios importantes com o tal ditador que governava o pas na 
poca, e do qual no me lembro o nome (N.R.: Nicolai Ceaucescu), 
de modo que conseguimos evitar todos os trmites burocrticos e 
fomos parar em um centro de adoo em Sibiu, na Transilvnia. Ali 
j nos esperavam com caf, cigarros, gua mineral, e toda a 
papelada pronta, bastando apenas escolher a criana. 
Nos levaram at um berrio, onde fazia muito frio, e 
eu fiquei imaginando como  que podiam deixar aquelas pobres 
criaturas em tal situao. Meu primeiro instinto foi adotar 
todas, levar para nosso pas onde havia sol e liberdade, mas 
claro que isso era uma idia maluca. Passeamos entre os beros, 
escutando choros, aterrorizados pela importncia da deciso a 
tomar. 
Por mais de uma hora, nem eu nem meu marido trocamos 
qualquer palavra. Samos, tomamos caf, fumamos cigarros, 
voltamos - e isso se repetiu vrias vezes. Reparei que a mulher 
encarregada da adoo j estava ficando impaciente, precisava 
logo decidir; neste momento, seguindo um instinto que eu ousaria 
chamar de maternal, como se tivesse encontrado um filho que tinha 
que ser meu nesta encarnao mas que tinha chegado ao mundo 
atravs de outro ventre, apontei para uma menina. 
A encarregada sugeriu que pensssemos melhor. Logo 
ela, que parecia to impaciente com nossa demora! Mas eu j 
estava decidida. 
Mesmo assim, com todo o cuidado, procurando no ferir 
meus sentimentos (ela achava que tnhamos contatos com os altos 
escales do governo romeno), sussurrou para que meu marido no 
ouvisse:
-Sei que no vai dar certo.  filha de cigana.
Respondi que uma cultura no pode ser transmitida 
atravs dos genes - a criana, que tinha apenas trs meses, seria 
minha filha e do meu marido, educada segundo nossos costumes. 
Conheceria a igreja que freqentamos, as praias onde vamos 
passear, leria seus livros em francs, estudaria na Escola 
Americana de Beirute. Alm do mais, no tinha qualquer informao 
- e continuo sem ter - sobre a cultura cigana. Sei apenas que 
viajam, nem sempre tomam banho, enganam os outros, e usam brinco 
na orelha. Corre a lenda de que costumam raptar crianas para 
levar em suas caravanas, mas ali estava acontecendo justamente o 
contrrio: tinham deixado uma criana para trs, para que eu me 
encarregasse dela. 
A mulher ainda tentou me dissuadir, mas eu j estava 
assinando os papis, e pedindo que meu marido fizesse o mesmo. Na 
volta para Beirute, o mundo parecia diferente: Deus havia me dado 
uma razo para existir, para trabalhar, para lutar neste vale de 
lgrimas. Tnhamos agora uma criana para justificar todos os 
nossos esforos. 
Sherine cresceu em sabedoria e beleza - acho que todos 
os pais dizem isso, mas penso que era uma criana realmente 
excepcional. Certa tarde, ela j tinha cinco anos, um de meus 
irmos me disse que, se ela quisesse trabalhar no exterior o seu 
nome sempre denunciaria sua origem - e sugeriu que o mudssemos 
para algo que no dissesse absolutamente nada, como Athena. Claro 
que hoje sei que Athena no apenas  a capital de um pas, mas 
tambm a deusa da sabedoria, da inteligncia, e da guerra. 
E possivelmente o meu irmo no apenas soubesse isso, 
mas estivesse consciente dos problemas que um nome rabe poderia 
causar no futuro - estava metido em poltica, como toda nossa 
famlia, e desejava proteger sua sobrinha das nuvens negras que 
ele, mas s ele, conseguia enxergar no horizonte. O mais 
surpreendente  que Sherine gostou do som da palavra. Em uma 
nica tarde, comeou a referir-se a si mesma como Athena, e 
ningum conseguiu mais tirar isso de sua cabea. Para agrad-la, 
adotamos tambm este apelido, pensando que logo aquilo iria 
passar. 
Ser que um nome pode afetar a vida de uma pessoa? 
Porque o tempo passou, o apelido resistiu, e terminamos por nos 
adaptar a ele. 
Aos doze anos, descobrimos que tinha uma certa vocao
religiosa - vivia na igreja, sabia os evangelhos de cor, e isso
era ao mesmo tempo uma bno e uma maldio. Em um mundo que
comeava a ser cada vez mais dividido pelas crenas religiosas,
eu temia pela segurana de minha filha. A esta altura, Sherine j
comeava a nos dizer, como se fosse a coisa mais normal do mundo,
que tinha uma srie de amigos invisveis - anjos e santos cujas
imagens costumava ver na igreja que freqentvamos.  claro que
todas as crianas do mundo tm vises, embora raramente se 
lembrem disso depois que passam de determinada idade. Tambm 
costumam dar vida a coisas inanimadas, como bonecas ou tigres de 
pelcia. Mas comecei a achar que estava exagerando quando um dia 
fui busc-la na escola, e ela me disse ter visto "uma mulher 
vestida de branco, parecida com a Virgem Maria". 
Acredito em anjos, claro. Acredito at mesmo que os 
anjos conversem com crianas pequenas, mas quando as aparies 
so de gente adulta, as coisas mudam. Conheo uma srie de 
histrias de pastores e gente do campo que afirmaram ter visto 
uma mulher de branco - e isso terminou por destruir suas vidas, 
j que as pessoas comeam a procur-los em busca de milagres, os 
padres se preocupam, as aldeias se transformam em centros de 
peregrinao, e as pobres crianas acabam suas vidas em um 
convento. Fiquei portanto muito preocupada com esta histria; 
nesta idade Sherine devia estar mais preocupada com estojos de 
maquilagem, pintar as unhas, assistir novelas romnticas ou 
programas infantis na TV. Algo estava errado com minha filha, e 
fui procurar um especialista. 
- Relaxe - ele disse. 
Para o pediatra especializado em psicologia infantil, 
como para a maioria dos mdicos que cuidam destes temas, os 
amigos invisveis so uma espcie de projeo dos sonhos, e 
ajudam a criana a descobrir seus desejos, expressar seus 
sentimentos, tudo isso de uma maneira inofensiva.
- Mas uma mulher de branco? 
Ele respondeu que, talvez, a nossa maneira de ver ou 
explicar o mundo no estivesse sendo bem compreendida por 
Sherine. Sugeriu que, pouco a pouco, comessemos a preparar o 
terreno para dizer que ela tinha sido adotada. Na linguagem do 
especialista, a pior coisa que podia acontecer,  que ela 
descobrisse por si mesma - passaria a duvidar de todo mundo. Seu 
comportamento poderia tornar-se imprevisvel. 
A partir daquele momento, mudamos nosso dilogo com 
ela. No sei se o ser humano consegue lembrar-se de coisas que 
lhe aconteceram quando era ainda beb, mas comeamos a tentar 
mostrar-lhe o quanto era amada, e que no havia mais necessidade 
de refugiar-se em um mundo imaginrio. Ela precisava entender que 
o seu universo visvel era to belo quanto podia ser, seus pais a 
protegeriam de qualquer perigo, Beirute era linda, as praias 
estavam sempre cheias de sol e gente. Sem confrontar-me 
diretamente com a tal "mulher", passei a ficar mais tempo com 
minha filha, convidei seus amigos de escola para freqentarem 
nossa casa, no perdia uma s oportunidade para demonstrar todo 
nosso carinho. 
A estratgia deu resultado. Meu marido viajava muito, 
Sherine sentia falta, e em nome do amor resolveu mudar um pouco 
seu estilo de vida. As conversas solitrias comearam a ser 
substitudas por brincadeiras entre pai, me e filha.
Tudo corria bem at que certa noite ela veio chorando 
ao meu quarto, dizendo que estava com medo, que o inferno estava 
prximo. 
Eu estava sozinha em casa - o marido mais uma vez 
tivera que se ausentar, e achei que esta era a razo de seu 
desespero. Mas inferno? O que ser que estavam ensinando na 
escola ou na igreja? Decidi que no dia seguinte iria at l 
conversar com a professora.
Sherine, entretanto, no parava de chorar. Eu a levei 
at a janela, mostrei o Mediterrneo l fora, iluminado pela lua 
cheia. Disse que no havia demnios, mas estrelas no cu e gente 
caminhando pelo boulevard diante de nosso apartamento. Expliquei 
que no precisava ter medo, que ficasse tranqila, mas ela 
continuava a chorar e tremer. Depois de quase meia hora tentando 
acalm-la, comecei a ficar nervosa. Pedi que parasse com aquilo, 
ela j no era mais uma criana. Imaginei que talvez tivesse 
ocorrido sua primeira menstruao; discretamente perguntei se 
algum sangue estava correndo.
- Muito. 
Peguei um pouco de algodo, pedi que deitasse para que 
eu pudesse cuidar do seu "ferimento". No era nada, amanh eu lhe 
explicaria. Entretanto, a menstruao no tinha chegado. Ela 
ainda chorou um pouco, mas devia estar cansada, porque logo 
dormiu.
E, no dia seguinte, o sangue correu de manh. 
Quatro homens foram assassinados. Para mim, era apenas 
mais uma das eternas batalhas tribais a que meu povo estava 
acostumado. Para Sherine, no devia ser nada, porque nem sequer 
mencionou o seu pesadelo da noite anterior. 
Entretanto, a partir dessa data, o inferno estava 
chegando, e at hoje no se afastou mais. No mesmo dia, 26 
palestinos foram mortos em um nibus, como vingana pelo 
assassinato. Vinte e quatro horas depois, j no se podia 
caminhar pelas ruas, por causa dos tiros que vinham de todos os 
lados. As escolas fecharam, Sherine foi trazida s pressas para 
casa por uma de suas professoras, e a partir da, todos perderam 
controle da situao. Meu marido interrompeu sua viagem no meio e 
voltou para casa, telefonando dias inteiros para os seus amigos 
do governo, e ningum conseguia dizer algo que fizesse sentido. 
Sherine ouvia os tiros l fora, os gritos de meu marido dentro de 
casa, e - para minha surpresa - no dizia uma palavra. Eu tentava 
sempre lhe dizer que era passageiro, que em breve poderamos ir 
de novo  praia, mas ela desviava os olhos e pedia algum livro 
para ler, ou um disco para ouvir. Enquanto o inferno se instalava 
aos poucos, Sherine lia e escutava msica.
No quero pensar muito nisso, por favor. No quero 
pensar nas ameaas que recebemos, quem estava com a razo, quais 
eram os culpados e os inocentes. O fato  que, poucos meses 
depois, quem quisesse atravessar determinada rua, deveria pegar 
um barco, ir at a ilha de Chipre, tomar outro barco, e 
desembarcar do outro lado da calada. 
Permanecemos praticamente dentro de casa por quase um 
ano, sempre esperando a situao melhorar, sempre achando que 
tudo aquilo era passageiro, o governo iria terminar controlando a 
situao. Certa manh, enquanto escutava um disco em sua pequena 
eletrola porttil, Sherine ensaiou uns passos de dana, e comeou 
a dizer coisas como "vai demorar muito, muito tempo". 
Eu quis interromp-la, mas meu marido pegou-me pelo 
brao - vi que estava prestando ateno, e levando a srio as 
palavras de uma menina. Nunca entendi por que, e at hoje no 
comentamos o assunto;  um tabu entre ns. 
No dia seguinte, ele comeou a tomar providncias 
inesperadas; em duas semanas estvamos embarcando para Londres. 
Mais tarde saberamos que, embora no haja estatsticas concretas 
a respeito, nestes dois anos de guerra civil (N.R.: 1974 e 1975) 
morreram em torno de 44 mil pessoas, 180 mil ficaram feridas, 
milhares desabrigadas. Os combates continuaram por outras razes, 
o pas foi ocupado por foras estrangeiras, e o inferno continua 
at hoje. 
"Vai durar muito tempo", dizia Sherine. Meu Deus, 
infelizmente ela tinha razo. 


Luks Jessen-Petersen, 32 anos, engenheiro, ex-marido

Athena j sabia que tinha sido adotada por seus pais 
quando a encontrei pela primeira vez. Tinha 19 anos e estava 
pronta para comear uma briga na cafeteria da universidade porque 
algum, pensando que ela tinha origem inglesa (branca, cabelos 
lisos, olhos s vezes verdes, s vezes cinza), fizera algum 
comentrio desfavorvel sobre o Oriente Mdio. 
Era o primeiro dia de aula; a turma era nova, ningum 
conhecia nada a respeito de seus colegas. Mas aquela moa se 
levantou, segurou a outra pelo colarinho, e comeou a gritar 
feito louca:
 - Racista!
Vi o olhar aterrorizado da menina, o olhar excitado 
dos outros estudantes, sedentos para ver o que acontecia. Como 
estava um ano na frente daquela turma, previ imediatamente as 
conseqncias: sala do reitor, queixas, possibilidade de 
expulso, inqurito policial sobre racismo, etc. Todo mundo tinha 
a perder.
 - Cala a boca! - gritei sem saber o que estava 
dizendo.
No conhecia nenhuma das duas. No sou o salvador do 
mundo, e, sinceramente falando, uma briga de vez em quando  
estimulante para os jovens. Mas o grito e a reao foram mais 
fortes que eu. 
- Pare com isso! gritei de novo para a moa bonita, 
que agarrava outra, tambm bonita, pelo pescoo. Ela me olhou e 
me fulminou com os olhos. E, de repente, alguma coisa mudou. Ela 
sorriu - embora ainda mantivesse suas mos na garganta de sua 
colega.
- Voc esqueceu de dizer: por favor.
Todo mundo riu. 
- Pare com isso - pedi. - Por favor.
Ela largou a menina e caminhou em minha direo. Todas 
as cabeas acompanharam seu movimento. 
- Voc tem educao. Ser que tambm tem um cigarro?
Estendi o mao, e fomos fumar no campus. Tinha passado 
da raiva completa ao relaxamento total, e minutos depois estava 
rindo, comentando o tempo, perguntando se eu gostava deste ou 
daquele grupo de msica. Escutei a sineta que chamava para as 
aulas, e solenemente ignorei aquilo para o qual tinha sido 
educado toda minha vida: manter a disciplina. Continuei ali 
conversando, como se no existisse mais universidade, brigas, 
cantinas, vento, frio, sol. Existia apenas aquela mulher de olhos 
cinza na minha frente, dizendo coisas absolutamente 
desinteressantes e inteis, capazes de manter-me ali pelo resto 
de minha vida. 
Duas horas depois estvamos almoando juntos. Sete 
horas depois estvamos em um bar, jantando e bebendo aquilo que 
nosso oramento permitia comer e beber. As conversas foram 
ficando cada vez mais profundas, e em pouco tempo eu j sabia 
praticamente toda a sua vida - Athena contava detalhes de sua 
infncia, adolescncia, sem que eu fizesse qualquer pergunta. 
Mais tarde soube que ela era assim com todo mundo; entretanto, 
naquele dia, me senti o mais especial de todos os homens da face 
da terra. 
Tinha chegado em Londres como refugiada da guerra 
civil que estourara no Lbano. O pai, um cristo maronita (N.R.: 
ramo da Igreja Catlica que, embora submetido  autoridade do 
Vaticano, no exige o celibato dos padres e utiliza ritos 
orientais e ortodoxos), fora ameaado de morte por trabalhar com 
o governo, e mesmo assim no se decidia exilar-se, at que 
Athena, ouvindo escondida uma conversa telefnica, decidiu que 
era hora de crescer, assumir suas responsabilidades de filha, e 
proteger aqueles que tanto amava. 
Ensaiou uma espcie de dana, fingiu que estava em 
transe (aprendera tudo aquilo no colgio, quando estudava a vida 
de santos) e comeou a dizer coisas. No sei como uma criana 
pode fazer com que adultos tomem decises baseadas em seus 
comentrios, mas Athena afirmou que fora exatamente assim, o pai 
era supersticioso, estava absolutamente convencida que salvara a 
vida de sua famlia. 
Chegaram aqui como refugiados, mas no como mendigos. 
A comunidade libanesa est espalhada no mundo inteiro, o pai logo 
encontrou um meio de restabelecer seus negcios, e a vida 
continuou. Athena pde estudar em boas escolas, fez cursos de 
dana - que era sua paixo - e escolheu a faculdade de engenharia 
assim que terminou os cursos secundrios. 
J em Londres, seus pais a convidaram para jantar em 
um dos restaurantes mais caros da cidade, e explicaram, com todo 
cuidado, que ela tinha sido adotada. Ela fingiu surpresa, 
abraou-os, e disse que nada iria mudar a relao entre eles.
Mas na verdade, algum amigo da famlia, em um momento 
de dio, j lhe havia chamado de "rf sem gratido, voc nem 
sequer  filha natural, e no sabe como se comportar". Ela atirou 
um cinzeiro que o feriu no rosto, chorou escondida durante dois 
dias, mas logo se acostumou com o fato. O tal parente ficou com 
uma cicatriz que no podia explicar para ningum, e passou a 
dizer que tinha sido agredido na rua por assaltantes. 
Convidei-a para sair no dia seguinte. De maneira 
absolutamente direta disse que era virgem, freqentava a igreja 
aos domingos, e no se interessava por romances de amor - estava 
mais preocupada em ler tudo que podia sobre a situao no Oriente 
Mdio. 
Enfim, estava ocupada. Ocupadssima.
- As pessoas acreditam que o nico sonho de uma mulher 
 casar e ter filhos. E voc acha que, por causa de tudo que lhe 
contei, sofri muito na vida. No  verdade, e j conheo esta 
histria, outros homens se aproximaram de mim com a conversa de  
"proteger-me" das tragdias.
"O que elas esquecem  que, desde a Grcia antiga, as 
pessoas que retornavam dos combates vinham mortas em cima de seus 
escudos, ou mais fortes, em cima de suas cicatrizes. Melhor 
assim: estou no campo de batalha desde que nasci, continuo viva, 
e no preciso ningum para me proteger."
Ela deu uma pausa. 
- V como sou culta?
- Muito culta, mas quando ataca algum mais fraca que 
voc, est insinuando que realmente necessita de proteo. Podia 
ter arruinado sua carreira universitria ali.
- Tem razo. Aceito o convite.
A partir desse dia passamos a sair com regularidade, e 
quanto mais perto dela eu ficava, mais eu descobria minha prpria 
luz - porque me estimulava a dar sempre o melhor de mim mesmo. 
Jamais tinha lido qualquer livro de magia ou esoterismo: dizia 
que era coisa do demnio, que a nica salvao estava em Jesus e 
ponto final. De vez em quando insinuava coisas que no pareciam 
estar de acordo com os ensinamentos da Igreja:
- Cristo estava cercado de mendigos, prostitutas, 
cobradores de impostos, pescadores. Penso que com isso queria 
dizer que a centelha divina est na alma de todos, jamais se 
extingue. Quando fico quieta, ou quando estou muitssimo agitada, 
sinto que estou vibrando junto com o Universo inteiro. E passo a 
conhecer coisas que no conheo - como se fosse o prprio Deus 
que estivesse guiando meus passos. H minutos em que sinto que 
tudo me est sendo revelado.
E logo se corrigia:
- Isso  errado.
Athena vivia sempre entre dois mundos: o que sentia
como verdadeiro e o que lhe era ensinado atravs de sua f. 
Certo dia, depois de quase um semestre de equaes, 
clculos, estudos de estrutura, disse que ia abandonar a 
faculdade:
- Mas voc nunca comentou isso comigo!
- Tinha medo at de conversar este assunto comigo 
mesma. Entretanto, hoje estive na minha cabeleireira; ela 
trabalhou dia e noite para que sua filha pudesse acabar o curso 
de sociologia. A filha conseguiu terminar a faculdade, e, depois 
de bater em muitas portas, conseguiu trabalhar como secretria em 
uma firma de cimento. Mesmo assim, minha cabeleira repetia hoje, 
toda orgulhosa: "minha filha tem um diploma".
"A maioria dos amigos de meus pais, e dos filhos dos 
amigos de meus pais, tem um diploma. Isso no significa que 
conseguiram trabalhar no que desejavam - muito pelo contrrio, 
entraram e saram de uma universidade porque algum, em uma poca 
em que as universidades parecem importantes, disse que uma pessoa 
para subir na vida precisava ter um diploma. E o mundo deixa de 
ter excelentes jardineiros, padeiros, antiqurios, pedreiros, 
escritores."
Pedi que pensasse um pouco mais, antes de tomar uma 
deciso to radical. Mas ela citou os versos de Robert Frost:
"Diante de mim havia duas estradas
Eu escolhi a estrada menos percorrida 
E isso fez toda a diferena."
No dia seguinte, no apareceu para as aulas. Em nosso 
encontro seguinte perguntei o que iria fazer. 
- Casar. E ter um filho.
No era um ultimato. Eu tinha vinte anos, ela 
dezenove, e pensava que ainda era muito cedo para qualquer 
compromisso desta natureza. 
Mas Athena falava serssimo. E eu precisava escolher 
entre perder a nica coisa que realmente ocupava meu pensamento - 
o amor por aquela mulher - ou perder minha liberdade e todas as 
escolhas que o futuro me prometia. 
Honestamente, a deciso no foi nem um pouco difcil.

Padre Giancarlo Fontana, 72 anos

Claro que fiquei muito surpreso quando aquele casal, 
jovem demais, veio at a igreja para que organizssemos a 
cerimnia. Eu pouco conhecia Luks Jessen-Petersen, e naquele 
mesmo dia aprendi que sua famlia, de uma obscura nobreza da 
Dinamarca, era frontalmente contra a unio. No apenas contra o 
casamento, mas tambm contra a Igreja. 
Seu pai, baseando-se em argumentos cientficos 
realmente incontestveis, dizia que a Bblia, onde toda a 
religio est baseada, na verdade no era um livro - mas uma 
colagem de 66 manuscritos diferentes, onde no se conhece nem o 
verdadeiro nome, nem a identidade do autor; que entre o primeiro 
e o ltimo livro escrito se passaram quase mil anos, mais do que 
o tempo em que a Amrica foi descoberta por Colombo. E que nenhum 
ser vivo em todo o planeta - dos macacos aos pssaros - precisa 
de dez mandamentos para saber como comportar-se. Tudo que importa 
 que sigam as leis da natureza, e o mundo se manter em 
harmonia. 
Claro que leio a Bblia. Claro que sei um pouco de sua 
histria. Mas os seres humanos que a escreveram foram 
instrumentos do Poder Divino, e Jesus forjou uma aliana muito 
mais forte que os dez mandamentos: o amor. Os pssaros, os 
macacos, seja l de que criatura de Deus estivermos falando, 
obedecem aos seus instintos e seguem apenas aquilo que est 
programado. No caso do ser humano, as coisas ficam mais 
complicadas porque ele conhece o amor e as suas armadilhas.
Pronto. J estou eu fazendo de novo um sermo quando 
na verdade devia estar falando do meu encontro com Athena e 
Luks. Enquanto conversava com o rapaz - e eu digo conversar, 
porque no pertencemos  mesma f, e portanto no estou submetido 
ao segredo da confisso, soube que, alm do anticlericalismo que 
reinava em casa, havia uma imensa resistncia pelo fato de Athena 
ser estrangeira. Tive vontade de pedir que citasse pelo menos um 
trecho da Bblia, onde no est nenhuma profisso de f, mas um 
alerta ao bomsenso: 
"No abominars o edomeu, pois  teu irmo; nem 
abominars o egpcio, pois estrangeiro foste na sua terra."
Perdo. De novo comeo a citar a Bblia, e prometo que 
irei me controlar a partir de agora. Aps a conversa com o rapaz, 
passei pelo menos umas duas horas com Sherine - ou Athena, como 
preferia ser chamada. 
Athena sempre me intrigou. Desde que comeou a 
freqentar a igreja, me parecia ter um projeto muito claro em 
mente: tornar-se santa. Disse-me que, embora seu namorado no 
soubesse, pouco antes da guerra civil estourar em Beirute tivera 
uma experincia muito semelhante  de Santa Teresa de Lisieux: 
tinha visto sangue nas ruas. Podemos atribuir tudo isso a um 
trauma de infncia e adolescncia, mas o fato  que tal 
experincia, conhecida como "a possesso criativa pelo sagrado" 
acontece com todos os seres humanos, em maior ou menor escala. De 
repente, por uma frao de segundo, sentimos que toda a nossa 
vida est justificada, nossos pecados perdoados, o amor sempre  
mais forte, e pode nos transformar definitivamente. 
Mas tambm  neste momento que temos medo. Entregar-se 
por completo ao amor, seja ele divino ou humano, significa 
renunciar a tudo - inclusive ao seu prprio bem-estar, ou sua 
prpria capacidade de tomar decises. Significa amar no mais 
profundo sentido da palavra. Na verdade, no queremos ser salvos 
da maneira que Deus escolheu para nos resgatar: queremos manter o 
absoluto controle de todos os passos, ter plena conscincia de 
nossas decises, sermos capazes de escolher o objeto de nossa 
devoo. 
Com o amor no  assim - ele chega, instala-se, e 
passa a dirigir tudo. S mesmo almas muito fortes deixam-se 
levar, e Athena era uma alma forte. 
To forte que passava horas em profunda contemplao. 
Tinha um dom especial para a msica; diziam que danava muito 
bem, mas como a Igreja no  um local apropriado para isso, 
costumava trazer seu violo todas as manhs, e ficar pelo menos 
algum tempo cantando para a Virgem, antes de ir para a 
universidade. 
Ainda me recordo de quando a escutei pela primeira 
vez. J havia celebrado a missa matinal para os poucos 
paroquianos que se dispem a acordar cedo no inverno, quando me 
lembrei que havia esquecido de recolher o dinheiro que 
depositaram na caixa de oferendas. Voltei, e escutei uma msica 
que me fez ver tudo de maneira diferente, como se o ambiente 
tivesse sido tocado pela mo de um anjo. Em um canto, numa 
espcie de xtase, uma jovem de aproximadamente 20 anos de idade 
tocava em seu violo alguns hinos de louvor, com os olhos fixos 
na imagem da Imaculada Conceio.
Fui at a caixa de oferendas. Ela notou minha 
presena, e interrompeu o que fazia - mas fiz um sinal afirmativo 
com a cabea, incentivando-a a continuar. Depois, sentei-me em um 
dos bancos, fechei os olhos, e fiquei escutando. 
Neste momento, a sensao do Paraso, "a possesso 
criativa pelo sagrado" pareceu descer dos cus. Como se 
entendesse o que se passava no meu corao, ela comeou a 
combinar o seu canto com o silncio. Nos momentos em que parava 
de tocar, eu dizia uma prece. Em seguida, a msica recomeava. 
Tive conscincia de que estava vivendo um momento 
inesquecvel na minha vida - estes momentos mgicos que s 
conseguimos entender depois que j foram embora. Estava ali por 
inteiro, sem passado, sem futuro, vivendo apenas aquela manh, 
aquela msica, aquela doura, a prece inesperada. Entrei em uma 
espcie de adorao, de xtase, de gratido por estar neste 
mundo, contente por ter seguido minha vocao apesar dos 
confrontos com minha famlia. Na simplicidade daquela pequena 
capela, na voz da menina, na luz da manh que tudo inundava, mais 
uma vez entendi que a grandeza de Deus se mostra atravs das 
coisas simples.
Depois de muitas lgrimas e do que me parece uma 
eternidade, ela parou. Virei-me, descobri que era uma das 
paroquianas. Desde ento nos tornamos amigos, e sempre que 
podamos participvamos desta adorao atravs da msica.
Mas a idia do casamento me deixou completamente 
surpreso. Como tnhamos uma certa intimidade, quis saber como 
esperava que a famlia do marido a recebesse. 
- Mal. Muito mal.
Com todo cuidado, perguntei se estava sendo forada a 
casar por alguma razo.
- Sou virgem. No estou grvida.
Quis saber se j tinha comunicado sua prpria famlia, 
e me disse que sim - a reao foi de espanto, acompanhada de 
lgrimas da me e ameaas do pai.
- Quando venho aqui louvar a Virgem com minha msica, 
no estou pensando no que os outros vo dizer: estou apenas 
dividindo com ela os meus sentimentos. E, desde que me entendo 
por gente, sempre foi assim; sou um vaso onde a Energia Divina 
pode manifestar-se. E esta energia agora me pede que eu tenha uma
criana, de modo que possa dar-lhe aquilo que minha me de sangue
jamais me deu: proteo e segurana.
Ningum est seguro nesta terra, respondi. Tinha ainda 
um longo futuro pela frente, havia bastante tempo para o milagre 
da criao se manifestar. Mas Athena estava decidida: 
- Santa Teresa no se rebelou contra a doena que a 
atingiu; muito pelo contrrio, viu naquilo um sinal da Glria. 
Santa Teresa era muito mais jovem que eu, tinha quinze anos, 
quando decidiu entrar para um convento. Foi proibida, e no 
aceitou: resolveu ir conversar com o Papa diretamente - o senhor 
pode imaginar o que  isso? Conversar com o Papa! E conseguiu 
atingir seus objetivos. 
"Esta mesma Glria est me pedindo algo muito mais 
fcil e muito mais generoso que uma doena - que eu seja me. Se 
esperar muito, no poderei ser companheira de meu filho, a 
diferena de idade ser grande, e j no teremos os mesmos 
interesses em comum." 
No seria a nica, eu insisti. 
Mas Athena continuou, como se no estivesse me 
ouvindo:
- S estou feliz quando penso que Deus existe e me 
escuta; isso no basta para continuar vivendo, e nada parece ter 
um sentido. Procuro demonstrar uma alegria que no tenho, escondo 
minha tristeza para no deixar preocupados aqueles que tanto me 
amam e tanto se preocupam por mim. Mas recentemente tenho 
considerado a hiptese do suicdio.  noite, antes de dormir, 
tenho longas conversas comigo mesma, pedindo que esta idia v 
embora, seria uma ingratido com todos, uma fuga, uma maneira de 
espalhar tragdia e misria sobre a terra. De manh venho aqui 
conversar com a Santa, pedir que me livre dos demnios com quem 
falo durante a noite. Deu resultado at agora, mas comeo a 
fraquejar. Sei que tenho uma misso que recusei por muito tempo, 
e agora preciso aceit-la.
"Esta misso  ser me. Preciso cumpri-la, ou 
enlouqueo. Se no conseguir ver a vida crescendo dentro de mim, 
no conseguirei mais aceitar a vida que est do lado de fora."



Luks Jessen-Petersen, ex-marido

Quando Viorel nasceu eu acabara de completar 22 anos. 
J no era mais o estudante que acaba de casar com uma ex-
companheira de faculdade, mas um homem responsvel pelo sustento 
de sua famlia, com uma enorme presso sobre meus ombros. Meus 
pais,  claro, que nem sequer tinham comparecido ao casamento, 
condicionaram qualquer ajuda financeira  separao e  guarda do 
filho (melhor dizendo, meu pai comentou isso, porque minha me 
costumava telefonar chorando, dizendo que eu era um louco, mas 
que gostaria muito de segurar seu neto nos braos). Eu esperava 
que, na medida em que entendessem meu amor por Athena e minha 
deciso de continuar com ela, esta resistncia devia passar. 
Mas no passava. E agora eu precisava prover minha 
mulher e meu filho. Tranquei a matrcula na Faculdade de 
Engenharia. Recebi um telefonema do meu pai, com ameaas e 
afagos: dizia que, se eu continuasse assim, terminaria sendo 
colocado fora da herana, mas se voltasse  universidade, ele 
iria considerar ajudar-me "provisoriamente", segundo suas 
palavras. Eu me recusei; o romantismo da juventude exige que 
tenhamos sempre posies radicais. Disse que podia resolver meus 
problemas sozinho. 
At a data que Viorel nasceu, Athena comeava a fazer 
com que eu me entendesse melhor. E isso no tinha ocorrido 
atravs de nossa relao sexual - muito tmida, devo confessar - 
mas atravs da msica. 
A msica  to antiga quanto os seres humanos, me 
explicaram depois. Nossos ancestrais, que viajavam de caverna em 
caverna, no podiam carregar muitas coisas, mas a arqueologia 
moderna mostra que, alm do pouco que necessitavam para comer, na 
bagagem havia sempre um instrumento musical, geralmente um 
tambor. A msica no  apenas algo que nos conforte, ou que nos 
distraia, mas vai alm disso -  uma ideologia. Voc conhece as 
pessoas pelo tipo de msica que elas escutam. 
Vendo Athena danar enquanto estava grvida, 
escutando-a tocar seu violo para que o beb pudesse 
tranqilizar-se e entender que era amado, eu comecei a deixar que 
sua maneira de ver o mundo contagiasse tambm a minha vida. 
Quando Viorel nasceu, a primeira coisa que fizemos quando ele 
chegou em casa foi faz-lo escutar um adgio de Albinoni. Quando 
discutamos, era a fora da msica - embora eu no consiga 
estabelecer nenhuma relao lgica entre uma coisa ou outra, 
exceto pensar nos hippies - que nos ajudava a enfrentar os 
momentos difceis. 
Mas todo este romantismo no bastava para ganhar 
dinheiro. J que eu no tocava nenhum instrumento, e no podia 
sequer oferecer-me para distrair clientes em um bar, terminei 
conseguindo apenas um emprego como estagirio em uma firma de 
arquitetura, fazendo clculos estruturais. Pagavam muito pouco 
por hora, de modo que eu saa de casa cedo e voltava tarde. Quase 
no podia ver meu filho - que estava dormindo - e quase no podia 
conversar ou fazer amor com minha mulher, que estava exausta. 
Toda noite eu me perguntava: quando ser que vamos melhorar nossa 
condio financeira, e ter a dignidade que merecemos? Embora 
concorde quando Athena fala da inutilidade de diploma para a 
maioria dos casos, em engenharia (e direito, e medicina, por 
exemplo)  fundamental uma srie de conhecimentos tcnicos, ou 
estaremos arriscando a vida dos outros. E eu havia sido obrigado 
a interromper a busca de uma profisso que tinha escolhido, um 
sonho que era muito importante para mim.
As brigas comearam. Athena se queixava que eu dava 
pouca ateno  criana, que ela precisava de um pai, que se 
fosse apenas para ter um filho ela poderia fazer isso sozinha, 
sem precisar ter criado tantos problemas para mim. Mais de uma 
vez bati a porta de casa e fui caminhar, gritando que ela no me 
entendia, que eu tampouco entendia como terminara concordando com 
esta "loucura" de ter filho aos 20 anos, antes que tivssemos 
sido capazes de ter um mnimo de condies financeiras. Pouco a 
pouco deixamos de fazer amor, fosse por cansao, fosse porque um 
sempre vivia irritado com o outro. 
Comecei a entrar em depresso, achando que tinha sido 
usado e manipulado pela mulher que amava. Athena notou meu estado 
de esprito cada vez mais estranho, e, em vez de ajudar-me, 
decidiu concentrar sua energia apenas em Viorel e na msica. 
Minha fuga passou a ser o trabalho. De vez em quando conversava 
com meus pais, e sempre ouvia aquela histria de que "ela teve um 
filho para conseguir prend-lo". 
Por outro lado, sua religiosidade aumentava muito. 
Exigiu logo o batizado, com um nome que ela mesma havia decidido
- Viorel, de origem romena. Penso que, exceto por uns poucos
imigrantes, ningum na Inglaterra se chama Viorel, mas eu achei 
criativo, e mais uma vez entendi que estava fazendo uma estranha 
conexo com um passado que nem chegara a viver - os dias no 
orfanato em Sibiu. 
Eu procurava me adaptar a tudo - mas senti que estava 
perdendo Athena por causa da criana. Nossas brigas se tornaram 
mais freqentes, ela comeou a ameaar sair de casa, porque 
achava que Viorel estava recebendo as "energias negativas" de 
nossas discusses. Certa noite, depois de mais uma ameaa, quem
saiu de casa fui eu, achando que voltaria logo que me acalmasse
um pouco.
Comecei a caminhar por Londres sem qualquer rumo, 
blasfemando a vida que tinha escolhido, o filho que tinha 
aceitado, a mulher que parecia j no ter mais nenhum interesse 
na minha presena. Entrei no primeiro bar, perto de uma estao 
de metr, e tomei quatro doses de usque. Quando o bar fechou s 
11 da noite, fui at uma loja, destas que ficam abertas de 
madrugada, comprei mais usque, sentei-me em um banco de praa, e 
continuei bebendo. Um grupo de jovens se aproximou, pediu um que 
dividisse com eles a garrafa, eu recusei, e fui espancado. A 
polcia logo apareceu, e terminamos todos na delegacia. 
Eu fui liberado logo aps prestar depoimento. Evidente 
que no acusei ningum, disse que tinha sido uma discusso a toa, 
ou passaria alguns meses de minha vida tendo que comparecer a 
tribunais, como vtima de agresso. Quando estava pronto para 
sair, o meu estado de embriaguez era tal que ca por cima da mesa 
de um inspetor. O homem se irritou, mas ao invs de me prender 
por desacato  autoridade, empurrou-me para fora. 
E ali estava um dos meus agressores, que me agradeceu 
por no ter levado o caso adiante. Comentou que eu estava 
completamente sujo de lama e sangue, e sugeriu que eu arranjasse 
roupas novas, antes de voltar para casa. Em vez de continuar meu 
caminho, pedi que ele me fizesse um favor: que me escutasse, 
porque eu estava com uma imensa necessidade de falar. 
Durante uma hora ele ouviu em silncio minhas queixas. 
Na verdade eu no estava conversando com ele, mas comigo mesmo, 
um rapaz com toda uma vida pela frente, uma carreira que poderia 
ser brilhante, uma famlia que tinha contatos suficientes para 
facilitar abrir muitas portas, mas que agora parecia um dos 
mendigos de Hampstead (N.R.: bairro de Londres), embriagado, 
cansado, deprimido, sem dinheiro. Tudo por causa de uma mulher, 
que nem sequer me dava ateno. 
No final de minha histria, j enxergava melhor a 
condio em que me encontrava: uma vida que eu tinha escolhido, 
acreditando que o amor sempre pode salvar tudo. E no  verdade: 
s vezes ele termina nos levando ao abismo, com a agravante de 
que geralmente carregamos conosco pessoas queridas. Neste caso, 
eu estava a caminho de destruir no apenas a minha existncia, 
mas tambm Athena e Viorel. 
Naquele momento, repeti mais uma vez para mim mesmo 
que era um homem, e no o rapaz que tinha nascido em bero de 
ouro, e enfrentado com dignidade todos os desafios que me tinham 
sido colocados. Fui para casa, Athena j estava dormindo com o 
beb em seus braos. Tomei um banho, sa de novo para jogar as 
roupas sujas na lixeira da rua, deitei-me, estranhamente sbrio. 
No dia seguinte, disse que desejava o divrcio. Ela 
perguntou por qu.
- Porque te amo. Amo Viorel. E tudo que tenho feito  
culpar vocs dois por ter abandonado meu sonho de ser engenheiro. 
Se tivssemos esperado um pouco, as coisas seriam diferentes, mas 
voc pensou apenas em seus planos - esqueceu de incluir-me neles.
 Athena no reagiu, como se j estivesse esperando por 
isso, ou como se inconscientemente estivesse provocando esta 
atitude. 
O meu corao sangrava, porque esperava que me pedisse 
por favor para ficar. Mas ela parecia calma, resignada, 
preocupada apenas em fazer com que o beb no escutasse nossa 
conversa. Foi nesse momento que tive certeza que jamais havia me 
amado, eu fora apenas um instrumento para a realizao deste 
sonho louco de ter um filho aos 19 anos.
Disse que podia ficar com a casa e os mveis, mas ela 
recusou-se: iria para a casa da me algum tempo, procuraria um 
emprego, e alugaria seu prprio apartamento. Perguntou-me se 
podia ajudar financeiramente com Viorel. Eu concordei na hora. 
Levantei-me, dei-lhe um ltimo e longo beijo, tornei a 
insistir que ela ficasse ali, ela voltou a afirmar que iria para 
casa de sua me assim que tivesse arrumado todas as suas coisas. 
Hospedei-me em um hotel barato, e fiquei esperando todas as 
noites que ela me telefonasse pedindo para voltar, recomear uma 
nova vida - eu estava inclusive pronto para continuar com a vida 
antiga se fosse necessrio, j que o afastamento me fizera dar 
conta que no havia ningum ou nada mais importante no mundo que 
a minha mulher e meu filho. 
Uma semana depois, recebi finalmente sua chamada. Mas 
tudo que me disse foi que j tinha retirado suas coisas, e no 
pretendia voltar. Mais duas semanas, soube que alugara um pequeno 
sto em Basset Road, onde precisava subir todos os dias trs 
lances de escada com um menino no colo. Dois meses se passaram, e 
terminamos por assinar os papis. 
Minha verdadeira famlia partia para sempre. E a 
famlia onde nasci me recebia de braos abertos.
Logo depois de nossa separao e do imenso sofrimento 
que a seguiu, eu me perguntei se realmente no tinha sido uma 
deciso errada, inconseqente, prpria de pessoas que leram 
muitas histrias de amor na adolescncia, e queriam repetir a 
todo custo o mito de Romeu e Julieta. Quando a dor acalmou - e s 
existe um remdio para isso, a passagem do tempo -, entendi que a 
vida me permitira encontrar a nica mulher que seria capaz de 
amar em toda a minha vida. Cada segundo passado ao seu lado 
valera a pena, apesar de tudo que aconteceu tornaria a repetir 
cada passo que dei. 
Mas o tempo, alm de curar as feridas, mostrou-me algo 
curioso:  possvel amar mais de uma pessoa durante a existncia. 
Casei-me novamente, estou feliz ao lado de minha nova mulher, e 
no posso imaginar o que seria viver sem ela. Isso porm no me 
obriga a renunciar a tudo que vivi, desde que tome o cuidado de 
jamais tentar comparar as duas experincias; no se pode medir o 
amor como medimos uma estrada ou a altura de um prdio. 
Algo muito importante ficou da minha relao com 
Athena: um filho, seu grande sonho, que me foi comunicado 
abertamente antes de nos decidirmos casar. Tenho outro filho com 
minha segunda mulher, agora estou bem preparado para todos os 
altos e baixos da paternidade, diferente de doze anos atrs.
Certa vez, em um dos encontros quando fui pegar Viorel 
para ficar o final de semana comigo, resolvi tocar no assunto: 
perguntei por que tinha se mostrado to calma quando soube que eu 
desejava me separar. 
- Porque aprendi a sofrer em silncio toda a minha 
vida - respondeu. 
E s ento abraou-me e chorou todas as lgrimas que 
gostaria de ter derramado naquele dia. 


Padre Giancarlo Fontana

Vi quando ela entrou para a missa de domingo, como 
sempre carregando o beb nos braos. Sabia das dificuldades que 
estavam passando, mas at aquela semana tudo no passava de um 
desentendimento normal entre casais, que eu esperava fosse 
resolvido mais cedo ou mais tarde, j que ambos eram pessoas que 
irradiavam o Bem a sua volta. 
H um ano no vinha tocar seu violo e louvar a Virgem 
na parte da manh; dedicava-se a cuidar de Viorel, que eu tive a
honra de batizar, embora no me lembre de nenhum santo com este 
nome. Mas continuava freqentando a missa todos os domingos, e 
sempre conversvamos no final, quando todos j tinham ido embora. 
Dizia que eu era seu nico amigo; juntos participamos das 
adoraes divinas, mas agora precisava dividir comigo as 
dificuldades terrenas. 
Amava Luks mais do que qualquer homem que havia 
encontrado; era o pai do seu filho, a pessoa que escolhera para 
dividir sua vida, algum que renunciara a tudo e tivera coragem 
bastante para constituir uma famlia. Quando as crises comearam, 
ela tentava faz-lo entender que era passageiro, precisava 
dedicar-se ao filho, mas no tinha a menor inteno de 
transform-lo em uma criana mimada; logo deixaria que 
enfrentasse sozinho certos desafios da vida. A partir da, 
voltaria a ser a esposa e a mulher que ele havia conhecido nos 
primeiros encontros, talvez at com mais intensidade, porque 
agora conhecia melhor os deveres e as responsabilidades da 
escolha que fizera. Mesmo assim, Luks sentia-se rejeitado; ela 
procurava desesperadamente dividir-se entre os dois, mas sempre 
era obrigada a escolher - e nestes momentos, sem a menor sombra 
de dvida, escolhia Viorel. 
Com meus parcos conhecimentos psicolgicos disse que 
no era a primeira vez que escutava este tipo de histria, e que 
os homens geralmente sentem-se rejeitados em uma situao como 
essa, mas logo passa; j assistira a este tipo de problema antes, 
conversando com meus paroquianos. Em uma destas conversas, Athena 
reconheceu que talvez tivesse se precipitado um pouco, o 
romantismo de ser uma jovem me no lhe deixou ver com clareza os 
verdadeiros desafios que surgem depois do nascimento do filho. 
Mas agora era tarde demais para arrependimentos. 
Perguntou se eu poderia conversar com Luks - que 
jamais aparecia na igreja, seja porque no acreditava em Deus, 
seja porque preferisse usar as manhs de domingo para estar mais 
prximo de seu filho. Eu me prontifiquei a faz-lo, desde que ele 
viesse por sua prpria vontade. E quando Athena estava prestes a 
pedir-lhe este favor, a grande crise aconteceu, e o marido saiu 
de casa. 
Aconselhei-a a ter pacincia, mas ela estava 
profundamente ferida. J tinha sido abandonada uma vez na 
infncia, e todo o dio que sentia de sua me de sangue foi 
automaticamente transferido para Luks - embora mais tarde, pelo 
que soube, tenham voltado  a ser bons amigos. Para Athena, romper 
os laos de famlia era talvez o pecado mais grave que algum 
pudesse cometer. 
Continuou a freqentar a igreja aos domingos, mas 
voltava logo para casa - j que no tinha mais com quem deixar o 
filho, e o menino chorava muito durante a cerimnia, incomodando 
a concentrao dos outros fiis. Em um dos raros momentos que 
pudemos conversar, disse que estava trabalhando em um banco, 
tinha alugado um apartamento, e que no me preocupasse; o "pai" 
(ela deixara de pronunciar o nome do marido) estava cumprindo com 
suas obrigaes financeiras. 
At que veio aquele domingo fatdico. 
Eu sabia o que tinha se passado durante a semana - um 
dos paroquianos me havia contado. Fiquei algumas noites pedindo 
que algum anjo me inspirasse, explicando-me se devia manter meu 
compromisso com a Igreja ou meu compromisso com os homens. Como o 
anjo no apareceu, entrei em contato com meu superior, e ele 
disse que a Igreja s consegue sobreviver porque sempre foi 
rgida com seus dogmas - se comeasse a abrir excees, 
estaramos perdidos desde a Idade Mdia. Sabia exatamente o que 
ia acontecer, pensei em telefonar para Athena, mas no me havia 
deixado seu novo nmero.
Naquela manh, minhas mos tremeram quando eu levantei 
a hstia, consagrando o po. Disse as palavras que a tradio 
milenar me havia transmitido, usando o poder passado de gerao 
em gerao pelos apstolos. Mas logo meu pensamento se voltou 
para aquela moa com seu filho no colo, uma espcie de Virgem 
Maria, o milagre da maternidade e do amor manifestos no abandono 
e na solido, que acabara de entrar na fila como sempre fazia, e, 
pouco a pouco, se aproximava para comungar. 
Penso que grande parte da congregao ali presente 
sabia o que estava acontecendo. E todos me olhavam, aguardando 
minha reao. Vi-me cercados de justos, pecadores, fariseus, 
sacerdotes do Sindrio, apstolos, discpulos, gente de boa e de
m vontade.
Athena parou diante de mim e repetiu o gesto de 
sempre: fechou os olhos, e abriu a boca para receber o corpo de 
Cristo. 
O Corpo de Cristo permaneceu nas minhas mos. 
Ela abriu os olhos, sem entender direito o que estava 
acontecendo. 
- Conversamos depois - sussurrei. 
Mas ela no se movia.
- Tem gente atrs de voc na fila. Conversamos depois. 
- O que est acontecendo? - todos que estavam prximos 
puderam escutar sua pergunta. 
- Conversamos depois.
- Por que no me d a comunho? No v que est me 
humilhando diante de todos? No basta tudo aquilo que j passei?
- Athena, a Igreja probe que pessoas divorciadas 
recebam o sacramento. Voc assinou os papis esta semana. 
Conversamos depois - insisti mais uma vez. 
Como no se movia, fiz meno para que a pessoa atrs 
dela passasse pelo lado. Continuei dando a comunho at que o 
ltimo paroquiano a tivesse recebido. E foi ento que, antes de 
voltar ao altar, escutei aquela voz.
J no era a voz da moa que cantava para adorar a 
Virgem, que conversava sobre seus planos, que se comovia ao 
contar o que aprendera sobre a vida dos santos, que quase chorava 
ao dividir suas dificuldades no casamento. Era a voz de um animal 
ferido, humilhado, com o corao repleto de dio. 
- Pois maldito seja este lugar! - disse a voz. - 
Malditos sejam aqueles que jamais escutaram as palavras de 
Cristo, e que transformaram sua mensagem em uma construo de 
pedra. Pois Cristo disse: "vinde a mim os que esto agoniados, e
eu os aliviarei". Eu estou agoniada, ferida, e no me deixam ir
at Ele. Hoje aprendi que a Igreja transformou estas palavras: 
vinde a mim os que seguem as nossas regras, e deixem os agoniados 
para l!
Escutei uma das mulheres na primeira fila dizendo que
se calasse. Mas eu queria ouvir, eu precisava ouvir. Voltei-me e
fiquei diante dela, com a cabea baixa - era a nica coisa que 
podia fazer. 
- Juro que jamais tornarei a colocar os ps em uma 
igreja. Mais uma vez sou abandonada por uma famlia, e agora no 
so dificuldades financeiras, ou imaturidade de gente que casa 
cedo. Malditos sejam todos os que fecham a porta para uma me e 
um filho! Vocs so iguais queles que no acolheram a Sagrada 
Famlia, iguais ao que negou Cristo quando Ele mais precisava de 
um amigo!
E, dando meia-volta, saiu aos prantos, com o filho nos 
braos. Eu terminei o ofcio, dei a bno final, e fui direto 
para a sacristia - naquele domingo no haveria confraternizao
com os fiis, nem conversas inteis. Naquele domingo, eu estava
diante de um dilema filosfico: tinha escolhido respeitar a
instituio, e no as palavras na qual a instituio  baseada. 
J estou velho, Deus pode me levar a qualquer minuto. 
Continuei fiel  minha religio, e acho que, apesar de todos os 
seus erros, est sinceramente se esforando para corrigir-se. 
Isso levar dcadas, talvez sculos, mas um dia tudo que ser 
levado em conta  o amor, a frase de Cristo: "vinde a mim os 
agoniados, e eu os aliviarei". Dediquei minha vida inteira ao 
sacerdcio, e no me arrependo um segundo da minha deciso. Mas 
em momentos como o que ocorreu naquele domingo, embora no 
duvidasse da f, passei a duvidar dos homens. 
Sei agora o que aconteceu com Athena, e me pergunto; 
ser que tudo comeou ali, ou j estava na sua alma? Penso nas 
muitas Athenas e Luks do mundo, que se divorciaram, e por causa 
disso j no podem receber o sacramento da Eucaristia, resta-lhes 
apenas contemplar o Cristo sofredor e crucificado, e escutar Suas 
palavras - que nem sempre esto de acordo com as leis do 
Vaticano. Em uns poucos casos estas pessoas se afastam, mas a 
maioria continua vindo  missa dos domingos, porque esto 
habituados com isso, mesmo conscientes que o milagre da 
transmutao do po e do vinho na carne e no sangue do Senhor 
lhes  proibida. 
Penso que, ao sair da igreja, Athena pode ter 
encontrado Jesus. E, chorando, se atirou em seus braos, confusa, 
pedindo que lhe explicasse por que estava sendo obrigada a ficar 
do lado de fora s por causa de um papel assinado, uma coisa sem 
a menor importncia no plano espiritual, e que s interessava 
mesmo a cartrios e imposto de renda. 
E Jesus, olhando para Athena, possivelmente teria 
respondido:
- Veja bem, minha filha, tambm estou do lado de fora. 
H muito tempo eles no me deixam entrar ali.


Pavel Podbieslki, 57 anos, proprietrio do apartamento

Eu e Athena tnhamos uma coisa em comum: ramos ambos
exilados de guerras, chegamos  Inglaterra ainda crianas, embora 
minha fuga da Polnia tenha acontecido h mais de cinqenta anos. 
Ns dois sabamos que, embora sempre haja uma mudana fsica, as 
tradies permanecem no exlio - as comunidades tornam a se 
reunir, a lngua e a religio continuam vivas, as pessoas tendem 
a se proteger umas s outras no ambiente que ser para sempre 
estrangeiro. 
Da mesma maneira que as tradies permanecem, o desejo 
de voltar vai sumindo. Ele precisa permanecer vivo em nossos 
coraes, uma esperana com a qual gostamos de nos enganar - mas 
que nunca ser colocada em prtica; eu jamais tornarei a viver em 
Czestochowa, ela e sua famlia jamais retornariam a Beirute. 
Foi este tipo de solidariedade que me fez alugar o 
terceiro andar de minha casa em Basset Road - caso contrrio, eu 
teria preferido inquilinos que no tivessem crianas. J havia 
cometido este erro antes, e duas coisas aconteciam: eu me 
queixava do barulho que eles faziam durante o dia, e eles se 
queixavam do barulho que eu fazia durante a noite. Ambos tinham 
suas razes em elementos sagrados - o choro e a msica -, mas, 
como pertenciam a dois mundos completamente diferentes, era 
difcil que um tolerasse o outro. 
Avisei-a, mas ela no ligou, e disse que ficasse 
tranqilo quanto ao seu filho: ele passava o dia inteiro na casa 
da av. E o apartamento tinha a convenincia de ser perto de seu 
trabalho, um banco nas redondezas. 
Apesar dos meus avisos, apesar de ter resistido 
bravamente no inicio, oito dias depois a campainha de minha porta 
tocou. Era ela, com o menino nos braos:
- Meu filho no consegue dormir. Ser que apenas hoje 
no d para abaixar a msica...
Todos na sala a olharam. 
 - O que  isso? 
O menino em seu colo parou imediatamente de chorar, 
como se estivesse to surpreso como a me ao ver aquele grupo de 
gente, que subitamente parara de danar. 
Apertei o boto que dava uma pausa na fita cassete, 
acenei com uma das mos para que entrasse, e logo destravei de 
novo o aparelho de som, de modo a no perturbar o ritual. Athena 
sentou-se em um dos cantos da sala, embalando o beb em seus 
braos, vendo que ele dormia com facilidade apesar do rudo do 
tambor e dos metais. Assistiu a toda a cerimnia, saiu quando os 
outros convidados tambm saram e - como eu podia imaginar - 
tocou a campainha de minha casa na manh seguinte, antes de ir 
para o trabalho. 
 - No precisa me explicar o que vi: gente danando de 
olhos fechados, e sei o que isso significa, porque muitas vezes 
fao a mesma coisa, so os nicos momentos de paz e de serenidade 
na minha vida. Antes de ser me, freqentava boates com meu 
marido e meus amigos; ali tambm via gente na pista de dana com 
os olhos fechados, algumas apenas para impressionar os outros, 
outras como se fossem movidas por uma fora maior, mais poderosa. 
E, desde que me entendo por gente, encontrei na dana uma maneira 
de conectar-me com algo mais forte, mais poderoso que eu. Mas 
queria saber que msica  essa. 
 - O que vai fazer neste domingo? 
- Nada de especial. Passear com Viorel no Regent"s 
Park, respirar um pouco de ar puro. Terei muito tempo para minha 
prpria agenda - neste momento de minha vida, escolhi seguir a 
agenda do meu filho.
- Pois irei com voc. 
Nos dois dias antes de nosso passeio, Athena vinha 
assistir ao ritual. O filho dormia depois de alguns minutos, e 
ela apenas olhava, sem dizer nada, o movimento ao redor. Embora 
permanecesse imvel no sof, tinha certeza que sua alma estava 
danando. 


Na tarde de domingo, enquanto passevamos no parque, 
pedi que prestasse ateno a tudo que estava vendo e ouvindo: as 
folhas que balanavam ao vento, as ondas na gua do lago, os 
pssaros cantando, os ces latindo, os gritos de crianas que 
corriam de um lado para o outro, como se obedecessem a uma 
estranha lgica, incompreensvel para os adultos. 
- Tudo se move. E tudo se move com um ritmo. E tudo 
que se move com um ritmo provoca um som; isso est acontecendo 
aqui e em qualquer lugar do mundo neste momento. Nossos 
ancestrais notaram a mesma coisa, quando procuravam fugir do frio 
em suas cavernas: as coisas se moviam e faziam barulho. 
"Os primeiros seres humanos talvez tivessem olhado 
isso com espanto, e logo em seguida com devoo: entenderam que 
esta era a maneira de uma Entidade Superior comunicar-se com 
eles. Passaram a imitar os rudos e os movimentos  sua volta, na 
esperana de comunicar-se tambm com esta Entidade: a dana e a 
msica acabavam de nascer. H alguns dias voc me disse que, 
danando, consegue comunicar-se com algo mais poderoso que voc."
- Quando dano, sou uma mulher livre. Melhor dizendo, 
sou um esprito livre, que pode viajar pelo universo, olhar o 
presente, adivinhar o futuro, transformar-se em energia pura. E 
isso me d um imenso prazer, uma alegria que est sempre muito 
mais alm das coisas que j experimentei, e que terei que 
experimentar ao longo de minha existncia. 
"Em uma poca da minha vida estava determinada a 
transformar-me em santa - louvando Deus atravs da msica e dos 
movimentos do meu corpo. Mas este caminho est definitivamente 
fechado para mim."
- Que caminho est fechado?
Ela ajeitou a criana no carrinho de beb. Vi que no 
tinha vontade de responder  pergunta, insisti: quando as bocas 
se fecham,  porque algo de importante est para ser dito. 
Sem demonstrar nenhuma emoo, como se tivesse que 
agentar sempre em silncio as coisas que a vida lhe impunha, ela 
contou-me o episdio da Igreja, quando o padre - talvez seu nico 
amigo - lhe havia recusado a comunho. E a maldio que lanara 
naquele minuto; abandonara para sempre a Igreja Catlica. 
- Santo  aquele que dignifica sua vida - expliquei. - 
Basta entender que todos ns estamos aqui por uma razo, e basta 
comprometer-se com ela. Assim, podemos rir de nossos grandes ou 
pequenos sofrimentos, e caminhar sem medo, conscientes de que 
cada passo tem um sentido. Podemos deixar-nos guiar pela luz que 
emana do Vrtice.
- O que  o Vrtice? Em matemtica,  o ponto superior 
de um tringulo. 
 - Na vida tambm  o ponto culminante, a meta de 
todos aqueles que erram como todo mundo, e, mesmo em seus 
momentos mais difceis, no perdem de vista uma luz que emana de 
seu corao. Isso procuramos fazer em nosso grupo. O Vrtice est 
escondido dentro de ns, e podemos chegar at ele se o 
aceitarmos, e se reconhecermos sua luz. 
Expliquei que a dana que vira nos dias anteriores, 
realizada por pessoas de todas as idades (no momento ramos um 
grupo de dez pessoas, entre 19 e 65 anos), tinha sido batizada 
por mim de "a busca do Vrtice". Athena perguntou onde eu havia 
descoberto isso. 
Contei-lhe que, logo depois do final da Segunda
Guerra, parte de minha famlia tinha conseguido escapar do regime
comunista que estava sendo instalado na Polnia, resolvendo
mudar-se para a Inglaterra. Escutaram dizer que, entre as coisas
que deviam trazer, estavam objetos de arte e livros antigos,
muito valorizados nesta parte do mundo.
De fato, quadros e esculturas foram logo vendidos, mas
os livros ficaram em um canto, enchendo-se de poeira. Como minha
me queria obrigar-me a ler e falar polons, eles serviram para
minha educao. Um belo dia, dentro de uma edio do sculo XIX
de Thomas Malthus, descobri duas folhas de anotaes de meu av,
morto em um campo de concentrao. Comecei a ler, acreditando
tratar-se de referncias sobre herana, ou cartas apaixonadas
para alguma amante secreta, j que corria a lenda de que um dia
se apaixonara por algum na Rssia.
De fato, havia uma certa relao entre a lenda e a
realidade. Era um relato de sua viagem  Sibria durante a
revoluo comunista; ali, na remota aldeia de Diedov, apaixonou-
se por uma atriz (N.R.: foi impossvel localizar no mapa tal
aldeia; ou o nome foi propositadamente trocado, ou o lugar
desapareceu depois das imigraes foradas de Stalin). Segundo 
meu av, ela fazia parte de uma espcie de seita, que julga 
encontrar em determinado tipo de dana o remdio para todos os 
males, j que ela permite o contato com a luz do Vrtice. 
Estavam temerosos que toda aquela tradio pudesse 
desaparecer; os habitantes seriam em breve deslocados para outro 
lugar, e o local passaria a ser usado para testes nucleares. 
Tanto a atriz como seus amigos pediram que escrevesse tudo que 
tinham aprendido. Ele assim o fez, mas no deve ter dado muita 
importncia ao caso, esquecendo suas anotaes dentro de um livro 
que carregava, at que um dia eu as descobri.
Athena me interrompeu:
- Mas no se pode escrever sobre dana.  preciso 
danar. 
- Exato. No fundo, as anotaes diziam apenas isso: 
danar at a exausto, como se fssemos alpinistas subindo esta 
colina, esta montanha sagrada. Danar at que, por causa da 
respirao ofegante, nosso organismo possa receber oxignio de
uma maneira que no est acostumado, e isso termina por fazer com
que percamos nossa identidade, nossa relao com o espao e o
tempo. Danar ao som de percusso apenas, repetir o processo
todos os dias, entender que em determinado momento os olhos se 
fecham naturalmente, e passamos a enxergar uma luz que vem de 
dentro de ns, que responde nossas perguntas, que desenvolve 
nossos poderes escondidos. 
- O senhor j desenvolveu algum poder?
Em vez de responder, sugeri que se juntasse ao nosso 
grupo, j que o menino parecia sempre estar  vontade mesmo 
quando o som dos pratos e instrumentos de percusso parecia muito 
alto. No dia seguinte, na hora que sempre comevamos a sesso, 
ela estava ali. Apresentei-a aos meus companheiros, explicando 
apenas que se tratava da vizinha do apartamento de cima; ningum
disse nada sobre sua vida, nem perguntou o que ela fazia. Quando 
chegou a hora marcada, liguei o som e comeamos a danar. 
Ela iniciou seus passos com o menino no colo, mas ele 
logo dormiu, e Athena o colocou no sof. Antes de fechar meus 
olhos e entrar em transe, vi que ela tinha entendido exatamente o 
caminho do Vrtice. 
Todos os dias - exceto aos domingos - ali estava ela 
com a criana. Trocvamos apenas umas poucas palavras de boas-
vindas; eu colocava a msica que um amigo meu conseguira nas 
estepes russas, e todos comevamos a danar at estarmos 
exaustos. No final de um ms, ela me pediu uma cpia da fita.
- Gostaria de fazer isso de manh, antes de deixar 
Viorel na casa de mame e ir para o trabalho. 
Eu relutei:
- Em primeiro lugar, penso que um grupo que est 
conectado na mesma energia termina criando uma espcie de aura e 
facilitando o transe de todo mundo. Alm do mais, fazer isso 
antes de ir ao trabalho  preparar-se para ser despedida, j que 
passar o dia inteiro cansada. 
Athena pensou um pouco, mas logo reagiu:
- O senhor tem razo quando fala na energia coletiva. 
Vejo que no seu grupo existem quatro casais e sua mulher. Todos, 
absolutamente todos - encontraram o amor. Por isso, podem dividir 
uma vibrao positiva comigo. 
"Mas estou s. Melhor dizendo, estou com meu filho, 
mas seu amor ainda no pode se manifestar de maneira que possamos 
entender. Ento prefiro aceitar minha solido: se procurar fugir 
dela neste momento, jamais tornarei a encontrar um parceiro. Se 
aceit-la ao invs de ficar lutando contra ela, talvez as coisas 
mudem. Vi que a solido  mais forte quando tentamos nos 
confrontar com ela - mas torna-se fraca quando simplesmente a 
ignoramos.
- Voc veio para o nosso grupo em busca do amor?
- Acho que seria um bom motivo, mas a resposta  no. 
Vim em busca de um sentido para a minha vida, cuja nica razo  
meu filho, e por isso temo que acabe destruindo Viorel, seja com 
uma proteo exagerada, seja porque terminarei projetando nele os 
sonhos que no consegui realizar. Em um destes dias, enquanto 
danava, me senti curada. Se estivesse com algo fsico, sei que 
poderamos chamar um milagre; mas era algo espiritual, que me 
incomodava, e que de repente se afastou. 
Eu sabia do que ela estava falando. 
- Ningum me ensinou a danar ao som desta msica - 
continuou Athena. - Mas eu pressinto que sei o que estou fazendo. 
- No  necessrio aprender. Lembre-se de nosso 
passeio no parque, e do que vimos: a natureza criando o ritmo e 
adaptando-se a cada momento.  
- Ningum me ensinou a amar. Mas eu j amei a Deus, 
amei meu marido, amo meu filho e minha famlia. E mesmo assim, 
falta algo. Embora eu fique cansada enquanto dano, quando 
termino pareo estar em estado de graa, em um xtase profundo. 
Quero que este xtase se prolongue durante o dia. E que ele me 
ajude a encontrar o que falta: o amor de um homem. 
"Posso sempre ver o corao deste homem enquanto 
dano, embora no consiga ver sua face. Sinto que ele est 
prximo, e para isso preciso estar atenta. Preciso danar de 
manh, de modo que possa passar o resto do dia prestando ateno 
a tudo que acontece  minha volta. 
- Voc sabe o que quer dizer a palavra "xtase"? Ela 
vem do grego, e significa: sair de si mesmo. Passar o dia inteiro 
fora de si mesmo,  pedir demasiado do corpo e da alma. 
- Tentarei. 
Vi que no adiantava discutir, e fiz uma cpia da 
fita. A partir de ento, todos os dias acordava com aquele som no 
andar de cima, podia ouvir seus passos, e me perguntava como era 
capaz de encarar seu trabalho em um banco depois de quase uma 
hora de transe. Em um de nossos encontros casuais nos corredores, 
sugeri que viesse tomar um caf. Athena me contou que tinha feito 
outras cpias da fita, e que agora muita gente em seu trabalho 
estava procurando o Vrtice. 
- Agi errado? Era algo secreto?
Claro que no; pelo contrrio, estava me ajudando a 
preservar uma tradio quase perdida. Nas anotaes do meu av, 
uma das mulheres dizia que um monge em visita pela regio havia 
afirmado que todos os nossos antepassados e todas as geraes 
futuras esto presentes em ns. Quando nos libertvamos, 
estvamos fazendo a mesma coisa com a humanidade. 
- Ento as mulheres e homens daquela cidadezinha da 
Sibria devem estar presentes, e contentes. O trabalho deles est 
renascendo neste mundo, graas ao seu av. Mas eu tinha uma 
curiosidade: por que resolveu danar, depois que leu o texto? Se 
tivesse lido algo sobre esporte, teria decidido ser jogador de 
futebol?
Era a pergunta que ningum me fazia. 
- Porque estava doente, na poca. Tinha uma espcie de 
artrite rara, e os mdicos diziam que eu devia me preparar para 
estar em uma cadeira de rodas aos 35 anos. Vi que tinha pouco 
tempo diante de mim, e resolvi me dedicar a tudo que no poderia 
fazer mais adiante. Meu av tinha escrito, naquele pequeno pedao 
de papel, que os habitantes de Diedov acreditavam nos poderes 
curativos do transe. 
- Pelo visto, eles tinham razo. 
Eu no respondi nada, mas no estava to certo assim. 
Talvez os mdicos tivessem se enganado. Talvez o fato de ser um 
imigrante junto com minha famlia, sem poder dar-se ao luxo de 
ficar doente, tenha agido com tal fora no meu inconsciente que 
provocou uma reao natural do organismo. Ou talvez fosse mesmo 
um milagre, o que iria absolutamente contra o que prega minha f 
catlica: danas no curam. 
Lembro-me que, na minha adolescncia, j que no tinha 
a msica que julgava adequada, costumava colocar um capuz preto 
na minha cabea e imaginar que a realidade em torno de mim 
deixava de existir: meu esprito viajava para Diedov, com aquelas 
mulheres e homens, com meu av e sua atriz to amada. No silncio 
do quarto eu pedia que me ensinassem a danar, ir alm dos meus 
limites, porque em pouco tempo estaria paralisado para sempre. 
Quanto mais meu corpo se movia, mais a luz do meu corao se 
mostrava, e mais eu aprendia - talvez comigo mesmo, talvez com os 
fantasmas do passado. Cheguei mesmo a imaginar que msica 
escutavam em seus rituais, e quando um amigo visitou a Sibria, 
muitos anos mais tarde, pedi que me trouxesse alguns discos; para 
minha surpresa, um deles era muito parecido com o que julgava ser 
a dana de Diedov. 
Melhor no dizer nada a Athena - ela era uma pessoa 
facilmente influenciada, e seu temperamento me parecia instvel. 
- Talvez voc esteja agindo corretamente - foi meu 
nico comentrio. 
Tornamos a conversar mais uma vez, pouco antes de sua 
viagem ao Oriente Mdio. Parecia contente, como se tivesse 
encontrado tudo que desejava: o amor.
- As pessoas no meu trabalho criaram um grupo, e 
chamam a si mesmas "os peregrinos do Vrtice". Tudo graas ao seu 
av.
- Graas a voc, que sentiu necessidade de dividir 
isso com os outros. Sei que est de partida, e quero lhe 
agradecer por ter dado outra dimenso quilo que eu fiz durante 
anos, tentando difundir esta luz com alguns poucos interessados, 
mas sempre de maneira tmida, sempre achando que as pessoas iam 
achar ridcula toda esta histria. 
- Sabe o que eu descobri? Que embora o xtase seja a 
capacidade de sair de si mesmo, a dana  uma maneira de subir ao 
espao. Descobrir novas dimenses, e mesmo assim continuar em 
contato com seu corpo. Com a dana, o mundo espiritual e o mundo 
real conseguem conviver sem conflitos. Acho que os bailarinos 
clssicos ficam na ponta dos ps porque esto ao mesmo tempo 
tocando a terra e alcanando os cus. 
Que eu possa me lembrar, estas foram suas ltimas 
palavras. Durante qualquer dana  qual nos entregamos com 
alegria, o crebro perde o seu poder de controle, e o corao 
toma as rdeas do corpo. S neste momento o Vrtice aparece.
Desde que acreditemos nele, claro. 
 

Peter Sherney, 47 anos, diretor-geral de uma filial do 
Bank of (eliminado) em Holland Park, Londres


Aceitei Athena apenas porque sua famlia era um dos 
nossos clientes mais importantes - afinal de contas, o mundo gira 
em torno dos interesses mtuos. Como era agitada demais, 
coloquei-a para trabalhar em um servio burocrtico, na doce 
esperana de que terminasse por pedir demisso; desta maneira, eu 
poderia dizer ao seu pai que havia tentado ajud-la, sem sucesso. 
Minha experincia como diretor havia me ensinado a 
conhecer o estado de esprito das pessoas, mesmo que elas no 
digam nada. Haviam ensinado em um curso de gerenciamento: se voc 
quiser livrar-se de algum, faa tudo para que ele termine lhe 
faltando com o respeito, e assim poder ser demitido por justa 
causa. 
Fiz todo o possvel para atingir meu objetivo com 
Athena; como ela no dependia deste dinheiro para sobreviver, ia 
terminar descobrindo que o esforo de acordar cedo, deixar o 
filho na casa da me, trabalhar o dia inteiro em um servio 
repetitivo, voltar para pegar o filho, ir ao supermercado, cuidar 
da criana, faz-la dormir, no dia seguinte tornar a gastar trs 
horas em meios de transporte coletivo, tudo absolutamente 
desnecessrio, j que havia outras maneiras mais interessantes de 
passar seus dias. Aos poucos estava cada vez mais irritadia, e 
fiquei orgulhoso de minha estratgia: ia conseguir. Ela comeou a 
reclamar do lugar onde vivia, dizendo que em seu apartamento o 
proprietrio costumava colocar msica altssima durante a noite, 
e j no conseguia nem sequer dormir direito. 
De repente, alguma coisa mudou. Primeiro apenas em 
Athena. E logo em toda a agncia.
Como posso notar esta mudana? Bem, um grupo de 
pessoas que trabalha  sempre uma espcie de orquestra; um bom 
gerente  o maestro, e sabe qual instrumento est desafinado, 
qual transmite mais emoo, e qual simplesmente segue o resto do 
grupo. Athena parecia tocar seu instrumento sem o menor 
entusiasmo, sempre distante, jamais dividindo com seus 
companheiros as alegrias ou tristezas de sua vida pessoal, dando 
a entender que, quando saa do trabalho, o resto do tempo se 
resumia a cuidar do seu filho, e nada mais. At que comeou a 
parecer mais descansada, mais comunicativa, contando para quem 
quisesse ouvir que havia descoberto um processo de 
rejuvenescimento. 
Claro que isso  uma palavra mgica: rejuvenescimento. 
Partindo de algum com apenas 21 anos de idade, soa absolutamente 
fora de contexto - e, mesmo assim, as pessoas acreditaram, e 
comearam a pedir o segredo desta frmula.
Sua eficincia aumentou - embora o servio continuasse 
o mesmo. Seus colegas de trabalho, que antes se limitavam ao "bom 
dia" e "boa noite", passaram a convid-la para almoar. Quando 
voltavam, pareciam satisfeitos, e a produtividade do departamento 
deu um gigantesco salto. 
Sei que pessoas apaixonadas terminam por contagiar o 
meio em que vivem, deduzi imediatamente que Athena devia ter 
encontrado algum muito importante para sua vida. 
Perguntei, e ela concordou, acrescentando que jamais 
tinha sado com um cliente, mas neste caso foi impossvel recusar 
o convite. Em uma situao normal, teria sido imediatamente 
despedida - as regras do banco eram claras, contatos pessoais 
estavam terminantemente proibidos. Mas, a esta altura, notara que 
o seu comportamento havia contagiado praticamente todo mundo; 
alguns de seus colegas comearam a se reunir com ela depois do 
trabalho, e, pelo que eu saiba, pelo menos dois ou trs deles 
estiveram em sua casa. 
Eu estava com uma situao muito perigosa nas mos; a 
jovem estagiria, sem qualquer experincia anterior de trabalho, 
que antes era tmida e s vezes agressiva, tornara-se uma espcie 
de lder natural dos meus funcionrios. Se a despedisse, achariam 
que foi por cime - e perderia o respeito deles. Se a mantivesse, 
corria o risco de em poucos meses perder o controle do grupo. 
Resolvi aguardar um pouco; enquanto isso, a "energia" 
(eu detesto esta palavra, porque na verdade no quer dizer nada 
de concreto, a no ser que estejamos falando de eletricidade) da 
agncia comeou a melhorar. Os clientes pareciam mais 
satisfeitos, e comearam a recomendar outros. Os funcionrios 
estavam alegres, e embora o servio tivesse dobrado, eu no fui 
obrigado a contratar mais gente para o trabalho, j que todos 
davam conta de suas funes. 
Um dia, recebi uma carta de meus superiores. Eles 
queriam que eu fosse at Barcelona, onde seria realizada uma 
conveno do grupo, para poder explicar o mtodo administrativo 
que estava usando. Segundo eles, tinha conseguido aumentar o 
lucro sem crescer a despesa, e isso  tudo que interessa aos 
executivos - no mundo inteiro, diga-se de passagem.
Qual mtodo? 
Meu nico mrito era saber onde tudo tinha comeado, e 
resolvi chamar Athena ao meu escritrio. Cumprimentei-a pela 
excelente produtividade, ela me agradeceu com um sorriso. 
Dei um passo cuidadoso, j que no queria ser mal 
interpretado:
- E como vai seu namorado? Sempre achei que quem 
recebe amor, termina dando mais amor ainda. O que ele faz?
- Trabalha na Scotland Yard (N.R.: departamento de 
investigao ligado  polcia metropolitana de Londres).
Preferi no entrar em maiores detalhes. Mas precisava 
continuar a conversa a qualquer custo, e no tinha muito tempo a 
perder. 
- Notei uma grande mudana em voc, e...
- Notou uma grande mudana na agncia?
Como responder a uma questo dessas? De um lado, 
estaria lhe dando mais poder do que seria aconselhvel, de outro 
lado, se no fosse direto, jamais teria as respostas que 
precisava. 
- Sim, notei uma grande mudana. E estou pensando em 
promov-la. 
- Preciso viajar. Quero sair um pouco de Londres, 
conhecer novos horizontes. 
Viajar? Agora que tudo estava dando certo em meu 
ambiente de trabalho, ela queria ir embora? Mas, pensando melhor, 
no era exatamente esta sada que eu estava precisando e 
desejando?
- Posso ajudar o banco se me der mais 
responsabilidades - continuou. 
Entendido - e ela estava me dando uma excelente 
oportunidade. Como  que no havia pensado antes nisso? "Viajar" 
significava afast-la, retomar minha liderana, sem ter que arcar 
com os custos de uma demisso ou de uma rebelio. Mas precisava 
refletir sobre o assunto, porque, antes de ajudar o banco, ela 
precisava me ajudar. Agora que meus chefes haviam notado o 
crescimento de nossa produtividade, eu sei que precisaria mant-
la, sob o risco de perder o prestgio e ficar em pior posio que 
antes. s vezes entendo por que grande parte de meus companheiros 
no procuram fazer muita coisa para melhorar: se no conseguem, 
so chamados de incompetentes. Se conseguem, so obrigados a 
crescer sempre, e terminam seus dias tendo um enfarte do 
miocrdio. 
Dei com cuidado o prximo passo: no  aconselhvel 
assustar a pessoa antes que ela revele o segredo que precisamos 
saber; melhor fingir que concordamos com o que est pedindo.
- Tentarei fazer chegar seu pedido aos meus 
superiores. Por sinal, vou me encontrar com eles em Barcelona, e 
justamente por causa disso  que resolvi cham-la. Estaria certo
se dissesse que o nosso desempenho melhorou desde que, digamos, 
as pessoas passaram a ter um melhor relacionamento com voc?
- Digamos... um melhor relacionamento com elas mesmas. 
- Sim. Mas provocado por voc - ou estou enganado?
- O senhor sabe que no est enganado.
- Andou lendo algum livro de gerenciamento que no
conheo?
- No leio este tipo de coisa. Mas gostaria que me
prometesse que vai realmente considerar o que pedi. 
Pensei em seu namorado da Scotland Yard; se prometesse 
e no cumprisse, estaria sujeito a uma represlia? Ser que ele 
havia lhe ensinado alguma tecnologia de ponta, que consegue obter 
resultados impossveis? 
- Posso contar absolutamente tudo, mesmo que o senhor 
no cumpra sua promessa. Mas no sei se ter algum resultado, se 
no fizer o que estou lhe ensinando. 
- A tal "tcnica de rejuvenescimento"? 
- Isso mesmo. 
- Ser que no basta conhecer apenas em teoria?
- Talvez. Foi atravs de algumas folhas de papel que 
ela chegou at quem me ensinou. 
Fiquei contente que no estivesse me forando a tomar 
decises que esto alm do meu alcance e dos meus princpios. 
Mas, no fundo, devo confessar que tambm estava com um interesse 
pessoal nesta histria, j que tambm sonhava com uma reciclagem 
de meu potencial. Prometi que faria o possvel, e Athena comeou 
a narrar uma longa e esotrica dana em busca de um tal Vrtice 
(ou Eixo, agora no me lembro direito).  medida que amos 
falando, eu procurava colocar de maneira objetiva suas reflexes 
alucinadas. Uma hora apenas no foi suficiente, de modo que pedi 
que voltasse no dia seguinte, e juntos preparamos o relatrio 
para ser apresentado  diretoria do banco. Em determinado momento 
de nossa conversa, ela me disse, sorrindo:
- No tenha receio de escrever algo muito prximo ao 
que estamos conversando. Penso que mesmo a diretoria de um banco 
 feita de gente como ns, de carne e osso, e deve estar 
interessadssima em processos no convencionais. 
Athena estava completamente enganada: na Inglaterra, 
as tradies falam sempre mais alto que as inovaes. Mas o que 
custava arriscar um pouco, desde que no colocasse em perigo o 
meu trabalho? J que a coisa me parecia completamente absurda, 
era preciso resumi-la e coloc-la de forma que todos pudessem 
entender. Bastava isso. 

Antes de comear minha conferncia em Barcelona, 
repeti a manh inteira: o "meu" processo est dando resultado, e 
isso  tudo que interessa. Li alguns manuais, descobrindo que, 
para apresentar uma idia nova com o mximo de impacto possvel, 
 preciso tambm criar uma estrutura de palestra que provoque a 
audincia, de modo que a primeira coisa que disse para os 
executivos reunidos em um hotel de luxo foi uma frase de So 
Paulo: "Deus escondeu as coisas mais importantes dos sbios, 
porque eles no conseguem entender o que  simples, e resolveu 
revel-las aos simples de corao" (N. R.: impossvel saber aqui 
se ele est se referindo a uma citao do evangelista Mateus (11, 
25) onde diz "Graas te dou,  Pai, Senhor do cu e da terra, 
porque ocultaste estas coisas aos sbios e entendidos, e as 
revelaste aos pequeninos". Ou a uma frase de Paulo (Cor 1, 27): 
"Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as 
sbias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para 
confundir as fortes"). 
Quando disse isso, o auditrio inteiro, que passara 
dois dias analisando grficos e estatsticas, ficou em silncio. 
Achei que tinha perdido meu emprego, mas resolvi continuar. 
Primeiro, porque havia pesquisado o tema, estava seguro do que 
dizia, e merecia o crdito. Segundo, porque, embora em 
determinados momentos eu fosse obrigado a omitir a influncia 
gigantesca de Athena em todo o processo, eu tampouco estava 
mentindo:
- Descobri que, para motivar hoje em dia os 
funcionrios,  preciso mais do que um bom treinamento em nossos 
centros extremamente qualificados. Todos ns temos nossa parte 
desconhecida, que, quando vem  tona,  capaz de produzir 
milagres. 
"Todos ns trabalhamos por alguma razo: alimentar os 
filhos, ganhar dinheiro para sustentar-se, justificar sua vida, 
conseguir uma parcela de poder. Mas existem etapas aborrecidas 
durante este percurso, e o segredo consiste em transformar estas 
etapas em um encontro consigo mesmo, ou com algo mais elevado.
Por exemplo: nem sempre a busca da beleza est 
associada a alguma coisa prtica, e mesmo assim a procuramos como 
se fosse a coisa mais importante do mundo. Os pssaros aprendem a 
cantar, o que no significa que isso ir ajud-los a conseguir 
comida, evitar os predadores, ou afastar os parasitas. Os 
pssaros cantam, segundo Darwin, porque s desta maneira 
conseguem atrair o parceiro e perpetuar a espcie." 
Fui interrompido por um executivo de Genve, que 
insistia em uma apresentao mais objetiva. Mas o Diretor-Geral 
me encorajou a seguir adiante, o que me deixou entusiasmado. 
- Ainda segundo Darwin, que escreveu um livro capaz de 
mudar o curso da humanidade (N.R.: A origem das espcies, 1871, 
onde mostra que o homem  uma evoluo natural de um tipo de 
macaco), todos aqueles que conseguem despertar paixes esto 
repetindo algo que se passa desde o tempo das cavernas, onde os 
ritos para cortejar o prximo eram fundamentais para que a 
espcie humana pudesse sobreviver e evoluir. Ora, que diferena 
existe entre a evoluo da espcie humana e a evoluo de uma 
agncia bancria? Nenhuma. As duas obedecem s mesmas leis - s 
os mais capazes sobrevivem e se desenvolvem. 
Neste momento, fui obrigado a citar que havia 
desenvolvido esta idia graas  espontnea colaborao de uma de 
minhas funcionrias, Sherine Khalil.
- Sherine, que gosta de ser chamada de Athena, trouxe 
para o seu lugar de trabalho um novo tipo de comportamento, ou 
seja, a paixo. Isso mesmo, a paixo, algo que nunca consideramos 
quando estamos tratando de emprstimos ou planilhas de gastos. 
Meus funcionrios passaram a usar a msica como um estmulo para 
atender melhor seus clientes.
Outro executivo interrompeu, dizendo que isso era uma 
idia antiga: os supermercados faziam a mesma coisa, usando 
melodias que induziam o cliente a comprar.
- Eu no estou dizendo que colocamos msica no 
ambiente de trabalho. As pessoas passaram a viver de maneira 
diferente, porque Sherine, ou Athena se preferirem, ensinou-os a 
danar antes de enfrentarem sua labuta diria. No sei exatamente 
que mecanismo isso pode despertar nas pessoas; como gerente, sou 
apenas responsvel pelos resultados, e no pelo processo. No 
dancei. Mas entendi que, atravs daquele tipo de dana, todos se 
sentiam mais conectados com o que faziam. 
"Nascemos, crescemos, e fomos educados com a mxima: 
tempo  dinheiro. Sabemos exatamente o que  dinheiro, mas qual o 
significado da palavra tempo? O dia compreende 24 horas e uma 
infinidade de momentos. Precisamos ter conscincia de cada 
minuto, saber aproveit-lo naquilo que estamos fazendo ou apenas 
na contemplao da vida. Se desaceleramos, tudo dura muito mais. 
Claro, pode durar mais a lavagem de pratos, ou a soma de saldos, 
ou a compilao de crditos, ou a contagem de notas promissrias, 
mas por que no usar isso para pensar em coisas agradveis, 
alegrar-se com o fato de estar vivo?"
O principal executivo do banco me olhava com surpresa. 
Tenho certeza que ele desejava que eu continuasse a explicar 
detalhadamente tudo o que aprendera, mas alguns dos presentes 
comeavam a sentir-se inquietos. 
- Entendo perfeitamente o que o senhor quer dizer - 
comentou ele. - Sei que seus funcionrios passaram a fazer o 
trabalho com mais entusiasmo, porque tinham pelo menos um momento 
do dia em que entravam em contato consigo mesmos. Gostaria de 
cumpriment-lo por ter sido flexvel o bastante para permitir a 
integrao de ensinamentos no ortodoxos, que esto dando 
excelentes resultados. 
"Mas, j que estamos em uma conveno, e estamos 
falando de tempo, o senhor tem apenas cinco minutos para concluir 
sua apresentao. Seria possvel tentar elaborar uma lista de 
pontos principais que nos permitam aplicar estes princpios em 
outras agncias?"
Ele tinha razo. Aquilo tudo podia ser bom para o 
emprego, mas podia tambm ser fatal para minha carreira, de modo 
que resolvi resumir o que tnhamos escrito juntos. 
- Baseando-me em observaes pessoais, desenvolvi 
junto com Sherine Khalil alguns pontos, que terei o maior prazer 
em discutir com quem se interessar. Aqui vo os principais:
"A] todos ns temos uma capacidade desconhecida, e que 
permanecer desconhecida para sempre. Mesmo assim, ela pode ser 
nossa aliada. Como  impossvel medi-la ou dar a esta capacidade 
um valor econmico, nunca  levada em considerao, mas estou 
falando aqui com seres humanos, tenho certeza que entendem o que 
estou dizendo, pelo menos em teoria. 
"B] Na minha agncia, tal capacidade foi provocada 
atravs de uma dana baseada em um ritmo que, se no me engano, 
vem dos desertos da sia. Mas o lugar onde nasceu  irrelevante, 
desde que as pessoas possam expressar com seu corpo o que a alma 
pretende dizer. Sei que a palavra "alma" pode ser mal 
compreendida aqui, portanto aconselho que a troquemos por 
"intuio". E se esta palavra tambm no for bem assimilada, 
usaremos ento "emoes primrias", que parece ter uma conotao 
mais cientfica, embora queira dizer menos do que as palavras 
anteriores. 
"C] Antes de ir ao trabalho, em vez de ginstica ou 
exerccios de aerbica, estimulei meus funcionrios a danarem 
pelo menos durante uma hora. Isso estimula o corpo e a mente, 
comeam o dia exigindo criatividade de si mesmos, e passam a 
utilizar esta energia acumulada em suas tarefas na agncia. 
"D] os clientes e os empregados vivem em um mesmo 
mundo: a realidade no passa de estmulos eltricos em nosso 
crebro. Aquilo que achamos que "vemos"  um impulso de energia 
em uma zona completamente escura da cabea. Portanto, podemos 
tentar modificar esta realidade, se entramos na mesma sintonia. 
De alguma maneira que no posso entender, a alegria  contagiosa, 
como o entusiasmo e o amor. Ou como a tristeza, a depresso, o 
dio - coisas que podem ser percebidas "intuitivamente" pelos 
clientes e por outros funcionrios. Para melhorar o desempenho,  
preciso criar mecanismos que mantenham estes estmulos positivos 
presentes." 
- Muito esotrico - comentou uma mulher que dirigia os 
fundos de aes de uma agencia no Canad.
Perdi um pouco a compostura - no havia conseguido 
convencer ningum. Fingindo ignorar seu comentrio, e usando toda 
minha criatividade, busquei um desfecho tcnico:
- O banco devia dedicar uma certa verba para pesquisar 
como  que este contgio  feito, e desta maneira teramos muito 
mais lucro. 
Aquele final me parecia razoavelmente satisfatrio, de 
modo que preferi no usar os dois minutos que ainda me restavam. 
Quando acabou o seminrio, no final de um dia exaustivo, o 
Diretor-Geral me chamou para jantarmos - na frente de todos os 
outros colegas, como se estivesse procurando mostrar que me 
apoiava em tudo que dissera. Nunca havia tido esta oportunidade 
antes, e procurei aproveitar o melhor possvel; comecei a falar 
de desempenhos, planilhas, dificuldades nas bolsas de valores, 
novos mercados. Mas ele me interrompeu: estava mais interessado 
em saber tudo que eu havia aprendido de Athena. 
No final, para minha surpresa, levou a conversa para 
assuntos pessoais. 
- Eu sei o que voc estava falando na conferncia, 
quando mencionou o tempo. No incio deste ano, enquanto estava 
aproveitando minhas frias durante as festas, resolvi sentar-me 
um pouco no jardim de minha casa. Peguei o jornal na caixa de 
correio, nada de importante - exceto as coisas que os jornalistas 
decidiram que devemos saber, acompanhar, tomar posio a 
respeito. 
"Pensei em telefonar para algum de minha equipe, mas 
seria um absurdo, j que todos estavam com suas famlias. Almocei 
com minha mulher, filhos e netos, tirei um cochilo, quando 
acordei fiz uma srie de anotaes, e de repente vi que ainda 
eram duas horas da tarde, tinha mais trs dias sem trabalho, e, 
por mais que adorasse a convivncia com minha famlia, comecei a 
me sentir intil. 
"No dia seguinte, aproveitando o tempo livre, fui 
fazer um check-up do estmago, que felizmente no mostrou nada de 
grave. Fui ao dentista, que disse no haver qualquer problema. 
Tornei a almoar com mulher, filhos e netos, tornei a dormir, 
acordei de novo s duas da tarde, e dei-me conta que no tinha 
absolutamente nada em que concentrar minha ateno. 
"Fiquei assustado: no devia estar fazendo alguma 
coisa? Se quiser inventar trabalho, no precisa muito esforo - 
sempre temos projetos a serem desenvolvidos, lmpadas que 
precisam ser trocadas, folhas secas que devem ser varridas, 
arrumao de livros, organizao dos arquivos do computador, etc. 
Mas que tal encarar o vazio total? E foi neste momento que me 
lembrei de algo que me pareceu extremamente importante: precisava 
ir at a caixa de correio, que fica a um quilmetro de minha casa 
de campo, colocar um dos cartes de boas-festas que ficara 
esquecido em cima de minha mesa. 
"E fiquei surpreso: por que preciso enviar este carto 
hoje? Ser que  impossvel ficar como estou agora, sem fazer 
nada? 
"Uma srie de pensamentos cruzou minha cabea: amigos 
que se preocupam com coisas que ainda no aconteceram, conhecidos 
que sabem preencher cada minuto de suas vidas com tarefas que me 
parecem absurdas, conversas sem sentido, telefonemas longos para 
no dizer nada de importante. J vi meus diretores inventando 
trabalho para justificar seus cargos, ou funcionrios que ficam 
com medo porque no lhes foi dado nada de importante para fazer 
aquele dia e isso pode significar que no so mais teis. Minha 
mulher que se tortura porque meu filho se divorciou, meu filho 
que se tortura porque meu neto teve notas baixas na escola, meu 
neto que morre de medo porque entristece seus pais - embora todos 
ns saibamos que estas notas no so to importantes assim. 
"Travei uma longa e difcil luta comigo mesmo para no 
me levantar dali onde estava. Pouco a pouco, a ansiedade foi 
cedendo lugar  contemplao, e eu comecei a escutar minha alma - 
ou intuio, ou emoes primitivas, dependendo do que voc 
acredite. Seja o que for, esta parte de mim estava louca para 
conversar, mas eu vivo ocupado. 
"Neste caso no foi a dana, mas a completa ausncia 
de rudo e de movimento, o silncio, que me fez entrar em contato 
comigo. E, acredite se quiser, aprendi muitas coisas sobre os 
problemas que me preocupavam - embora todos estes problemas 
tivessem se afastado por completo enquanto eu estava ali sentado. 
No vi Deus, mas pude entender mais claramente as decises a 
tomar."
Antes de pagar a conta, ele sugeriu que eu enviasse a 
tal funcionria a Dubai, onde o banco estava abrindo uma nova 
agncia, e os riscos eram grandes. Como um excelente diretor, 
sabia que eu j aprendera tudo que precisava, e agora era apenas 
uma questo de dar continuidade - a funcionria podia ser mais 
til em outro lugar. Sem que soubesse, estava me ajudando a 
cumprir a promessa que havia feito.
Quando voltei a Londres, imediatamente comuniquei o 
convite a Athena. Ela aceitou na hora; disse que falava rabe 
fluentemente (eu sabia, por causa das origens de seu pai). Mas 
no pretendamos fazer negcios com rabes, e sim com 
estrangeiros. Agradeci sua ajuda, ela no demonstrou qualquer 
curiosidade sobre minha palestra na conveno - perguntou apenas 
quando devia preparar as malas. 
At hoje no sei se  fantasia esta histria de 
namorado da Scotland Yard. Acho que, se fosse verdade, o 
assassino de Athena j estaria preso - porque no acredito em 
nada do que os jornais contaram a respeito do crime. Enfim, posso 
entender muito bem de engenharia financeira, posso at mesmo dar-
me ao luxo de dizer que a dana ajuda os funcionrios de banco a 
trabalharem melhor, mas jamais conseguirei compreender por que a 
melhor polcia do mundo consegue prender alguns assassinos, e 
deixar outros soltos. 
Isso, entretanto,j no faz mais diferena. 



Nabil Alaihi, idade desconhecida, beduno

Fico muito contente em saber que Athena tinha uma foto 
minha no lugar de honra de seu apartamento, mas no creio que o 
que lhe ensinei tenha qualquer utilidade. Ela veio at aqui, no 
meio do deserto, trazendo pelas mos uma criana de trs anos. 
Abriu sua bolsa, retirou um radiogravador, e sentou-se diante da 
minha tenda. Sei que pessoas na cidade costumavam indicar meu 
nome para estrangeiros que gostariam de provar a cozinha local, e 
logo disse que ainda era muito cedo para jantar. 
- Vim por outra razo - disse a mulher. - Soube 
atravs de seu sobrinho Hamid, cliente do banco onde trabalho, 
que o senhor  um sbio. 
- Hamid  apenas um jovem tolo, que embora diga que 
sou sbio, jamais seguiu meus conselhos. Sbio foi Mohammed, o 
Profeta, que a bno de Deus esteja com ele. 
Apontei para seu carro.
- Voc no devia dirigir sozinha em um terreno a que 
no est acostumada, e tampouco se aventurar por aqui sem um 
guia. 
Em vez de me responder, ela ligou o aparelho. Em 
seguida, tudo que pude ver era aquela mulher flutuando nas dunas, 
a criana olhando espantada e alegre, e o som que parecia inundar 
o deserto inteiro. Quando terminou, perguntou se eu havia 
gostado. 
Disse que sim. Em nossa religio existe uma seita que 
dana para encontrar-se com Allah - louvado seja Seu nome! (N.R.: 
a seita em questo  o sufismo).
- Pois bem - continuou a mulher, apresentando-se como 
Athena. - Desde criana sinto que devo aproximar-me de Deus, mas 
a vida termina por me afastar Dele. A msica foi uma das maneiras 
que encontrei; no  o bastante. Sempre que dano, vejo uma luz, 
e esta luz agora me pede que v mais adiante. No posso continuar 
aprendendo apenas comigo mesmo, preciso que algum me ensine. 
- Qualquer coisa  bastante - respondi. - Porque 
Allah, o misericordioso, est sempre prximo. Tenha uma vida 
digna, isso basta. 
Mas a mulher parecia no estar convencida. Eu disse 
que estava ocupado, precisava preparar o jantar para os poucos 
turistas que deviam aparecer. Ela respondeu que esperaria o 
quanto fosse necessrio. 
- E a criana?
- No se preocupe. 
Enquanto tomava as providncias de sempre, observava a 
mulher e seu filho, os dois pareciam ter a mesma idade; corriam 
pelo deserto, riam, faziam batalhas de areia, atiravam-se no cho 
e rolavam pelas dunas. Chegou o guia com trs turistas alemes, 
que comeram, pediram cerveja, precisei explicar que minha 
religio me impedia de beber ou servir bebidas alcolicas. 
Convidei a mulher e seu filho para jantarem, e um dos alemes 
logo ficou bastante animado com a inesperada presena feminina. 
Comentou que estava pensando em comprar terrenos, tinha uma 
grande fortuna acumulada, e acreditava no futuro da regio. 
- timo - foi a resposta dela. - Tambm acredito. 
- Ser que no seria bom jantarmos em outro lugar, 
para poder discutir melhor a possibilidade de...
- No - ela cortou, estendendo-lhe um carto. - Se 
desejar, pode procurar minha agncia. 
Quando os turistas foram embora, nos sentamos na 
frente da tenda. O menino logo dormiu em seu colo; peguei 
cobertores para todos ns, e ficamos olhando o cu estrelado. 
Finalmente ela quebrou o silncio.
- Por que Hamid diz que o senhor  sbio?
- Talvez porque tenha mais pacincia que ele. Houve 
uma poca em que tentei lhe ensinar minha arte, mas Hamid parecia 
mais preocupado em ganhar dinheiro. Hoje deve estar convencido 
que  mais sbio que eu; tem um apartamento, um barco, enquanto 
eu estou aqui no meio do deserto, servindo aos poucos turistas 
que aparecem. No entende que estou satisfeito com o que fao. 
- Entende perfeitamente, porque fala a todos do 
senhor, com muito respeito. E o que significa sua "arte"?
- Vi hoje voc danando. Eu fao a mesma coisa, s 
que, em vez de mover meu corpo, so as letras que danam. 
Ela pareceu surpresa. 
- Minha maneira de me aproximar de Allah - que seu 
nome seja louvado! - foi atravs da caligrafia, a busca do 
sentido perfeito para cada palavra. Uma simples letra requer que 
coloquemos nela toda a fora que contm, como se estivssemos 
esculpindo o seu significado. Assim, quando os textos sagrados 
so escritos, ali est a alma do homem que serviu de instrumento 
para divulg-los ao mundo.
"E no apenas os textos sagrados, mas cada coisa que 
colocamos no papel. Porque a mo que traa as linhas reflete a 
alma de quem as escreve."
- Voc me ensinaria o que sabe?
- Em primeiro lugar, no creio que uma pessoa to 
cheia de energia tenha pacincia para isso. Alm do mais, no faz 
parte do seu mundo, onde as coisas so impressas - sem que pensem 
muito no que esto publicando, se me permite o comentrio.
- Gostaria de tentar.
E durante mais de seis meses, aquela mulher que eu 
julgava agitada, exuberante, incapaz de ficar quieta por um s 
momento, passou a me visitar todas as sextas-feiras. O filho 
sentava-se em um canto, pegava alguns papis e pincis, e 
dedicava-se, tambm ele, a manifestar em seus desenhos aquilo que 
os cus assim determinavam. 
Eu via seu esforo gigantesco para manter-se quieta, 
na postura adequada, e perguntava: "voc no acha melhor procurar 
outra coisa para distrair-se?". Ela respondia: "Preciso disso, 
preciso acalmar minha alma, e ainda no aprendi tudo que voc 
pode me ensinar. A luz do Vrtice me disse que eu devo seguir 
adiante". Nunca perguntei o que era Vrtice, no me interessava.
A primeira lio, e talvez a mais difcil, foi:
- Pacincia! 
Escrever no era apenas um ato de expressar um 
pensamento, mas de refletir sobre o significado de cada palavra. 
Juntos comeamos a trabalhar em textos de um poeta rabe, j que 
no creio que o Alcoro fosse indicado para uma pessoa educada em 
outra f. Eu ia ditando cada letra, e assim ela se concentrava no 
que estava fazendo, em vez de querer saber logo o significado da 
palavra, da frase, ou do verso. 
- Certa vez, algum me disse que a msica tinha sido 
criada por Deus, e que o movimento rpido era necessrio para que 
as pessoas entrassem em contato consigo mesmas - disse Athena em
uma das tardes que passamos juntos. - Durante anos, vi que isso
era verdade, e agora estou sendo forada  coisa mais difcil do
mundo, desacelerar meus passos. Por que a pacincia  to
importante?
- Porque ela nos faz prestar ateno. 
- Mas eu posso danar obedecendo apenas a minha alma, 
que me obriga a concentrar-me em algo maior do que eu mesma, e me 
permite entrar em contato com Deus - se  que posso utilizar esta 
palavra. Isso j me ajudou a transformar muitas coisas, inclusive 
meu trabalho. A alma no  mais importante?
- Claro. Entretanto, se sua alma conseguir comunicar-
se com seu crebro, poder transformar mais coisas ainda. 
Continuamos nosso trabalho juntos. Eu sabia que, em 
determinado momento, teria que dizer algo que ela talvez no 
estivesse pronta para escutar, de modo que procurei aproveitar 
cada minuto para ir preparando seu esprito. Expliquei que antes 
da palavra existe o pensamento. E, antes do pensamento, existe a 
centelha divina que o colocou ali. Tudo, absolutamente tudo nesta 
terra fazia sentido, e as menores coisas deviam ser levadas em 
considerao. 
- Eduquei meu corpo para que pudesse manifestar por 
inteiro as sensaes da minha alma - dizia ela. 
- Agora eduque apenas seus dedos, de modo que eles 
possam manifestar por inteiro as sensaes do seu corpo. Assim, 
sua imensa fora estar concentrada. 
- O senhor  um mestre.
- O que  um mestre? Pois eu lhe respondo: no  
aquele que ensina algo, mas aquele que inspira o aluno a dar o 
melhor de si para descobrir o que ele j sabe. 
Pressenti que Athena j havia experimentado isso, 
embora ainda fosse muito jovem. Como a escrita revela a 
personalidade da pessoa, descobri que tinha conscincia de que 
era amada, no apenas por seu filho, mas por sua famlia e 
eventualmente por um homem. Descobri tambm que tinha dons 
misteriosos, e procurei jamais demonstrar isso - j que estes 
dons podiam causar seu encontro com Deus, mas tambm sua 
perdio. 
No me limitava a adestr-la na tcnica; procurava 
tambm transmitir-lhe a filosofia dos calgrafos.
- A pena com que agora escreve estes versos  apenas 
um instrumento. Ela no tem conscincia, segue o desejo daquele 
que a segura. E nisso se parece muito com aquilo que chamamos de 
"vida". Muitas pessoas esto neste mundo apenas cumprindo um 
papel, sem entender que existe uma Mo Invisvel que as guia. 
"Neste momento, em suas mos, no pincel que traa cada 
letra, esto todas as intenes de sua alma. Procure entender a 
importncia disso." 
- Entendo, e vejo que  importante manter certa 
elegncia. Porque o senhor exige que eu me sente em determinada 
posio, reverencie o material que vou utilizar, e s comece 
quando tiver feito isso. 
Claro. Na medida em que respeitava o pincel, descobria 
que era necessrio ter serenidade e elegncia para aprender a 
escrever. E a serenidade vem do corao. 
- A elegncia no  uma coisa superficial, mas a 
maneira que o homem encontrou para honrar a vida e o trabalho. 
Por isso, quando voc sentir que a postura a est incomodando, 
no pense que ela  falsa ou artificial: ela  verdadeira porque 
 difcil. Ela faz com que tanto o papel como a pena sintam-se 
orgulhosos por seu esforo. O papel deixa de ser uma superfcie 
plana e incolor, e passa a ter a profundidade das coisas que ali 
so colocadas.
"A elegncia  a postura mais adequada para que a
escrita seja perfeita. Assim tambm  com a vida: quando o
suprfluo  descartado, o ser humano descobre a simplicidade e a
concentrao: quanto mais simples e mais sbria a postura, mais
bela ela ser, embora no incio parea desconfortvel."

De vez em quando, ela me comentava sobre seu trabalho.
Dizia que estava entusiasmada com o que fazia, e que acabara de 
receber uma proposta de um poderoso emir. Ele fora ao banco para 
ver um amigo que era diretor (os emires jamais vo aos bancos 
para retirar dinheiro, tm muitos empregados para fazer isso), 
conversando com ela mencionou que estava procurando algum para 
cuidar da venda de terrenos, e gostaria de saber se estava 
interessada. 
Quem se interessaria por comprar terrenos no meio do 
deserto, ou em um porto que no estava no centro do mundo? 
Resolvi no comentar nada; olhando para trs, fico contente por 
ter ficado em silncio.
Uma nica vez falou do amor de um homem, embora sempre 
que turistas chegavam para jantar, e a encontravam ali, 
procurassem seduzi-la de alguma maneira. Normalmente Athena 
sequer se incomodava, at o dia em que um deles insinuou que 
conhecia seu namorado. Ela ficou plida, e imediatamente olhou 
para o menino, que felizmente no estava prestando ateno  
conversa. 
- Conhece de onde?
- Estou brincando - disse o homem. - Queria apenas 
saber se estava livre. 
Ela no respondeu nada, mas entendi que o homem que 
estava em sua vida no era o pai do garoto. 
Um dia chegou mais cedo que de costume. Disse que 
tinha deixado o emprego no banco, comeara a vender terrenos, e 
assim teria mais tempo livre. Expliquei que no podia ensin-la 
antes da hora marcada, tinha uma srie de coisas para fazer. 
- Posso juntar as duas coisas: movimento e quietude. 
Alegria e concentrao. 
Foi at o carro, pegou o gravador, e a partir daquele 
momento, Athena danava no deserto antes de comear as aulas, 
enquanto a criana corria e sorria  sua volta. Quando se sentava 
para praticar caligrafia, sua mo estava mais segura do que 
normalmente. 
- Existem dois tipos de letras - eu explicava. - A 
primeira  feita com preciso, mas sem alma. Neste caso, embora o 
calgrafo tenha um grande domnio da tcnica, ele concentrou-se 
exclusivamente no ofcio - e por causa disso no evoluiu, tornou-
se repetitivo, no conseguiu crescer, e um dia ir deixar o 
exerccio da escrita, porque acha que tudo se transformou em 
rotina. 
"O segundo tipo  a letra feita com tcnica, mas 
tambm com alma. Para isso,  necessrio que a inteno de quem 
escreve esteja de acordo com a palavra; neste caso, os versos 
mais tristes deixam de ser revestidos de tragdia, e se 
transformam em simples fatos que estavam em nosso caminho."
- O que voc faz com os seus desenhos? - perguntou o 
menino, em rabe perfeito. Embora no estivesse entendendo nossa 
conversa, fazia o possvel para participar do trabalho da me.
- Eu os vendo. 
- Posso vender meus desenhos? 
- Deve vender seus desenhos. Um dia vai ficar rico com 
isso, e ajudar sua me. 
Ele ficou contente com meu comentrio, e voltou para o 
que estava fazendo naquele momento: uma borboleta colorida. 
- E que fao com os meus textos? - perguntou Athena.
- Voc sabe o esforo que custou sentar-se na posio 
correta, acalmar sua alma, ter clara sua inteno, respeitar cada 
letra de cada palavra. Mas, por enquanto, continue apenas 
praticando. 
"Depois de muito praticar, j no pensamos em todos os 
movimentos necessrios: eles passam a fazer parte de nossa 
prpria existncia. Antes de chegar a este estado, entretanto,  
preciso treinar, repetir. E, como se no bastasse,  preciso 
repetir e treinar. 
"Observe um bom ferreiro trabalhando o ao. Para o 
olhar destreinado, ele est repetindo as mesmas marteladas.
"Mas quem conhece a arte da caligrafia, sabe que cada 
vez que ele levanta o martelo e o faz descer, a intensidade do 
golpe  diferente. A mo repete o mesmo gesto, mas,  medida que 
se aproxima do ferro, ela compreende se deve toc-lo com mais 
dureza ou mais suavidade. Assim  com a repetio: embora parea 
a mesma coisa,  sempre distinta. 
"Vai chegar o momento em que no  mais preciso pensar 
no que se est fazendo. Voc passa a ser a letra, a tinta, o 
papel, e a palavra."
Este momento chegou quase um ano depois. A esta 
altura, Athena j era conhecida em Dubai, indicava clientes para 
jantar na minha tenda, e atravs deles pude entender que sua 
carreira ia muito bem: estava vendendo pedaos de deserto! Certa 
noite, precedido de um grande squito, apareceu o emir em pessoa. 
Eu fiquei assustado; no estava preparado para aquilo, mas ele me 
tranqilizou e me agradeceu o que estava fazendo por sua 
funcionria.
-  uma pessoa excelente, e atribui suas qualidades ao 
que est aprendendo com o senhor. Estou pensando em dar-lhe uma 
parte na sociedade. Talvez seja bom enviar meus vendedores para 
aprender caligrafia, principalmente agora que Athena deve sair de 
frias por um ms. 
- No iria adiantar nada - respondi. - Caligrafia  
apenas uma das maneiras que Allah - louvado seja Seu Nome! - 
colocou diante de ns. Ensina objetividade e pacincia, respeito 
e elegncia, mas podemos aprender tudo isso...
- ... na dana - completou Athena, que estava perto.
- Ou vendendo imveis - completei. 
Quando todos saram, quando o menino estendeu-se em um 
canto da tenda, os olhos quase se fechando de sono, eu trouxe o 
material de caligrafia e pedi que escrevesse alguma coisa. No 
meio da palavra, retirei a pena de sua mo. Era a hora de dizer o 
que precisava ser dito. Sugeri que caminhssemos um pouco pelo 
deserto. 
- Voc j aprendeu o que precisava - disse. - Sua 
caligrafia est cada vez mais pessoal, mais espontnea. J no  
apenas uma repetio da beleza, mas um gesto de criao pessoal. 
Voc entendeu o que os grandes pintores entendem: para esquecer 
as regras,  preciso conhec-las e respeit-las. 
"J no precisa dos instrumentos que a fizeram 
aprender. J no precisa do papel, da tinta, da pena, porque o 
caminho  mais importante que aquilo que a levou a caminhar. 
Certa vez voc me contou que a pessoa que a ensinou a danar 
ficava imaginando msicas em sua cabea - e mesmo assim, era 
capaz de repetir os ritmos necessrios e precisos."
- Isso mesmo.
- Se as palavras estivessem todas unidas, elas no 
fariam sentido, ou complicariam muito o seu entendimento:  
necessrio que existam espaos.
Ela concordou com a cabea. 
- E apesar de voc dominar as palavras, ainda no 
domina os espaos em branco. Sua mo, quando est concentrada,  
perfeita. Quando salta de uma palavra para a outra, ela se perde. 
- Como o senhor sabe isso?
- Tenho razo?
- Tem toda razo. Em algumas fraes de segundo, antes 
de concentrar-me na prxima palavra, eu me perco. Coisas que eu 
no quero pensar insistem em dominar-me. 
- E voc sabe exatamente o que . 
Athena sabia, mas no disse nada, at voltarmos  
tenda, e poder segurar o filho adormecido no colo. Seus olhos 
pareciam cheios de lgrimas, embora fizesse o possvel para 
controlar-se. 
- O emir disse que voc iria tirar frias. 
Ela abriu a porta do carro, colocou a chave na 
ignio, e deu a partida. Por alguns momentos, apenas o rudo do 
motor quebrava o silncio do deserto. 
- Sei o que o senhor est falando - disse ela afinal. 
- Quando escrevo, quando dano, sou guiada pela Mo que tudo 
criou. Quando olho Viorel dormindo, sei que ele sabe que  fruto 
de meu amor pelo pai dele, embora j no o veja h mais de um 
ano. Mas eu...
Ficou em silncio de novo. O silncio que era o espao 
em branco entre as palavras. 
- ... mas eu no conheo a mo que me embalou pela 
primeira vez. A mo que me escreveu no livro deste mundo. 
Apenas balancei a cabea em sinal afirmativo. 
- O senhor acha isso importante?
- Nem sempre. Mas no seu caso, enquanto no tocar esta 
mo, no ir melhorar... digamos... sua caligrafia. 
- No creio que seja necessrio descobrir quem jamais 
se deu ao trabalho de me amar. 
Fechou a porta, sorriu, e arrancou com o carro. Apesar 
de suas palavras, eu sabia qual seria seu prximo passo. 

Samira R. Khalil, me de Athena

Foi como se todas as suas conquistas profissionais, 
sua capacidade de ganhar dinheiro, sua alegria com o novo amor, 
seu contentamento quando brincava com meu neto, tudo isso tivesse 
sido jogado para um segundo plano. Eu fiquei simplesmente 
aterrorizada quando Sherine me comunicou a deciso de ir em busca 
da sua me de sangue. 
No incio,  claro, consolava-me a idia de que j no 
existia mais o centro de adoo, as fichas tivessem sido 
perdidas, os funcionrios se mostrassem implacveis, o governo 
tinha acabado de cair e era impossvel viajar, ou o ventre que a 
trouxe a esta terra j no estivesse mais neste mundo. Mas foi um 
consolo momentneo: minha filha era capaz de tudo, e conseguia 
superar situaes que pareciam impossveis.
At aquele momento, o assunto era um tabu na famlia. 
Sherine sabia que fora adotada, j que o psiquiatra em Beirute me 
aconselhara a contar logo que tivesse suficiente idade para 
compreender. Mas nunca demonstrou curiosidade em saber de que 
regio viera - seu lar tinha sido Beirute, quando ainda era um 
lar para todos ns. 
Como o filho adotado de uma amiga minha terminou se 
suicidando quando ganhou uma irm biolgica - e ele tinha apenas 
16 anos! -, ns evitamos ampliar nossa famlia, fizemos todos os 
sacrifcios necessrios para que entendesse que era a nica razo 
de minhas alegrias e minhas tristezas, dos meus amores e das 
minhas esperanas. Mesmo assim, parecia que nada disso contava;
meu Deus, como os filhos podem ser to ingratos!
Conhecendo minha filha, sabia que no adiantava 
argumentar nada disso com ela. Eu e meu marido passamos uma 
semana sem dormir, e todas as manhs, todas as tardes, ramos 
bombardeados com a mesma pergunta: em que cidade da Romnia eu 
nasci? Para agravar a situao, Viorel chorava, porque parecia 
estar entendendo tudo que acontecia. 
Resolvi consultar de novo um psiquiatra. Perguntei por 
que uma moa que tinha tudo na vida estava sempre to 
insatisfeita. 
- Todos ns queremos saber de onde viemos - disse ele. 
- Essa  a questo fundamental do ser humano no plano filosfico. 
No caso de sua filha, acho perfeitamente justo que procure saber 
suas origens. A senhora no teria esta curiosidade?
No, eu no teria. Muito pelo contrrio, acharia um 
perigo ir em busca de algum que me recusou e me rejeitou, quando 
ainda no tinha foras para sobreviver. 
Mas o psiquiatra insistiu:
- Ao invs de entrar em confronto com ela, procure 
ajud-la. Talvez, vendo que isso no  um problema para a 
senhora, ela desista. O ano que passou distante de todos os seus 
amigos deve ter criado uma carncia emocional, que agora ela est 
procurando compensar atravs de provocaes sem importncia. 
Apenas para ter certeza que  amada. 
Teria sido melhor que Sherine tivesse ido, ela mesma, 
ao psiquiatra: assim compreenderia as razes do seu 
comportamento. 
- Demonstre confiana, no veja nisso uma ameaa. E se 
no final ela realmente quiser ir adiante, resta apenas dar os 
elementos que pede. Pelo que entendo, ela sempre  foi uma menina 
problemtica; quem sabe sair mais fortalecida atravs desta 
busca. 
Perguntei se o psiquiatra tinha filhos. Ele disse que 
no, e logo entendi que no era a pessoa indicada para me 
aconselhar. 
Naquela noite, quando estvamos diante da televiso, 
Sherine voltou ao assunto:
- O que esto assistindo?
- O noticirio. 
- Para qu?
- Para saber as novidades do Lbano - respondeu meu 
marido. 
Eu percebi a armadilha, mas j era tarde. Sherine 
aproveitou-se imediatamente da situao. 
- Enfim, vocs tambm esto curiosos para saber o que 
est acontecendo na terra em que nasceram. Esto bem 
estabelecidos na Inglaterra, tm amigos, papai ganha muito 
dinheiro aqui, vivem em segurana. Mesmo assim, compram jornais 
libaneses. Mudam de canal at que surja alguma notcia 
relacionada com Beirute. Imaginam o futuro como se ele fosse o 
passado, sem se dar conta que esta guerra no acaba nunca. 
"Ou seja: se no esto em contato com suas origens, 
sentem que perderam o contato com o mundo. Custa entender o que 
estou sentindo?"
- Voc  nossa filha.
- Com muito orgulho. E serei para sempre a filha de 
vocs. Por favor, no tenham dvidas de meu amor e minha gratido 
por tudo que fizeram; eu no estou pedindo nada alm de colocar 
meus ps no verdadeiro lugar onde nasci. Talvez perguntar  minha 
me de sangue por que me abandonou, ou talvez deixar o assunto 
para l, quando olhar nos seus olhos. Se no tentar fazer isso, 
vou me achar covarde, e no poderei jamais entender os espaos em 
branco. 
- Os espaos em branco?
- Aprendi caligrafia enquanto estava em Dubai. Dano 
sempre que posso. Mas a msica s existe porque existem as 
pausas. As frases s existem porque existem os espaos em branco. 
Quando estou fazendo algo, me sinto completa; mas ningum pode 
viver em atividade durante as 24 horas do dia. No momento em que 
paro, sinto que algo est faltando. 
"Vocs disseram mais de uma vez que sou uma pessoa 
inquieta por natureza. Mas no escolhi esta maneira de viver: 
gostaria de poder estar aqui, tranqila, tambm assistindo 
televiso.  impossvel: minha cabea no pra. s vezes penso 
que vou enlouquecer, preciso estar sempre danando, escrevendo, 
vendendo terrenos, cuidando de Viorel, lendo qualquer coisa que 
me cai adiante. Acham normal?"
- Talvez seja seu temperamento - disse meu marido. 
A conversa terminou ali, da maneira que sempre 
terminava: Viorel chorando, Sherine fechando-se em seu mutismo, e 
eu certa de que os filhos nunca reconhecem o que os pais fazem 
por eles. Entretanto, durante o caf-da-manh no dia seguinte, 
foi meu marido quem puxou o assunto:
- H algum tempo, quando voc estava no Oriente Mdio, 
eu tentei ver as condies de voltar para casa. Fui at a rua 
onde vivemos; a casa no existe mais, embora o pas esteja sendo 
reconstrudo, mesmo com a ocupao estrangeira e as invases 
constantes. Experimentei uma sensao de euforia; quem sabe era o 
momento de recomear tudo de novo? E foi justamente esta palavra, 
"recomear", que me trouxe de volta  realidade. Eu j passei do 
tempo onde podia me dar a esse luxo; hoje em dia, quero continuar 
o que estou fazendo, no preciso de novas aventuras.  
"Procurei as pessoas que costumava encontrar para 
beber uns copos de usque no final da tarde. A maioria no est 
mais ali, as que ficaram vivem se queixando da constante sensao 
de insegurana. Caminhei pelos lugares onde passeava, e me senti 
um estranho, como se nada daquilo me pertencesse mais. O pior de 
tudo  que o sonho de retornar um dia ia desaparecendo  medida 
que eu me encontrava com a cidade onde nasci.
"Mesmo assim, foi necessrio. As canes do exlio 
ainda continuam em meu corao, mas sei que no tornarei nunca 
mais a viver no Lbano. De alguma maneira, os dias passados em 
Beirute me ajudaram a entender melhor o lugar onde estou agora, e 
valorizar cada segundo que passo em Londres."
- O que voc est querendo me dizer, papai?
- Que voc est certa. Talvez seja melhor mesmo 
entender estes espaos brancos. Podemos ficar com Viorel enquanto 
estiver viajando. 
Ele foi at o quarto, e voltou com uma pasta 
amarelada. Eram os papis de adoo - que estendeu para Sherine. 
Deu-lhe um beijo, e disse que j era hora de partir para o 
trabalho.



Heron Ryan, jornalista

Durante toda aquela manh de 1990, tudo que eu podia 
ver da janela no sexto andar daquele hotel era o prdio do 
governo. Acabavam de colocar em seu teto uma bandeira do pas, 
indicando o local exato onde o ditador megalomanaco havia fugido 
de helicptero, para encontrar-se com a morte poucas horas 
depois, nas mos daqueles que havia oprimido por 22 anos. As 
casas antigas tinham sido arrasadas por Ceaucescu, no seu plano 
de fazer uma capital que se rivalizasse com Washington. Bucareste 
ostentava o ttulo da cidade que sofrera a maior destruio fora 
de uma guerra ou de uma catstrofe natural. 
No dia de minha chegada, ainda tentei caminhar um 
pouco por suas ruas com meu intrprete, mas no havia muita coisa 
alm de misria, desorientao, senso de que no havia nem 
futuro, nem passado, nem presente: as pessoas viviam em uma 
espcie de limbo, sem saber exatamente o que estava se passando 
em seu pas e no resto do mundo. Dez anos mais tarde, quando 
voltei e vi o pas inteiro ressurgindo das cinzas, entendi que o 
ser humano pode superar qualquer dificuldade - e o povo romeno 
era um exemplo disso. 
Mas naquela manh cinzenta, naquele cinzento hall de 
um hotel triste, tudo que me preocupava era saber se o intrprete 
conseguiria um carro e combustvel suficiente para que eu pudesse 
fazer a pesquisa final do documentrio para a BBC. Ele estava 
demorando, e comecei a encher-me de dvidas: seria obrigado a 
voltar para a Inglaterra sem conseguir meu objetivo? J havia 
investido uma quantidade significativa de dinheiro em contratos 
com historiadores, na elaborao do roteiro, na filmagem de 
algumas entrevistas - mas a televiso, antes de assinar o 
compromisso final, exigia que eu fosse at o tal castelo e saber 
em que estado se encontrava. A viagem que estava custando mais 
caro do que eu imaginara.
Tentei telefonar para minha namorada; disseram-me que 
para conseguir uma linha era necessrio esperar quase uma hora. 
Meu intrprete poderia chegar a qualquer momento com o carro, no 
havia tempo a perder, resolvi no correr o risco.
Procurei ver se conseguia algum jornal em ingls, mas 
foi impossvel. Para matar a ansiedade, comecei a reparar, da 
maneira mais discreta possvel, nas pessoas que estavam ali 
tomando o seu ch, possivelmente alheias a tudo que havia se 
passado no ano anterior - as revoltas populares, os assassinatos 
a sangue-frio de civis em Timisoara, os tiroteios nas ruas entre 
o povo e o temido servio secreto, que tentava desesperadamente 
manter o poder que lhe escapava das mos. Notei um grupo de trs 
americanos, uma mulher interessante, mas que no desgrudava os 
olhos de uma revista de moda, e uma mesa cheia de homens que 
conversavam em voz alta, mas cuja lngua eu no conseguia 
identificar. 
Ia levantar-me pela milsima vez, caminhar at a porta 
de entrada ver se o intrprete estava chegando, quando ela 
entrou. Devia ter pouco mais de vinte anos (N.R.: Athena tinha 23 
anos quando foi visitar a Romnia). Sentou-se, pediu algo para o 
caf-da-manh, e vi que falava ingls. Nenhum dos homens 
presentes pareceu notar sua chegada, mas a mulher interrompeu a 
leitura da revista de moda. 
Talvez por causa da minha ansiedade, ou do lugar, que 
estava me fazendo entrar em depresso, eu tomei coragem e me 
aproximei. 
- Desculpe-me, no costumo fazer isso. Acho que o 
caf-da-manh  a refeio mais ntima do dia. 
Ela sorriu, disse seu nome, e eu imediatamente me 
coloquei em guarda. Tinha sido muito fcil - podia ser uma 
prostituta. Mas seu ingls era perfeito, e estava discretamente 
vestida. Resolvi no perguntar nada, e comecei a falar 
compulsivamente de mim, reparando que a mulher na mesa ao lado 
tinha deixado a revista e prestava ateno  nossa conversa.
- Sou um produtor independente, trabalho para a BBC de 
Londres, e neste momento tento conseguir uma maneira de ir para a 
Transilvnia...
Vi que seus olhos mudaram de brilho. 
-... completar meu documentrio a respeito do mito do 
vampiro. 
Aguardei: o assunto sempre despertava curiosidade nas 
pessoas, mas ela perdeu o interesse assim que mencionei o motivo 
de minha visita. 
- Basta tomar um nibus - respondeu. - Embora no 
creia que v encontrar o que procura. Se quiser saber mais sobre 
Drcula, leia o livro. O autor nunca esteve nesta regio. 
- E voc, conhece a Transilvnia?
- No sei.
Aquilo no era uma resposta; talvez fosse um problema 
com a lngua inglesa, apesar do seu sotaque britnico.
- Mas tambm estou indo para l - continuou. - De 
nibus, claro. 
Por suas roupas, no parecia ser do tipo aventureira, 
que sai pelo mundo visitando lugares exticos. A teoria da 
prostituta voltou; talvez estivesse procurando aproximar-se.
- No quer uma carona?
- J comprei minha passagem. 
Eu insisti, achando que aquela primeira recusa fazia 
parte do jogo. Mas ela tornou a negar, dizendo que precisava 
fazer a viagem sozinha. Perguntei de onde era, e notei uma grande 
hesitao, antes de me responder:
- Da Transilvnia, j disse. 
- No disse exatamente isso. Mas, se for o caso, 
poderia me ajudar a fazer as locaes para o filme e...
O meu inconsciente dizia que eu devia explorar o 
terreno um pouco mais, ainda estava com a idia da prostituta na 
cabea, e gostaria muito, muitssimo, que ela me acompanhasse. 
Com palavras educadas, ela recusou minha oferta. A outra mulher 
entrou na conversa como se resolvesse proteger a moa, eu achei 
que estava sendo inconveniente, e resolvi me afastar. 
O intrprete chegou pouco depois, esbaforido, dizendo 
que tinha arranjado todo o necessrio, mas que iria custar um 
pouco mais caro (eu j esperava). Subi para meu quarto, peguei a 
mala, que j estava arrumada, entrei em um carro russo caindo aos 
pedaos, atravessei as largas avenidas quase sem trnsito, e 
notei que estava carregando minha pequena cmera fotogrfica, 
meus pertences, minhas preocupaes, garrafas de gua mineral, 
sanduches, e a imagem de algum que insistia em no sair da 
minha cabea. 
Nos dias que se seguiram, ao mesmo tempo que eu 
procurava construir um roteiro sobre o Drcula histrico, e 
entrevistava - sem sucesso, como previsto - camponeses e 
intelectuais a respeito do mito do vampiro, ia me dando conta que 
no estava mais procurando apenas fazer um documentrio para a 
televiso inglesa. Eu gostaria de encontrar de novo aquela moa 
arrogante, antiptica, auto-suficiente, que tinha visto em um 
caf, num hotel de Bucareste, e que naquele momento devia estar 
ali, perto de mim; sobre a qual eu no sabia absolutamente nada 
alm do seu nome, mas que, como o mito do vampiro, parecia sugar 
toda a minha energia em sua direo. 
Um absurdo, uma coisa sem sentido, algo inaceitvel 
para o meu mundo, e para o mundo daqueles que conviviam comigo.


Deidre O"Neill, conhecida como Edda

- No sei o que veio fazer aqui. Mas, seja o que for, 
deve ir at o final. 
Ela me olhou espantada. 
- Quem  voc?
Comecei a conversar sobre a revista feminina que 
estava lendo, e o homem, depois de algum tempo, resolveu 
levantar-se e sair. Agora eu podia dizer quem era. 
- Se voc quer saber minha profisso, formei-me em 
medicina h alguns anos. Mas no creio que essa seja a resposta 
que deseja ouvir.
Dei uma pausa.
- Seu prximo passo, portanto, ser tentar, atravs de 
perguntas muito bem elaboradas, saber exatamente o que estou 
fazendo aqui, neste pas que acaba de sair de anos de chumbo. 
- Serei direta: o que veio fazer aqui?
Podia dizer: vim ao enterro de meu mestre, achei que 
ele merecia esta homenagem. Mas no seria prudente falar do tema; 
mesmo que ela no tivesse demonstrado nenhum interesse por 
vampiros, a palavra "mestre" chamaria sua ateno. Como meu 
juramento me impede de mentir, respondi com uma "meia verdade". 
- Queria ver onde viveu um escritor chamado Mircea 
Eliade, de quem possivelmente voc nunca ouviu falar. Mas Eliade, 
que passou grande parte de sua vida na Frana, era especialista 
em... digamos... mitos. 
A moa olhou o relgio, fingindo desinteresse. 
- E no estou falando de vampiros. Estou falando de 
gente... digamos... que segue o caminho que voc est seguindo. 
Ela ia beber seu caf, e interrompeu o gesto. 
- Voc  do governo? Ou voc  algum que meus pais 
pediram para me seguir?
Fui eu quem ficou em dvida sobre continuar a 
conversa; sua agressividade era absolutamente desnecessria. Mas 
eu podia ver sua aura, sua angstia. Ela se parecia muito comigo, 
quando eu tinha sua idade: ferimentos interiores e exteriores, 
que me empurraram a curar pessoas no plano fsico, e ajud-las a 
encontrar o caminho no plano espiritual. Quis dizer "suas feridas 
a ajudam, menina", pegar minha revista, e ir embora. 
Se tivesse feito isso, talvez o caminho de Athena 
tivesse sido completamente diferente, e ela ainda estivesse viva, 
junto do homem que amava, cuidando de seu filho, vendo-o crescer, 
casar-se, ench-la de netos. Seria rica, possivelmente 
proprietria de uma companhia de venda de imveis. Ela tinha 
tudo, absolutamente tudo para ser bem-sucedida; sofrera o 
bastante para saber utilizar suas cicatrizes a seu favor, e era 
apenas uma questo de tempo at conseguir diminuir sua ansiedade 
e seguir adiante. 
Mas o que me manteve ali, sentada, procurando 
continuar a conversa? A resposta  muito simples: curiosidade. 
No podia entender por que aquela luz brilhante estava ali, no 
hall frio de um hotel.
Continuei:
- Mircea Eliade escreveu livros com ttulos estranhos: 
Bruxaria e correntes culturais, por exemplo. Ou O conhecimento 
sagrado de todas as eras. Meu mestre (disse sem querer, mas ela 
no escutou ou fingiu no ter notado) gostava muito de seu 
trabalho. E algo me diz, intuitivamente, que voc se interessa 
pelo assunto. 
Ela tornou a olhar o relgio. 
- Estou indo para Sibiu - disse a moa. - Meu nibus 
parte daqui a uma hora, vou procurar minha me, se  isso que 
voc deseja saber. Trabalho como corretora de imveis no Oriente 
Mdio, tenho um filho de quase quatro anos, sou divorciada, e 
meus pais vivem em Londres. Meus pais adotivos, claro, pois fui 
abandonada na infncia. 
Ela estava realmente em um estgio muito avanado de 
percepo - havia se identificado comigo, embora ainda no 
tivesse conscincia disso. 
- Sim, era isso que eu queria saber. 
- Precisava vir to longe para pesquisar um escritor? 
No existem bibliotecas no lugar onde vive?
- Na verdade, tal escritor viveu na Romnia apenas at 
terminar a universidade. De modo que, se eu quisesse saber mais 
do seu trabalho, deveria ir para Paris, Londres, ou Chicago - 
onde faleceu. Portanto, o que estou fazendo no  a pesquisa no 
sentido clssico: quero ver onde colocou seus ps. Quero sentir o 
que o inspirou a escrever sobre coisas que afetam minha vida e a 
vida das pessoas que respeito. 
- Ele escreveu tambm sobre medicina?
Melhor no responder. Vi que tinha notado a palavra 
"mestre", mas achava que estava relacionada  minha profisso. 
A moa levantou-se. Penso que ela pressentia onde eu 
queria chegar - podia ver sua luz brilhando com mais intensidade. 
S consigo entrar neste estado de percepo quando estou prxima 
de algum muito parecida comigo. 
- Se incomoda de me acompanhar at a estao? - 
perguntou.
De maneira nenhuma. Meu avio sairia apenas no final 
da noite, e um dia inteiro, aborrecido, interminvel, estendia-se 
diante de mim. Pelo menos tinha com quem conversar um pouco. 
Ela subiu, voltou com suas malas nas mos e com uma 
srie de perguntas na cabea. Comeou seu interrogatrio assim 
que samos do hotel. 
- Talvez eu nunca mais a veja - disse. - Mas sinto que 
temos alguma coisa em comum. Portanto, j que esta pode ser a 
ltima chance de conversarmos nesta encarnao, voc se 
importaria de ser direta em suas respostas?
Eu concordei com um aceno de cabea. 
- J que voc leu esses livros, acredita que a dana 
pode nos levar a um transe, e nos fazer ver uma luz? E que esta 
luz no nos diz absolutamente nada, exceto se estamos contentes 
ou tristes?
Pergunta certa!
- Sem dvida. Mas no apenas a dana; tudo aquilo em 
que conseguirmos concentrar a ateno, e nos permite separar o 
corpo do esprito. Como a ioga, ou a orao, ou a meditao dos 
budistas. 
- Ou a caligrafia.
- No tinha pensado nisso, mas  possvel. Nestes 
momentos em que o corpo liberta a alma, ela sobe aos cus ou 
desce aos infernos, dependendo do estado de esprito da pessoa. 
Nos dois lugares, aprende coisas que precisa: seja destruir o seu 
prximo, seja curar. Mas j no me interesso mais por estes 
caminhos individuais; na minha tradio, preciso da ajuda de... 
voc est prestando ateno no que digo?
- No.
Vi que tinha parado no meio da rua, e olhava uma 
menina que parecia abandonada. Na mesma hora enfiou a mo em sua 
bolsa.
- No faa isso - eu disse. - Olhe para o outro lado 
da calada - ali tem uma mulher com os olhos de maldade. Ela 
colocou esta criana a, para...
- No me interessa. 
A moa tirou algumas moedas. Eu segurei sua mo.
- Vamos convid-la para comer alguma coisa.  mais 
til. 
Convidei a criana para ir at um bar, comprei um 
sanduche, e entreguei-o. A menina sorriu e agradeceu; os olhos 
da mulher do outro lado da rua pareciam brilhar de dio. Mas as 
pupilas cinzentas da moa que caminhava ao meu lado, pela 
primeira vez, demonstravam respeito pelo que eu acabara de fazer. 
- O que voc estava mesmo dizendo?
- No importa. Sabe o que aconteceu h alguns minutos? 
Voc entrou no mesmo transe que a dana provoca.
- Est errada.
- Estou certa. Algo tocou o seu inconsciente; talvez 
tenha visto a si mesma, se no tivesse sido adotada, mendigando 
nesta rua. Neste momento, seu crebro parou de reagir. Seu 
esprito saiu, viajou para o inferno, encontrou-se com os 
demnios do seu passado. Por causa disso, no notou a mulher do 
outro lado da rua - estava em transe. Um transe desorganizado, 
catico, que a empurrava a fazer algo teoricamente bom, mas 
praticamente intil. Como se voc estivesse...
- ... em um espao em branco entre as letras. No 
momento que uma nota de msica termina, e a outra ainda no 
comeou.
- Exatamente. E um transe provocado desta maneira pode 
ser perigoso.
Quase disse: "este  o tipo de transe provocado pelo 
medo: paralisa a pessoa, a deixa sem reao, seu corpo no 
responde, sua alma j no est mais ali. Voc ficou aterrorizada 
por tudo que poderia ter acontecido caso o destino no tivesse 
colocados seus pais no caminho". Mas ela havia deixado as malas 
no cho, e me encarava de frente. 
- Quem  voc? Por que est me dizendo tudo isso? 
- Como mdica, me chamam de Deidre O"Neill. Muito 
prazer - e qual  o seu nome?
- Athena. Mas no passaporte est escrito Sherine 
Khalil. 
- Quem lhe deu este nome?
- Ningum importante. Mas no lhe perguntei seu nome: 
perguntei quem . E porque se aproximou de mim. E por que eu 
senti a mesma necessidade de conversar com voc. Ser que foi o 
fato de sermos as duas nicas mulheres naquele bar? No creio: e 
est me dizendo coisas que fazem sentido na minha vida. 
Tornou a pegar as malas, e continuamos a caminhar em 
direo  estao de nibus. 
- Eu tambm tenho um segundo nome: Edda. Mas ele no 
foi escolhido ao acaso. Como tampouco creio que o acaso nos 
colocou juntas. 
Diante de ns estava a porta da estao de nibus, com 
vrias pessoas entrando e saindo, militares em seus uniformes, 
camponeses, mulheres bonitas mas vestidas como se vivessem h 
cinqenta anos.
- Se no foi o acaso, voc acha que foi o qu?
Ainda faltava meia hora para que seu nibus partisse, 
e eu podia ter respondido: foi a Me. Alguns espritos escolhidos 
emitem uma luz especial, devem se encontrar, e voc - Sherine ou 
Athena -  um destes espritos, mas precisa trabalhar muito para 
usar esta energia em seu favor. 
Podia ter explicado que estava seguindo o caminho 
clssico de uma feiticeira, que busca atravs da individualidade 
o seu contato com o mundo superior e inferior, mas termina sempre 
destruindo sua prpria vida - serve, d energia, e jamais a 
recebe de volta. 
Podia ter explicado que, embora os caminhos sejam 
individuais, existe sempre a etapa onde as pessoas se unem, 
celebram juntas, discutem suas dificuldades, e se preparam para o 
Renascer da Me. Que o contato com a Luz Divina  a maior 
realidade que um ser humano pode experimentar, e mesmo assim, na 
minha tradio, este contato no podia ser feito de maneira 
solitria, porque existiam anos, sculos de perseguio, que nos 
ensinaram muitas coisas. 
- Voc no quer entrar para tomar um caf, enquanto 
espero o nibus?
No, eu no queria. Ia terminar dizendo coisas que, a 
esta altura, seriam mal interpretadas. 
- Certas pessoas foram muito importantes na minha vida 
- continuou ela. - O proprietrio do meu apartamento, por 
exemplo. Ou um calgrafo que conheci no deserto perto de Dubai. 
Quem sabe me diga coisas que eu possa dividir com eles, e 
retribuir tudo que me ensinaram. 
Ento, ela j tivera mestres em sua vida: timo! Seu 
esprito estava maduro. Tudo que precisava era continuar seu 
treinamento; caso contrrio, iria terminar perdendo o que tinha 
conquistado. Mas seria eu a pessoa indicada? 
Em uma frao de segundo, pedi que a Me me 
inspirasse, me dissesse algo. No tive resposta - o que no me 
surpreendeu, porque Ela sempre agia assim quando eu precisava 
arcar com a responsabilidade de uma deciso. 
Estendi meu carto de visitas, e pedi o seu. Ela me 
deu um endereo de Dubai, que eu no tinha a menor idia de onde 
ficava. 
Resolvi brincar um pouco, e testar um pouco mais. 
- No  um pouco de coincidncia que trs ingleses se 
encontrem em um bar de Bucareste?
- Pelo que vejo no seu carto, voc  escocesa. O tal
homem parece trabalhar na Inglaterra, mas eu no sei nada a
respeito dele.
Respirou fundo.
- E eu sou... romena. 
Expliquei que precisava voltar correndo para o hotel e 
arrumar minhas malas. 
Agora ela sabia onde me encontrar, e, se estivesse 
escrito, nos veramos de novo;  importante permitir que o 
destino interfira em nossas vidas, e decida o que  melhor para 
todos. 

Vosho "Bushalo", 65 anos, dono de restaurante

Esses europeus chegam aqui achando que sabem de tudo, 
que merecem um melhor tratamento, que tm o direito de nos 
inundar de perguntas, e somos obrigados a respond-las. Por outro 
lado, acham que trocando nosso nome para algo mais complicado, 
como "povo viajante", ou "os roma", podem corrigir os erros que 
cometeram no passado. 
Por que no continuam nos chamando de ciganos, e 
procuram acabar com as lendas que sempre nos fizeram parecer 
malditos diante dos olhos do mundo? Nos acusam de frutos da unio 
ilcita entre uma mulher e o prprio demnio. Dizem que um de ns 
forjou os cravos que pregaram o Cristo na cruz, que as mes 
deviam ter cuidado quando as nossas caravanas se aproximam, 
porque costumamos roubar crianas e transform-las em escravas. 
E por causa disso permitiram massacres ao longo da 
histria - fomos caados como as bruxas na Idade Mdia, durante 
sculos os tribunais alemes no aceitavam nosso testemunho. 
Quando o vento nazista varreu a Europa eu j havia nascido, e vi 
meu pai sendo deportado para um campo de concentrao na Polnia, 
com o humilhante smbolo de um tringulo negro costurado em sua 
roupa. Dos 500.000 ciganos enviados para trabalho escravo, 
sobreviveram apenas 5.000 para contar a histria. 
E ningum, absolutamente ningum, quer escutar isso. 
Nesta regio esquecida da terra, onde a maior parte 
das tribos resolveu se instalar, at o ano passado nossa cultura, 
religio e lngua eram proibidas. Se perguntarem a qualquer 
pessoa da cidade o que acham dos ciganos, diro sem pensar muito: 
"so todos ladres". Por mais que tentemos levar uma vida normal, 
deixando a eterna peregrinao e vivendo em lugares onde 
poderemos ser facilmente identificados, o racismo continua. Meus 
filhos so obrigados a sentar-se nas filas de trs de suas salas 
de aula, e no h semana que no sejam insultados por algum.
 Depois reclamam que no respondemos diretamente as 
perguntas, que procuramos nos disfarar, que jamais comentamos 
abertamente nossas origens. Para que fazer isso? Todo mundo sabe 
distinguir um cigano, e todo mundo sabe como se "proteger" das 
nossas "maldades". 
Quando aparece uma menina metida a intelectual, 
sorrindo, dizendo que faz parte de nossa cultura e de nossa raa, 
eu logo me coloco de guarda. Pode ser um dos enviados da 
Securitate, a polcia secreta deste louco ditador, o Conducator, 
o Gnio dos Crpatos, o Lder. Dizem que ele foi julgado e 
fuzilado, mas eu no acredito; seu filho ainda tem poder nesta 
regio, embora esteja desaparecido no momento. 
A menina insiste; sorrindo - como se fosse muito 
engraado o que est dizendo - afirma que sua me  cigana, e que 
gostaria de encontr-la. Tem o seu nome completo; como conseguiu 
obter tal informao sem o apoio da Securitate?
Melhor no irritar gente que tem contatos com o 
governo. Eu digo que no sei de nada, sou apenas um cigano que 
resolveu estabelecer uma vida honesta, mas ela continua 
insistindo; quer ver a me. Eu sei quem , sei tambm que h mais 
de vinte anos ela teve uma criana que entregou a um orfanato, e 
no se teve mais notcias. Fomos forados a aceit-la em nosso 
meio por causa daquele ferreiro que se achava dono do mundo. Mas 
quem garante que a moa intelectual que est na minha frente  a 
filha de Liliana? Antes de procurar saber quem  sua me, devia 
pelo menos respeitar alguns de nossos costumes, e no aparecer 
vestida de vermelho, porque no  o dia do seu casamento. Devia 
usar saias mais longas, para evitar a luxria dos homens. E nunca 
podia me dirigir a palavra da maneira que ela me dirigiu. 
Se hoje falo dela no presente,  porque para aqueles 
que viajam o tempo no existe - apenas o espao. Viemos de muito 
longe, uns dizem que da ndia, outros afirmam que nossa origem 
est no Egito, o fato  que carregamos o passado como se tivesse 
acontecido agora. E as perseguies ainda continuam. 
A moa tenta ser simptica, mostra que conhece nossa 
cultura, quando isso no tem a menor importncia; devia conhecer 
mesmo nossas tradies. 
- Soube na cidade que o senhor  um Rom Baro, um chefe 
de tribo. Antes de vir at aqui, aprendi muito sobre a nossa
histria... 
- No  a "nossa", por favor.  a minha, da minha 
mulher, dos meus filhos, da minha tribo. Voc  uma europia. 
Voc jamais foi apedrejada na rua, como eu fui quando tinha cinco 
anos. 
- Acho que as coisas esto melhorando. 
- Sempre melhoraram, para piorar depois. 
Mas ela no pra de sorrir. Pede um usque; nossas 
mulheres nunca fariam isso. 
Se tivesse entrado aqui apenas para beber, ou para 
procurar companhia, seria tratada como uma cliente. Eu aprendi a 
ser simptico, atencioso, elegante, porque meu negcio depende 
disso. Quando os freqentadores de meu restaurante querem saber 
mais sobre ciganos, digo umas tantas coisas curiosas, aviso que 
escutem o conjunto que vai tocar daqui a pouco, comento dois ou 
trs detalhes de nossa cultura, e saem daqui com a impresso de 
que conhecem tudo a respeito da gente. 
Mas a moa no veio aqui em busca de turismo: ela 
afirma que faz parte da raa. 
Ela me estende de novo o certificado que conseguiu do 
governo. Acho que o governo mata, rouba, mente, mas no se 
arrisca a fornecer certificados falsos, e que ela deve ser mesmo 
filha de Liliana, porque ali est o nome inteiro dela e o lugar 
onde vivia. Soube pela televiso que o Gnio dos Crpatos, o Pai 
do Povo, o Conducator de todos ns, aquele que nos fez passar 
fome enquanto exportava tudo para o estrangeiro, o que tinha os 
palcios com talheres revestidos de ouro enquanto o povo morria 
de inanio, este homem com sua maldita mulher costumavam pedir 
que a Securitate percorresse orfanatos pegando bebs para serem 
treinados como assassinos pelo Estado. 
Pegavam apenas os meninos, deixavam as meninas. Talvez 
seja mesmo a filha.
Olho de novo o certificado, e fico pensando se devo ou 
no dizer onde sua me se encontra. Liliana merece encontrar esta 
intelectual, dizendo que  "uma de ns". Liliana merece olhar 
esta mulher de frente; acho que j sofreu tudo que precisava 
sofrer depois que traiu seu povo, deitou-se com um gaje (N. R: 
estrangeiro), envergonhou seus pais. Talvez seja o momento de 
terminar com seu inferno, ver que a filha sobreviveu, ganhou 
dinheiro, e poder at ajud-la a sair da misria em que se 
encontra. 
Talvez eu possa cobrar algo pela informao. E, no 
futuro, nossa tribo consiga alguns favores, porque vivemos tempos 
confusos,  onde todos dizem que o Gnio dos Crpatos est morto, 
chegam a mostrar cenas de sua execuo, mas ele pode ressurgir 
amanh, tudo no passou de um excelente golpe para ver quem 
estava do seu lado, e quem estava disposto a tra-lo. 
Os msicos vo comear daqui a pouco, melhor falar de 
negcios.
- Sei onde esta mulher se encontra. E posso lev-la 
at ela. 
O meu tom de conversa agora est mais simptico. 
- Entretanto, acho que esta informao vale alguma 
coisa. 
- Eu j estava preparada para isso - responde, 
estendendo muito mais dinheiro do que eu pensava pedir. 
- Isso no d nem para pagar o txi at l.
- Ter uma quantidade igual, quando eu tiver chegado 
ao meu destino. 
E sinto que, pela primeira vez, ela vacila. Parece que 
tem medo de seguir adiante. Pego logo o dinheiro que depositou no 
balco.
- Amanh eu a levo at Liliana. 
As mos dela tremem. Ela pede outro usque, mas de 
repente um homem entra no bar, muda de cor, e vem imediatamente 
em sua direo; entendo que devem ter se conhecido ontem e hoje 
j esto conversando como se fossem velhos amigos. Os seus olhos 
a desejam. Ela est plenamente consciente disso, e provoca ainda 
mais. O homem pede uma garrafa de vinho, os dois sentam-se em uma 
mesa, e parece que a histria da me foi completamente esquecida. 
Mas eu quero a outra metade do dinheiro. Quando vou 
entregar a bebida, pergunto em que hotel est hospedada, e digo 
que estarei ali s 10 horas da manh. 

Heron Ryan, jornalista

Logo na primeira taa de vinho, comentou - sem que eu 
perguntasse nada, claro - que tinha um namorado, policial da 
Scotland Yard. Claro que era mentira; devia ter lido meus olhos, 
e j estava procurando me afastar. 
Respondi que tinha uma namorada, e fomos para o empate 
tcnico.  
Dez minutos depois da msica ter comeado, ela 
levantou-se. Tnhamos conversado muito pouco - nada de perguntas 
sobre minhas pesquisas sobre vampiros, apenas assuntos gerais, 
impresses sobre a cidade, reclamaes sobre as estradas. Mas o 
que eu vi dali por diante - melhor dizendo, o que todo mundo no 
restaurante viu - foi uma deusa que se mostrava em toda a sua 
glria, uma sacerdotisa que evocava anjos e demnios. 
Seus olhos estavam fechados, e ela parecia j no ter 
mais conscincia de quem era, de onde estava, do que procurava do 
mundo; era como se flutuasse invocando o seu passado, revelando 
seu presente, descobrindo e profetizando o futuro. Misturava 
erotismo e castidade, pornografia e revelao, adorao de Deus e 
da natureza ao mesmo tempo. 
As pessoas todas pararam de comer, e comearam a olhar 
o que estava acontecendo. Ela j no seguia a msica, eram os 
msicos que procuravam acompanhar seus passos, e aquele 
restaurante no subsolo de um antigo edifcio na cidade de Sibiu 
transformou-se em um templo egpcio, onde as adoradoras de sis 
costumavam reunir-se para seus ritos de fertilidade. O odor da 
carne assada e do vinho mudou para um incenso que nos elevava ao 
mesmo transe,  mesma experincia de sair do mundo e entrar em 
uma dimenso desconhecida. 
Os instrumentos de corda e de sopro j no tocavam 
mais, apenas a percusso continuou. Athena danava como se no 
estivesse mais ali, o suor pingando do rosto, os ps descalos 
batendo com fora no cho de madeira. Uma mulher levantou-se e, 
gentilmente, amarrou um leno em seu pescoo e seus seios, j que 
sua blusa ameaava toda hora escorregar do ombro. Mas ela pareceu 
no notar, estava em outras esferas, experimentava as fronteiras 
de mundos que quase tocam no nosso, mas que nunca se deixam 
revelar. 
As pessoas no restaurante comearam a bater palmas 
para acompanhar a msica, e Athena danava com mais velocidade, 
captando a energia daquelas palmas, girando em torno de si mesma, 
equilibrando-se no vazio, arrebatando tudo que ns, pobres 
mortais, devamos oferecer  divindade suprema. 
E, de repente, parou. Todos pararam, inclusive os 
msicos que tocavam a percusso. Seus olhos ainda continuavam 
fechados, mas lgrimas rolavam pelo rosto. Levantou os braos 
para os cus, e gritou:
- Quando eu morrer, enterrem-me de p, porque vivi de 
joelhos toda a minha vida!
Ningum disse nada. Ela abriu os olhos como se 
despertasse de um sono profundo, e caminhou para a mesa, como se 
nada tivesse acontecido. A orquestra voltou a tocar, casais 
ocuparam a pista tentando divertir-se, mas o ambiente do local 
parecia ter sido transformado por completo; logo as pessoas 
pagaram suas contas e comearam a sair do restaurante. 
- Est tudo bem? - perguntei, quando vi que j estava 
recuperada do esforo fsico.
- Tenho medo. Descobri como chegar onde no queria. 
- Quer que a acompanhe?
Ela fez que "no" com a cabea. Mas perguntou em que 
hotel eu estava. Dei-lhe o endereo. 
Nos dias que se seguiram, terminei minhas pesquisas 
para o documentrio, mandei o meu intrprete de volta para 
Bucareste com o carro alugado e, a partir daquele momento, fiquei 
em Sibiu apenas porque queria encontr-la de novo. Embora tenha 
sempre sido algum guiado pela lgica, capaz de entender que o 
amor pode ser construdo e no simplesmente descoberto, sabia que 
se no tornasse mais a v-la estaria deixando para sempre na 
Transilvnia uma parte importante de minha vida, embora s muito 
mais tarde viesse a descobrir isso. Lutei contra a monotonia, 
daquelas horas sem fim, mais de uma vez fui at a estao para 
saber os horrios de nibus para Bucareste, gastei em telefonemas 
para a BBC e para minha namorada mais do que o meu pequeno 
oramento de produtor independente permitia. Explicava que o 
material ainda no estava pronto, que faltavam algumas coisas, 
talvez um dia a mais, talvez uma semana, os romenos eram muito 
complicados, sempre ficavam revoltados quando algum associava a 
linda Transilvnia  horrorosa histria de Drcula. Os produtores 
pareceram finalmente convencer-se, e me deixaram ficar alm do 
tempo necessrio. 
Estvamos hospedados no nico hotel da cidade, e um 
dia ela apareceu, me viu de novo no hall, nosso primeiro encontro 
parece ter voltado  sua cabea; desta vez me convidou para sair, 
e procurei conter minha alegria. Talvez eu tambm fosse 
importante em sua vida.  
Mais tarde descobri que a frase que dissera no final 
de sua dana era um antigo provrbio cigano. 


Liliana, costureira, idade e sobrenome desconhecidos

Falo no presente porque para ns no existe tempo, 
apenas espao. Porque parece ontem. 
O nico costume tribal que no segui foi o de ter o 
homem ao meu lado no momento de Athena nascer. Mas as parteiras 
vieram, mesmo sabendo que eu tinha dormido com um gaje, um 
estrangeiro. Soltaram meus cabelos, arrancaram o cordo 
umbilical, deram vrios ns, e me entregaram. Neste momento, a 
tradio mandava que a criana fosse envolta em uma pea de roupa 
do seu pai; ele tinha deixado um leno, que me lembrava seu 
perfume, que de vez em quando eu aproximava do meu nariz para 
senti-lo perto, e agora este perfume iria desaparecer para 
sempre.
Eu a envolvi no leno e a coloquei no solo, para que 
recebesse a energia da Terra. Fiquei ali, sem saber o que sentir, 
o que pensar; minha deciso j estava tomada. 
Elas disseram que eu escolhesse um nome, e que no 
dissesse para ningum - s podia ser pronunciado depois que a 
menina fosse batizada. Entregaram-me leo consagrado, e os 
amuletos que devia colocar em seu pescoo duas semanas depois. 
Uma delas disse que no me preocupasse, a tribo inteira era 
responsvel por ela, e que eu devia me acostumar com as crticas 
- isso iria passar logo. Aconselharam-me tambm a no sair entre 
o entardecer e a aurora, porque os tsinvari (N.R.: espritos 
malignos) podiam nos atacar e nos possuir, e a partir da nossa 
vida seria uma tragdia. 
Uma semana depois, assim que o sol nasceu, fui at um 
centro de adoo em Sibiu para coloc-la na soleira da porta, 
esperando que uma mo caridosa viesse recolh-la. Quando ia 
fazendo isso, uma enfermeira me pegou e me levou para dentro. 
Ofendeu-me o quanto pde, disse que j estavam preparados para 
esse tipo de comportamento: sempre algum ficava vigiando, eu no 
podia escapar assim to facilmente da responsabilidade de trazer 
uma criana ao mundo. 
- Claro, no se pode esperar outra coisa de uma 
cigana: abandonar seu filho!
Fui obrigada a preencher uma ficha com todos os dados, 
e, como no sabia escrever, ela repetiu mais uma vez: "claro, uma 
cigana. E no tente nos enganar fornecendo dados falsos, ou 
poder ir parar na cadeia". Por medo, terminei contando a 
verdade. 
Eu a olhei uma ltima vez, e tudo que consegui pensar 
foi: "menina sem nome, que voc encontre amor, muito amor em sua 
vida".
Sa e fiquei caminhando pela floresta durantes horas. 
Me lembrava das muitas noites durante a gravidez, onde amava e 
odiava a criana e o homem que a colocou dentro de mim. 
Como toda mulher, vivi com o sonho de encontrar o 
prncipe encantado, casar-me, encher minha casa de filhos e minha 
famlia de cuidados. Como grande parte das mulheres, terminei me 
apaixonando por um homem que no podia me dar isso - mas com quem 
dividi momentos que jamais esquecerei. Momentos que eu no 
poderia fazer com que a criana entendesse, ela seria sempre 
estigmatizada no seio de nossa tribo, uma gaje, uma menina sem 
pai. Eu poderia suportar, mas no queria que ela passasse pelo 
mesmo sofrimento que eu vinha passando desde que descobri que 
estava grvida. 
Chorava e arranhava a mim mesma, pensando que a dor 
talvez me fizesse pensar menos, voltar para a vida, para a 
vergonha da tribo; algum tomaria conta da menina, e eu sempre 
viveria com a idia de rev-la um dia, quando estivesse grande. 
Sentei-me no cho, agarrei-me em uma rvore sem 
conseguir parar de chorar. Mas, quando as minhas lgrimas e o 
sangue dos meus ferimentos tocaram seu caule, uma estranha calma 
tomou conta de mim. Parecia que eu escutava uma voz dizendo que 
no me preocupasse, que o meu sangue e minhas lgrimas haviam 
purificado o caminho da menina e diminudo o meu sofrimento. 
Desde ento, sempre que entro em desespero, me lembro desta voz, 
e me tranqilizo. 
Por isso, no foi surpresa v-la chegar com o Rom Baro 
de nossa tribo - que pediu caf, bebida, sorriu com ironia, e 
logo foi embora. A voz me dissera que ela voltaria, e agora est 
aqui, na minha frente. Bonita, parecida com o pai, no sei o que 
sente por mim - talvez dio por t-la abandonado um dia. No 
preciso explicar por que fiz isso; ningum no mundo poderia mesmo 
compreender. 
Ficamos uma eternidade sem dizer nada uma para a 
outra, apenas olhando - sem sorrir, sem chorar, sem nada. Um 
surto de amor sai do fundo da minha alma, no sei se est 
interessada no que sinto. 
- Voc est com fome? Quer comer algo?
O instinto. Sempre o instinto em primeiro lugar. Ela 
faz que "sim" com a cabea. Entramos no pequeno quarto onde vivo 
- e que serve ao mesmo tempo de sala, dormitrio, cozinha, e 
ateli de costura. Ela olha para aquilo tudo, est espantada, mas 
finjo que no notei: vou at o fogo, volto com dois pratos da 
espessa sopa de vegetais e gordura animal. Preparo um caf forte, 
e, quando vou colocar acar, escuto sua primeira frase:
- Puro, por favor. No sabia que falava ingls.
Ia dizer "foi seu pai", mas me controlei. Comemos em 
silncio, e,  medida que o tempo vai passando, tudo comea a me 
parecer familiar, estou ali com minha filha, ela caminhou o mundo 
e agora est de volta, conheceu outros caminhos e retorna para 
casa. Sei que  uma iluso, mas a vida me deu tantos momentos de 
dura realidade, que no custa sonhar um pouco. 
- Quem  esta santa? - aponta para um quadro na 
parede.
- Santa Sarah, a padroeira dos ciganos. Sempre quis 
visitar sua igreja, na Frana, mas no podemos sair daqui. No 
conseguiria passaporte, permisso, e...
Ia dizer: "mesmo que conseguisse, no teria dinheiro", 
mas interrompi a frase. Ela podia achar que estava lhe pedindo 
algo. 
-... e estou muito ocupada com meu trabalho. 
O silncio retorna. Ela termina a sopa, acende um 
cigarro, seu olhar no demonstra nada, nenhum sentimento. 
- Voc achou que tornaria a me ver de novo?
Respondo que sim. E soube ontem, pela mulher do Rom 
Baro, que ela estava em seu restaurante. 
- Uma tempestade se aproxima. Voc no quer dormir um 
pouco? 
- No escuto nenhum rudo. O vento no est soprando 
nem mais forte, nem mais fraco do que antes. Prefiro conversar.
- Acredite em mim. Tenho o tempo que quiser, tenho a 
vida que me resta para estar ao seu lado.
- No diga isso agora. 
- ... mas voc est cansada - continuo, fingindo que 
no ouvi seu comentrio. Vejo a tempestade que se aproxima. Como 
toda e qualquer tempestade, ela traz destruio; mas ao mesmo 
tempo molha os campos, e a sabedoria do cu desce junto com a sua 
chuva. Como toda e qualquer tempestade, ela deve passar. Quanto 
mais violenta, mais rpida. 
Graas a Deus, aprendi a enfrentar tempestades. 
E, como se as Santas Marias do Mar me escutassem, 
comeam a cair as primeiras gotas no teto de zinco. A moa 
termina seu cigarro, eu a pego pelas mos, conduzo at minha 
cama. Ela deita-se e fecha os olhos. 
No sei quanto tempo dormiu; eu a contemplava sem 
pensar em nada, e a voz que um dia havia escutado na floresta me 
dizia que estava tudo bem, que no devia me preocupar, que as 
mudanas que o destino provoca nas pessoas so favorveis se 
soubermos decifrar o que elas contm. No sei quem a havia 
recolhido do orfanato, a educado, a transformado na mulher 
independente que parecia ser. Fiz uma prece por essa famlia que 
havia permitido a minha filha sobreviver e melhorar de vida. No 
meio da prece, senti cime, desespero, arrependimento, e parei de 
conversar com Santa Sarah; ser que tinha sido realmente 
importante traz-la de volta? Ali estava tudo que eu perdi e 
jamais poderia recuperar. 
Mas ali tambm estava a manifestao fsica de meu 
amor. Eu no sabia de nada, e ao mesmo tempo tudo me era 
revelado, voltavam as cenas em que eu pensei em suicdio, 
considerei o aborto, imaginei-me deixando aquele canto do mundo e 
seguindo a p at onde minhas foras agentassem, o momento em 
que vi meu sangue e minhas lgrimas na rvore, a conversa com a 
natureza que se intensificou a partir deste momento, e jamais me 
deixou desde ento - embora pouca gente da minha tribo soubesse 
disso. O meu protetor, que me encontrou vagando na floresta, era 
capaz de entender tudo isso, mas ele acabara de morrer. 
"A luz  instvel, apaga-se com o vento, acende-se com 
o raio, nunca est ali, brilhando como o sol - mas vale a pena 
lutar por ela", dizia ele. 
O nico que me havia aceitado, e convencido a tribo de 
que eu podia tornar a fazer parte daquele mundo. O nico com 
autoridade moral suficiente para evitar que eu fosse expulsa.
E, infelizmente, o nico que no iria jamais conhecer 
a minha filha. Chorei por ele, enquanto ela permanecia imvel na 
minha cama, ela que devia estar acostumada com todo o conforto do 
mundo. Milhares de perguntas voltaram - quem eram seus pais 
adotivos, onde vivia, se tinha feito a universidade, se amava 
algum, quais os seus planos. Entretanto no tinha sido eu quem 
correra o mundo atrs dela, mas o contrrio; portanto, eu no 
estava ali para fazer perguntas, e sim para respond-las. 
Ela abriu os olhos. Pensei em tocar seu cabelo, dar-
lhe o carinho que havia guardado durante todos estes anos, mas 
fiquei sem saber sua reao, e achei melhor controlar-me. 
- Voc veio at aqui para saber o motivo...
- No. No quero saber por que uma me abandona sua 
filha; no existe motivo para isso.
Suas palavras cortam meu corao, mas eu no sei como 
responder. 
- Quem sou eu? Que sangue corre em minhas veias? 
Ontem, depois que soube que podia encontr-la, experimentei um 
estado completo de terror. Por onde comeo? Voc, como todas as 
ciganas, deve saber ler o futuro nas cartas, no  verdade?
- No  verdade. S fazemos isso com os gaje, os 
estrangeiros, como meio de ganhar a vida. Jamais lemos cartas, 
mos, ou tentamos prever o futuro quando estamos com nossa tribo. 
E voc...
- ...sou parte da tribo. Mesmo que a mulher que me 
trouxe ao mundo tenha me enviado para longe.
- Sim. 
- Ento, o que estou fazendo aqui? J vi seu rosto, 
posso voltar para Londres, minhas frias esto no final. 
- Quer saber sobre seu pai?
- No tenho o menor interesse. 
E de repente eu entendi em que podia ajud-la. Foi 
como se uma voz alheia sasse de minha boca:
- Entenda melhor o sangue que corre nas minhas  veias, 
e no seu corao. 
Era o meu mestre que falava atravs de mim. Ela voltou 
a fechar os olhos, e dormiu quase doze horas seguidas. 
No dia seguinte eu a conduzi aos arredores de Sibiu, 
onde tinham feito um museu com casas de toda a regio. Pela 
primeira vez tivera o prazer de preparar seu caf-da-manh. 
Estava mais descansada, menos tensa, e me perguntava coisas sobre 
a cultura cigana, embora jamais procurasse saber sobre mim. 
Comentou tambm um pouco de sua vida; soube que era av! No 
falou do marido nem dos pais adotivos. Disse que vendia terrenos 
em um lugar muito distante dali, e que em breve deveria retornar
ao seu trabalho.
Expliquei que podia ensin-la a fazer amuletos para
prevenir o mal, e no demonstrou nenhum interesse. Mas, quando
falei de ervas que curavam, ela pediu que lhe mostrasse como
reconhec-las. No jardim por onde passevamos procurei passar
todo o conhecimento que possua, embora tivesse certeza  que ia
esquecer tudo assim que retornasse a sua terra natal - que agora
eu j sabia ser Londres.
- No possumos a terra:  ela que nos possui. Como
antigamente viajvamos sem parar, tudo que nos cercava era nosso:
as plantas, a gua, as paisagens pelas quais nossas caravanas
passavam. Nossas leis eram as leis da natureza: os mais fortes
sobrevivem, e ns, os fracos, os eternos exilados, aprendemos a
esconder nossa fora, para us-la somente no momento necessrio.
"Acreditamos que Deus no fez o universo; Deus  o
universo, ns estamos Nele, e ele est em ns. Embora..."
Parei. Mas decidi continuar, porque esta era uma
maneira de homenagear meu protetor.
- ... na minha opinio, devamos cham-lo de Deusa. De
Me. No da mulher que abandona sua filha em um orfanato, mas
Daquela que est em ns, e que nos protege quando estamos em
perigo. Estar sempre conosco enquanto fizermos nossas tarefas
dirias com amor, alegria, entendendo que nada  sofrimento, tudo
 uma maneira de louvar a Criao.
Athena - agora eu j sabia seu nome - desviou o olhar
para uma das casas que estavam no jardim.
- O que  aquilo? Uma igreja?
As horas que havia passado ao seu lado tinham me 
permitido recobrar as foras; perguntei se queria mudar de 
assunto. Ela refletiu um momento, antes de responder.
- Quero continuar escutando o que tem para me dizer. 
Embora, pelo que entendi em tudo que li antes de vir para c, 
isso que voc me diz no combina com a tradio dos ciganos. 
- Foi meu protetor quem me ensinou. Porque sabia 
coisas que os ciganos no sabem, obrigou a tribo a me aceitar de 
novo em seu meio. E,  medida que aprendia com ele, ia me dando 
conta do poder da Me - logo eu, que tinha recusado esta bno. 
Agarrei um pequeno arbusto com as mos.
- Se algum dia o seu filho estiver com febre, coloque-
o junto de uma planta jovem, e sacuda suas folhas: a febre ser 
passada para a planta. Caso sinta-se angustiada, faa a mesma 
coisa. 
- Prefiro que continue me contando sobre seu protetor. 
- Ele me dizia que no incio a Criao era 
profundamente solitria. Ento gerou algum com quem conversar. 
Estes dois, em um ato de amor, fizeram uma terceira pessoa, e a 
partir da tudo se multiplicou por milhares, milhes. Voc 
perguntou sobre a igreja que acabamos de ver: no sei sua origem, 
e no me interessa, meu templo  o jardim, o cu, a gua do lago 
e do riacho que o alimenta. Meu povo so pessoas que dividem a 
mesma idia comigo, e no aquelas a quem estou ligada por laos 
de sangue. Meu ritual  estar com esta gente, celebrando tudo que 
est  minha volta. Quando voc pretende voltar para casa?
- Talvez amanh. Desde que no esteja incomodando. 
Outra ferida no meu corao, mas eu no podia dizer 
nada. 
- Fique o tempo que quiser. Perguntei apenas porque 
gostaria de celebrar com os outros a sua chegada. Posso fazer 
isso hoje  noite, se concordar. 
Ela no diz nada, e entendo que  um "sim". Voltamos 
para casa, eu a alimento de novo, ela explica que precisa ir at 
o hotel em Sibiu pegar algumas roupas, quando volta j organizei 
tudo. Vamos para uma colina ao sul da cidade, sentamos em volta 
da fogueira que acaba de ser acesa, tocamos instrumentos, 
cantamos, bailamos, contamos histrias. Ela assiste a tudo sem 
participar de nada, embora o Rom Baro tenha dito que era uma 
excelente danarina. Pela primeira vez em todos estes anos eu 
estou alegre, porque pude preparar um ritual para minha filha e 
celebrar com ela o milagre de ambas estarmos vivas, com sade, 
mergulhadas no amor da Grande Me. 
No final, diz que aquela noite vai dormir no hotel. 
Pergunto se estamos nos despedindo, ela diz que no. Voltar 
amanh. 
Durante toda uma semana, eu e minha filha dividimos a 
adorao do Universo. Em uma destas noites, ela trouxe um amigo, 
mas fazendo questo de explicar que no era o seu amado, nem o 
pai de sua filha. O homem, que devia ter dez anos a mais que ela, 
perguntou a quem estvamos celebrando em nossos rituais. 
Expliquei que adorar algum significava - segundo meu protetor - 
colocar esta pessoa fora de nosso mundo. No estamos adorando 
nada, apenas comungando com a Criao.
- Mas vocs rezam?
- Pessoalmente, eu rezo para Santa Sarah. Mas aqui ns 
somos parte de tudo, celebramos em vez de rezar. 
Achei que Athena tinha ficado orgulhosa com minha 
resposta. Na verdade eu estava apenas repetindo as palavras de 
meu protetor.
- E por que fazem isso em conjunto, j que podemos 
celebrar sozinhos nosso contato com o Universo?
- Porque os outros so eu. E eu sou os outros. 
Neste momento, Athena me olhou, e eu senti que foi 
minha vez de cortar o seu corao.
- Estou indo embora amanh - ela disse. 
- Antes de ir, venha despedir-se de sua me.
Foi a primeira vez, ao longo de todos estes dias, que 
eu usei este termo. Minha voz no tremeu, meu olhar manteve-se 
firme, e eu sabia que, apesar de tudo, ali estava o sangue do meu 
sangue, o fruto do meu ventre. Naquele momento eu me comportava 
como uma menina que acaba de compreender que o mundo no est 
cheio de fantasmas e maldies, como os adultos nos ensinaram; 
est repleto de amor, independente de como ele se manifeste. Um 
amor que perdoa seus erros, e que redime seus pecados.
Ela me abraou por um longo tempo. Em seguida, ajeitou 
o vu com que cubro meus cabelos - embora no tivesse um marido, 
a tradio cigana dizia que eu devia us-lo, j que no era mais 
virgem. O que o amanh reservava para mim, alm da partida de um 
ser que sempre amei e temi  distncia? Eu era todos, e todos 
eram eu e minha solido. 
No dia seguinte Athena apareceu com um ramo de flores, 
arrumou meu quarto, disse que eu devia usar culos porque meus 
olhos estavam ficando desgastados com a costura. Perguntou se os 
amigos com quem celebrava no terminavam tendo problemas com a 
tribo, eu disse que no, que meu protetor fora um homem 
respeitado, aprendera o que muitos de ns no sabamos, tinha 
discpulos no mundo inteiro. Expliquei que morrera pouco antes 
dela chegar.
- Certo dia, um gato aproximou-se e tocou-o com seu 
corpo. Para ns, isso significava morte e todos ficamos 
preocupados; mas existe um ritual para cortar tal malefcio. 
"Entretanto, meu protetor disse que j era tempo de 
partir, precisava viajar pelos mundos que ele sabia existirem, 
voltar a renascer como criana, e antes repousar um pouco no colo 
da Me. Seu funeral foi simples, em uma floresta aqui perto, mas 
veio gente do mundo inteiro assistir." 
- Entre estas pessoas, uma mulher de cabelos pretos, 
prxima dos 35 anos?
- No me lembro exatamente, mas  possvel que sim. 
Por que quer saber?
- Encontrei algum em um hotel de Bucareste, que disse 
que viera para o funeral de um amigo. Acho que mencionou algo 
como "seu mestre". 
Pediu-me que contasse mais sobre os ciganos, mas no 
havia muito que no soubesse. Principalmente porque, alm dos 
hbitos e tradies, quase no conhecemos nossa histria. Sugeri 
que um dia fosse at a Frana, e levasse em meu nome uma saia 
para a imagem de Sarah no vilarejo francs de Saintes-Maries-de-
la-Mer. 
- Vim at aqui porque faltava algo na minha vida. 
Precisava preencher meus espaos em branco, e achei que a simples 
viso do seu rosto fosse o suficiente. Mas no foi; precisava 
tambm entender que... tinha sido amada.
- Voc  amada. 
Dei uma longa pausa: tinha finalmente colocado em 
palavras o que gostaria de dizer desde que a deixei ir embora. 
Para evitar que ficasse comovida, continuei:
- Gostaria de lhe pedir uma coisa. 
- O que quiser. 
- Quero pedir perdo. 
Ela mordeu os lbios. 
- Sempre fui uma pessoa muito agitada. Trabalho muito, 
cuido demais do meu filho, dano como uma louca, aprendi 
caligrafia, freqento cursos de aperfeioamento de vendas, leio 
um livro atrs do outro. Tudo para evitar aqueles momentos em que 
nada acontece, porque estes espaos em branco me traziam uma 
sensao de vazio absoluto, onde no existe nem uma simples 
migalha de amor. Meus pais sempre fizeram tudo por mim, e penso 
que no canso de os decepcionar.
"Mas aqui, enquanto ficamos juntas, nos momentos em 
que celebrei a natureza e a Grande Me com voc, entendi que os 
tais espaos vazios comeavam a ser preenchidos. Transformaram-se 
em pausas - o momento em que o homem levanta a mo do tambor, 
antes de toc-lo de novo com fora. Acho que posso ir; no digo 
que irei em paz, porque minha vida precisa de um ritmo com o qual 
estou acostumada. Mas tampouco irei com amargura. Todos os 
ciganos acreditam na Grande Me?
- Se voc perguntar, nenhum dir que sim. Adotaram as 
crenas e os costumes dos lugares onde foram se instalando. 
Entretanto, a nica coisa que nos une na religio  adorar Santa 
Sarah, e peregrinar pelo menos uma vez na vida at onde est seu 
tmulo, em Saintes-Maries-de-la-Mer. Algumas tribos a chamam de 
Kali Sarah, a Sarah Negra. Ou a Virgem dos Ciganos, como  
conhecida em Lourdes. 
- Preciso ir - disse Athena depois de um tempo. - O 
amigo que voc conheceu outro dia ir me acompanhar. 
- Parece um bom homem.
- Voc est falando como me.
- Sou sua me. 
- Sou sua filha. 
Ela me abraou, desta vez com lgrimas nos olhos. Eu 
afaguei os seus cabelos, enquanto a mantinha entre meus braos 
como sempre sonhara, desde que um dia o destino - ou o meu medo - 
nos separou. Pedi que se cuidasse, e ela respondeu que tinha 
aprendido muito. 
- Ir aprender mais ainda porque, embora todos ns 
estejamos hoje presos a casas, cidades, empregos, ainda corre em 
seu sangue o tempo das caravanas, as viagens, e os ensinamentos 
que a Grande Me colocava em nosso caminho, de modo que 
pudssemos sobreviver. Aprenda, mas aprenda sempre com gente ao 
seu lado. No fique sozinha nesta busca: se estiver dando um 
passo errado, no ter ningum que a ajude a corrigi-lo. 
Ela continuava chorando, abraada a mim, quase me 
pedindo para ficar. Implorei ao meu protetor que no me deixasse 
verter nenhuma lgrima, porque eu queria o melhor para Athena, e 
seu destino era seguir adiante. Aqui na Transilvnia, alm do meu 
amor, no encontraria mais nada. E embora eu ache que o amor  
suficiente para justificar toda uma existncia, tinha absoluta 
certeza que no podia pedir que sacrificasse o seu futuro para 
ficar ao meu lado. 
Athena me deu um beijo na testa e foi embora sem dizer 
adeus, talvez pensando que um dia iria voltar. Todos os natais me 
enviava dinheiro suficiente para passar o ano inteiro sem 
precisar costurar; jamais fui ao banco receber seus cheques, 
embora todos da tribo achassem que eu estava agindo como uma 
mulher ignorante. 
H seis meses, parou de enviar. Deve ter compreendido 
que preciso da costura para preencher aquilo que ela chamava de 
"espaos brancos".
Por mais que gostaria de v-la uma vez mais, sei que 
no voltar nunca; neste momento deve ser uma grande executiva, 
casada com o homem que ama, devo ter muitos netos, o meu sangue 
continuar nesta terra, e os meus erros sero perdoados. 


Samira R. Khalil, dona de casa

Assim que Sherine entrou em casa dando gritos de 
alegria, agarrando e apertando um assustado Viorel, entendi que 
tudo havia corrido melhor do que eu imaginava. Senti que Deus 
havia escutado minhas preces, e ela agora j no tinha nada mais 
a descobrir sobre si mesma, podia finalmente adaptar-se a uma 
vida normal, criar seu filho, casar-se de novo, e deixar de lado 
toda aquela ansiedade que a deixava eufrica e deprimida ao mesmo 
tempo. 
- Eu te amo,mame. 
Foi minha vez de agarr-la e apert-la em meus braos. 
Durante algumas daquelas noites em que esteve fora, confesso que 
fiquei aterrorizada com a idia de que enviasse algum para 
buscar Viorel, e nunca mais voltassem.
Depois de comer, tomar banho, contar sobre o encontro 
com a me de sangue, descrever as paisagens da Transilvnia ( eu 
no me lembrava direito, j que estava apenas em busca de um 
orfanato), eu perguntei quando voltava para Dubai
- Na semana que vem. Antes preciso ir  Esccia
encontrar uma pessoa.
Um homem!
- Uma mulher - ela continuou, possivelmente notando
meu sorriso de cumplicidade. - Sinto que tenho uma misso.
Descobri coisas que no julgava existirem enquanto celebrava a
vida e a natureza. O que julgava encontrar apenas na dana, est
por toda parte. E tem um rosto de mulher: eu vi na...
Fiquei assustada. Disse que sua misso era educar o
filho, tentar ser melhor em seu trabalho, ganhar mais dinheiro,
casar-se de novo, respeitar Deus tal como O conhecemos.
Mas Sherine no estava me escutando direito.
- Foi durante uma noite em que estvamos sentados em 
torno da fogueira, bebendo, rindo com histrias, escutando 
msica. Exceto por uma vez no restaurante, todos os dias que 
passei ali no senti necessidade de danar, como se estivesse 
acumulando energia para alguma coisa diferente. De repente senti 
que tudo  minha volta estava vivo, palpitando - eu e a Criao 
ramos uma coisa s. Chorei de alegria quando as chamas na 
fogueira pareceram transformar-se no rosto de uma mulher, cheia 
de compaixo, sorrindo para mim.
Tive um arrepio; feitiaria cigana, com toda certeza. 
E ao mesmo tempo me voltou a imagem da menina na escola, que 
dizia ter visto "uma mulher de branco". 
- No se deixe levar por estas coisas, que so do 
demnio. Voc sempre teve bons exemplos em nossa famlia, ser 
que no pode simplesmente levar uma vida normal?
Pelo visto eu havia me precipitado ao julgar que a 
viagem em busca da me biolgica lhe fizera bem. Mas, ao invs de 
reagir com a agressividade de sempre, ela continuou sorrindo: 
- O que  normal? Por que papai vive sobrecarregado de 
trabalho, se j temos dinheiro suficiente para manter trs 
geraes?  um homem honesto, merece o que ganha, mas sempre diz, 
com certo orgulho, que est sobrecarregado de trabalho. Para qu? 
Onde quer chegar?
-  um homem que dignifica sua vida. 
- Quando vivia com vocs, sempre que chegava em casa 
ele perguntava pelos meus deveres, me dava uns quantos exemplos 
de como seu trabalho era necessrio para o mundo, ligava a 
televiso, fazia comentrios sobre a situao poltica no Lbano, 
antes de dormir lia um ou outro livro tcnico, vivia sempre 
ocupado.
"E com voc a mesma coisa; eu era a mais bem vestida 
na escola, levava-me s festas, cuidava da arrumao da casa, 
sempre foi gentil, amorosa, e me deu uma educao impecvel. Mas 
e agora, que a velhice est chegando: o que pretendem fazer com a 
vida, j que cresci e sou independente?"
- Vamos viajar. Correr o mundo, desfrutar de nosso 
merecido descanso. 
- Por que j no comeam a fazer isso, quando ainda 
tm sade?
J havia me perguntado a mesma coisa. Mas sentia que 
meu marido precisava do seu trabalho - no pelo dinheiro, mas 
pela necessidade de ser til, provar que um exilado tambm honra 
seus compromissos. Quando tirava frias e permanecia na cidade, 
sempre dava um jeito de ir at o escritrio, conversar com os 
amigos, tomar esta ou aquela deciso que poderia esperar. 
Procurava for-lo a ir ao teatro, ao cinema, aos museus, ele 
fazia tudo o que eu pedia, mas sentia que isso o aborrecia; seu 
nico interesse era a firma, o trabalho, os negcios. 
Pela primeira vez conversei com ela como se fosse uma 
amiga, e no minha filha - mas usando uma linguagem que no me 
comprometesse, e que ela pudesse entender facilmente. 
- Voc est dizendo que seu pai tambm procura 
preencher isso que chama de "espaos em branco"? 
- No dia em que ele se aposentar, embora eu acredite 
que esse dia jamais chegar, pode ter certeza que ir entrar em 
depresso. O que fazer desta liberdade to arduamente 
conquistada? Todos o cumprimentaro pela brilhante carreira, pela 
herana que nos deixou, pela integridade com que dirigiu sua 
firma. Mas ningum ter tempo para ele - a vida continua seu 
curso, e todos esto imersos nela. Papai vai sentir-se de novo um 
exilado, s que desta vez no ter um pas para se refugiar. 
- Voc tem alguma idia melhor?
- Tenho apenas uma: no quero que isso acontea 
comigo. Sou agitada demais, e no me compreenda mal, no estou de 
maneira nenhuma culpando o exemplo que me deram. Mas preciso 
mudar. 
"Mudar rpido." 


Deidre O"Neill, conhecida como Edda

Sentada na completa escurido. 
O menino,  claro, saiu imediatamente da sala - a 
noite  o reino do terror, dos monstros do passado, da poca em 
que andvamos como os ciganos, como meu antigo mestre - que a Me 
tenha compaixo de sua alma, e que ele esteja sendo cuidado com 
carinho, at o momento de voltar. 
Athena no sabe o que fazer desde que apaguei a luz. 
Pergunta pelo filho, digo que no se preocupe, deixe por minha 
conta. Saio, ligo a televiso, coloco em um canal de desenhos 
animados, tiro o som; o menino fica hipnotizado, e pronto, o 
assunto est resolvido. Fico pensando como deveria ser no 
passado, porque as mulheres vinham para o mesmo ritual de que 
Athena devia participar agora, traziam seus filhos, e no havia 
televiso. O que faziam as pessoas que estavam ali para ensinar? 
Bem, no  meu problema.
O que o garoto est experimentando em frente  
televiso - uma porta para uma realidade diferente -  a mesma 
coisa que vou provocar em Athena. Tudo  to simples, e ao mesmo 
tempo to complicado! Simples, porque basta mudar de atitude: no 
vou mais buscar felicidade. A partir de agora sou independente, 
vejo a vida com os meus olhos, e no com o de outros. Vou buscar 
a aventura de estar viva. 
E complicado: por que no vou procurar a felicidade, 
se as pessoas me ensinaram que este  o nico objetivo que vale a 
pena? Por que vou me arriscar em caminho onde outros no se 
arriscam? 
Afinal de contas, o que  felicidade? 
Amor, respondem. Mas amor no traz, nem nunca trouxe 
felicidade. Muito pelo contrrio,  sempre uma angstia, um campo 
de batalha, muitas noites em claro, perguntando-nos se estamos 
agindo corretamente. O verdadeiro amor  feito de xtase e 
agonia. 
Paz, ento. Paz? Se olharmos a Me, ela jamais est em 
paz. O inverno luta com o vero, o sol e a lua nunca se 
encontram, o tigre persegue o homem, que tem medo do co, que 
persegue o gato, que persegue o rato, que assusta o homem. 
Dinheiro traz felicidade. Muito bem: ento todas as 
pessoas que tm o bastante para viver com um altssimo padro de 
vida, poderiam parar de trabalhar. Mas continuam mais agitadas 
que antes, como se temessem perder tudo. Dinheiro traz mais 
dinheiro, isso  verdade. Pobreza pode trazer infelicidade, mas o 
contrrio no  verdadeiro. 
Eu busquei felicidade muito tempo de minha vida - 
agora eu quero mesmo  alegria. Alegria  como sexo; comea e 
acaba. Eu quero prazer. Eu quero estar contente - mas felicidade? 
Parei de cair nesta armadilha. 
Quando estou com um grupo de pessoas e resolvo 
provocar usando uma das questes mais importantes de nossa 
existncia, todas dizem: "sou feliz". 
Continuo: "mas voc no deseja ter mais, no quer 
continuar a crescer?". Todos respondem: "claro". 
Insisto: "ento no  feliz". Todos mudam de assunto. 
Melhor voltar a esta sala onde Athena est agora. 
Escura. Ela escuta meus passos, o fsforo que  riscado, e uma 
vela  acesa. 
- Tudo que nos cerca  o Desejo Universal. No  a
felicidade;  um desejo. E os desejos sempre so incompletos -
quando so preenchidos, deixam de ser desejos, no  verdade?
- Onde est meu filho?
- Seu filho est bem, vendo televiso. Quero que olhe 
apenas para esta vela, e no fale, no diga nada. Apenas 
acredite.
- Acreditar que...
- Pedi que no dissesse nada. Acredite, simplesmente - 
no tenha dvida de nada. Voc est viva, e esta vela  o nico 
ponto do seu universo - creia nisso. Esquea para sempre esta 
idia de que o caminho  uma maneira de chegar a um destino: na 
verdade, estamos sempre chegando a cada passo. Repita isso todas 
as manhs: "eu cheguei". Ver que vai ser muito mais fcil estar 
em contato com cada segundo do seu dia. 
Dei uma pausa.
- A chama da vela est iluminando seu mundo. Pergunte 
a ela: "quem sou eu?". 
Esperei mais um pouco. E continuei:
- Imagino sua resposta: sou fulana de tal, vivi estas 
e aquelas experincias. Tenho um filho, trabalho em Dubai. Agora 
torne a indagar  vela: quem no sou eu?
De novo esperei. E de novo continuei:
- Voc deve ter respondido: eu no sou uma pessoa 
contente. Eu no sou uma tpica me de famlia, que se preocupa 
apenas com o filho, com o marido, com ter uma casa com um jardim 
e um lugar onde passar as frias todo vero. Acertei? Pode falar. 
- Acertou. 
- Ento estamos no caminho certo. Voc  - como eu sou 
- uma pessoa insatisfeita. Sua "realidade" no combina com a 
"realidade" dos outros. E voc tem medo que seu filho siga o 
mesmo caminho, no  verdade?
- Tenho. 
- Mesmo assim, sabe que no pode parar. Luta, mas no 
consegue controlar suas dvidas. Veja bem esta vela: no momento, 
ela  seu universo; concentra sua ateno, ilumina um pouco ao 
seu redor. Respire fundo, prenda o ar dentro dos pulmes o mximo 
de tempo possvel, e expire. Repita isso cinco vezes. 
Ela obedeceu. 
- Este exerccio deve ter acalmado sua alma. Agora 
lembre-se do que eu disse: acredite. Acredite que  capaz, que j 
chegou onde queria. Em um dado momento de sua vida, como contou 
em nosso ch hoje  tarde, disse que havia mudado o comportamento 
das pessoas no banco onde trabalhava, porque as havia ensinado a 
danar. No  verdade. 
"Voc mudou tudo, porque voc mudou sua realidade com 
a dana. Acreditou nesta histria do Vrtice, que me parece 
interessante, embora eu jamais tenha escutado falar a respeito. 
Gostava de danar, acreditava no que estava fazendo. No se pode 
acreditar em algo que no se gosta, entendeu?"
Athena fez um sinal afirmativo com a cabea, mantendo 
os olhos fixos na chama da vela. 
- A f no  um desejo. A f  uma Vontade. Desejos 
sempre so coisas para serem preenchidas, Vontade  uma fora. 
Vontade muda o espao  nossa volta, como voc fez com o trabalho 
no banco. Mas, para isso,  necessrio Desejo. Por favor, 
concentre-se na vela!
"Seu filho saiu daqui e foi ver televiso, porque o 
escuro lhe faz medo. E qual o motivo? No escuro, podemos projetar 
qualquer coisa, e geralmente projetamos apenas nossos fantasmas. 
Isso vale para crianas e para adultos. Levante seu brao direito 
lentamente."
O brao se moveu at o alto. Eu pedi que fizesse a 
mesma coisa com o brao esquerdo. Olhei bem os seus seios - muito 
mais bonitos que os meus. 
- Pode abaixar, mas tambm lentamente. Feche os olhos, 
respire fundo, eu vou acender a luz. Pronto: terminou o ritual. 
Vamos at a sala.
Ela levantou-se com dificuldade - as pernas tinham 
ficado dormentes por causa da postura que lhe havia indicado.
Viorel j havia dormido; eu desliguei a televiso, 
fomos para a cozinha.
- Para que serviu tudo isso? - perguntou. 
- Apenas para retir-la da realidade cotidiana. Podia 
ter sido qualquer coisa onde pudesse fixar sua ateno, mas eu 
gosto do escuro e da chama de uma vela. Enfim, voc est me 
perguntando onde quero chegar, no  verdade?
Athena comentou que tinha viajado quase trs horas de 
trem, com o filho nos braos, precisando arrumar a mala para 
voltar ao emprego; podia ter ficado olhando uma vela no seu 
quarto, no precisava ter vindo at a Esccia. 
- Precisava sim - respondi. - Para saber que no est 
sozinha, que outras pessoas esto em contato com a mesma coisa 
que voc. O simples fato de entender isso, lhe permite acreditar. 
- Acreditar em qu?
- Que est no caminho certo. E como eu disse antes: 
chegando a cada passo. 
- Que caminho? Achei que, ao buscar minha me na 
Romnia, eu finalmente teria encontrado a paz de esprito que 
tanto precisava, e no encontrei. De que caminho est falando?
- Disso eu no tenho a menor idia. Voc s descobrir 
quando comear a ensinar. Voltando a Dubai, arranje um discpulo 
ou uma discpula. 
- Ensinar dana ou caligrafia?
- Estas coisas voc j sabe. Precisa ensinar aquilo 
que no sabe. Aquilo que a Me deseja revelar atravs de voc. 
Ela me olhou, como se eu tivesse enlouquecido. 
- Isso mesmo - insisti. - Por que pedi que levantasse 
os braos, e respirasse fundo? Para voc achar que eu sabia algo 
mais que voc. Mas no  verdade; era apenas uma maneira de tir-
la do mundo a que est acostumada. No pedi que voc agradecesse 
 Me, que dissesse o quanto  maravilhosa, e que seu rosto 
brilha nas chamas de uma fogueira. Pedi apenas o gesto absurdo e 
intil de levantar os braos, e concentrar a ateno em uma vela. 
Isso  suficiente - tentar, sempre que possvel, fazer algo que 
no est de acordo com a realidade que nos cerca. 
"Quando comear a criar rituais para o seu discpulo 
fazer, estar sendo guiada. A o aprendizado comea, assim dizia 
meu protetor. Se quiser ouvir minhas palavras, muito bem. Se no 
quiser, continue sua vida como ela est neste momento, e vai 
terminar batendo em uma parede chamada "insatisfao"."
Chamei um txi, conversamos um pouco sobre moda e 
homens, e Athena partiu. Eu tinha absoluta certeza que iria me 
escutar, principalmente porque fazia parte deste tipo de pessoas 
que nunca renuncia a um desafio. 
- Ensine as pessoas a serem diferentes. S isso! - 
gritei, enquanto o txi se afastava. 
Isso  alegria. Felicidade seria estar satisfeita com 
tudo que j tinha - um amor, um filho, um emprego. E Athena, da 
mesma maneira que eu, no nasceu para este tipo de vida.



Heron Ryan, jornalista

Claro que eu no admitia estar apaixonado; tinha uma 
namorada que me amava, me completava, dividia comigo os momentos 
difceis e as horas de alegria. 
Todos os encontros e acontecimentos em Sibiu faziam 
parte de uma viagem; no era a primeira vez que isso acontecia 
quando estava fora de casa. As pessoas,quando se afastam do seu 
mundo, tendem a se tornar mais aventureiras, j que as barreiras 
e preconceitos ficaram distantes. 
Ao voltar para a Inglaterra, a primeira coisa que fiz 
foi dizer que o tal documentrio sobre o Drcula histrico era 
uma bobagem, um simples livro de um irlands louco tivera a 
capacidade de dar uma pssima imagem da Transilvnia, um dos 
lugares mais bonitos do planeta. Evidente que os produtores no 
ficaram nem um pouco satisfeitos, mas a esta altura no me 
importava com a opinio deles: deixei a televiso, e fui 
trabalhar para um dos jornais mais importantes do mundo. 
Foi quando comecei a me dar conta que gostaria de 
encontrar-me de novo com Athena. 
Telefonei, marcamos para dar um passeio antes que ela 
voltasse para Dubai. Ela aceitou, mas disse que gostaria de 
guiar-me por Londres.
Entramos no primeiro nibus que parou no ponto, sem 
perguntar em que direo estava indo, escolhemos uma senhora que 
estava ali por acaso, e dissemos que saltaramos no mesmo lugar 
que ela. Descemos em Temple, passamos por um mendigo que nos 
pedia esmola, e no demos - seguimos adiante enquanto escutvamos 
seus insultos, entendendo que esta era apenas uma forma de 
comunicar-se conosco. 
Vimos algum tentando destruir uma cabine telefnica; 
pensei em chamar a polcia, mas Athena me impediu; talvez tivesse 
acabado de terminar uma relao com o amor de sua vida e 
precisava descarregar tudo o que sentia. Ou, quem sabe, no tinha 
com quem conversar, e no podia permitir que os outros o 
humilhassem, usando aquele telefone para falar de negcios ou de 
romance. 
Mandou-me fechar os olhos e descrever exatamente a 
roupa que ns dois estavamos usando; para minha surpresa, acertei 
apenas alguns detalhes. 
Perguntou o que me lembrava de minha mesa de trabalho; 
disse que ali estavam papis que eu tinha preguia de colocar em 
ordem. 
- J imaginou que estes papis tm vida, sentimentos, 
pedidos, histrias para contar? Acho que voc no est dando  
vida a ateno que ela merece. 
Prometi que iria rever um por um quando retornasse ao 
jornal, no dia seguinte. 
Um casal de estrangeiros, com um mapa, pediu 
informaes sobre determinado monumento turstico. Athena deu 
indicaes precisas, mas completamente erradas. 
- Voc apontou uma direo diferente!
- No tem a menor importncia. Eles vo se perder, e 
nada melhor que isso para descobrir lugares interessantes. 
- Faa algum esforo para encher de novo sua vida com 
um pouco de fantasia; acima de nossas cabeas existe um cu a que 
a humanidade inteira, em milhares de anos de observao, j deu 
uma srie de explicaes razoveis. Esquea o que aprendeu a 
respeito das estrelas, e elas se transformaram de novo em anjos, 
ou em crianas, ou em qualquer coisa que sinta vontade de 
acreditar no momento. Isso no o tornar mais estpido:  apenas 
uma brincadeira, mas pode enriquecer sua vida.
No dia seguinte, quando voltei ao jornal, cuidei de 
cada papel como se fosse uma mensagem dirigida diretamente a mim, 
e no  instituio que represento. Ao meio-dia, fui conversar 
com o secretrio de redao, e sugeri escrever uma matria sobre 
a Deusa que os ciganos veneravam. Acharam tima a idia, e fui 
designado para ver as festas na Meca dos ciganos, Saintes-
Maries-de-la-Mer. 
Por incrvel que parea, Athena no teve o menor 
desejo de acompanhar-me. Dizia que seu namorado - o tal policial 
fictcio, que usava para manter-me  distncia - no ficaria 
muito contente se soubesse que estava viajando com outro homem. 
- Mas voc no prometeu  sua me levar um manto para 
a santa?
- Prometi, caso a cidade estivesse no meu caminho. Mas 
no est. Se algum dia passar por ali, cumpro a promessa. 
Como iria voltar para Dubai no domingo seguinte, foi 
com seu filho para a Esccia, rever a mulher que ns dois 
tnhamos encontrado em Bucareste. Eu no me lembrava de ningum, 
mas, assim como existia o tal "namorado fantasma", talvez a 
"mulher fantasma" fosse outra desculpa, e resolvi no pressionar 
muito. Mas senti cime, como se preferisse estar com outras 
pessoas.
Estranhei meu sentimento. E decidi que se fosse 
preciso ir at o Oriente Mdio para fazer uma matria sobre o 
boom imobilirio que algum no setor de economia do jornal dizia 
que estava acontecendo, eu passaria a estudar tudo sobre 
terrenos, economia, poltica, e petrleo - desde que isso me
aproximasse de Athena.
Saintes-Maries-de-la-Mer rendeu um excelente artigo. 
Segundo a tradio, Sarah era cigana que vivia na pequena cidade 
 beira-mar, quando a tia de Jesus, Maria Salom, junto com 
outros refugiados, chegou ali para escapar das perseguies 
romanas. Sarah ajudou-os, e terminou convertendo-se ao 
cristianismo. 
Na festa a que pude assistir, peas do esqueleto de 
duas mulheres que esto enterradas debaixo do altar so retiradas 
de um relicrio e levantadas para abenoar a multido de 
caravanas que chegam de todos os cantos da Europa com suas roupas 
coloridas, suas msicas e instrumentos. Depois, a imagem de Sarah 
- com belssimos mantos,  retirada de um local perto da igreja, 
j que o Vaticano jamais a canonizou - e levada em procisso at 
o mar atravs das ruelas cobertas de rosas. Quatro ciganos, 
vestidos em roupas tradicionais, colocam as relquias em um barco 
cheio de flores, entram na gua, e repetem a chegada das 
fugitivas, e o encontro com Sarah. A partir da, tudo  msica, 
festa, cantos, e demonstraes de coragem diante de um touro. 
Um historiador, Antoine Locadour, me ajudou a 
completar a matria com informaes interessantes a respeito da 
Divindade Feminina. Enviei para Dubai as duas pginas escritas 
para o caderno de turismo do jornal. Tudo que recebi foi uma 
resposta amvel, agradecendo a ateno, sem qualquer outro 
comentrio. 
Pelo menos eu havia confirmado que seu endereo 
existia. 


Antoine Locadour, 74 anos, historiador, I.C.P., Frana

 fcil identificar Sarah como mais uma das muitas 
virgens negras que podem ser encontradas no mundo. Sara-la-Kali, 
diz a tradio, vinha de uma nobre linhagem, e conhecia os 
segredos do mundo. Seria, no meu entender, mais uma das muitas 
manifestaes do que chamam a Grande Me, a Deusa da Criao. 
E no me surpreende que cada vez mais pessoas se 
interessem pelas tradies pags. Por qu? Porque o Deus Pai  
sempre associado com o rigor e a disciplina do culto. A Deusa 
Me, pelo contrrio, mostra a importncia do amor acima de todas 
as proibies e tabus que conhecemos. 
O fenmeno no  novidade: sempre que a religio 
endurece suas normas, um grupo significativo de pessoas tende a 
ir em busca de mais liberdade no contato espiritual. Isso 
aconteceu durante a Idade Mdia, quando a Igreja Catlica 
limitava-se a criar impostos e construir conventos cheios de 
luxo; como reao, assistimos ao surgimento de um fenmeno 
chamado "feitiaria", que, apesar de reprimido por causa de seu 
carter revolucionrio, deixou razes e tradies que conseguiram 
sobreviver todos estes sculos.
Nas tradies pags, o culto da natureza  mais 
importante que a reverncia aos livros sagrados; a Deusa est em 
tudo, e tudo faz parte da Deusa. O mundo  apenas uma expresso 
de sua bondade. Existem muitos sistemas filosficos - como o 
taosmo ou o budismo - que eliminam a idia da distino entre o 
criador e a criatura. As pessoas no tentam mais decifrar o 
mistrio da vida, e sim fazer parte dele; tambm no taosmo e no 
budismo, mesmo sem a figura feminina, o princpio central afirma 
que "tudo  uma coisa s". 
No culto da Grande Me, o que chamamos de "pecado", 
geralmente uma transgresso de cdigos morais arbitrrios, deixa 
de existir; sexo e costumes so mais livres, porque fazem parte 
da natureza, e no podem ser considerados como frutos do mal.
O novo paganismo mostra que o homem  capaz de viver 
sem uma religio instituda, e ao mesmo tempo continuar na busca 
espiritual para justificar sua existncia. Se Deus  me, ento 
tudo que  necessrio  juntar-se e ador-la atravs de ritos que 
procuram satisfazer sua alma feminina - como a dana, o fogo, a 
gua, o ar, a terra, os cantos, a msica, as flores, a beleza.
A tendncia vem crescendo de maneira gigantesca nos 
ltimos anos. Talvez estejamos diante de um momento muito 
importante na histria do mundo, quando finalmente o Esprito se 
integra com a Matria, os dois se unificam, e se transformam. Ao 
mesmo tempo, estimo que haver uma reao muito violenta das 
instituies religiosas organizadas, que comeam a perder fiis. 
O fundamentalismo deve crescer, e instalar-se em todos os cantos. 
Como historiador, me contento em coletar dados e 
analisar esta confrontao entre a liberdade de adorar e a 
obrigao de obedecer. Entre o Deus que controla o mundo e a 
Deusa que  parte do mundo. Entre as pessoas que se unem em 
grupos em que a celebrao  feita de modo espontneo, e aquelas 
que vo se fechando em crculos onde aprendem o que deve e o que 
no deve ser feito. 
Gostaria de estar otimista, de achar que finalmente o 
ser humano encontrou seu caminho para o mundo espiritual. Mas os 
sinais no so to positivos assim: uma nova perseguio 
conservadora, como j aconteceu muitas vezes no passado, pode 
sufocar novamente o culto da Me. 


Andrea McCain, atriz de teatro

 muito difcil tentar ser imparcial, recontar uma 
histria que comeou com admirao e terminou com rancor. Mas vou 
tentar, vou sinceramente fazer um esforo para descrever a Athena 
que vi pela primeira vez em um apartamento em Victoria Street.
Tinha acabado de voltar de Dubai, com dinheiro e com 
vontade de dividir tudo que conhecia a respeito dos mistrios da 
magia. Desta vez, ficara apenas quatro meses no Oriente Mdio: 
vendeu terrenos para a construo de dois supermercados, ganhou 
uma gigantesca comisso, disse que conseguira dinheiro para 
cuidar de si e de seu filho nos trs anos seguintes, e poderia 
voltar a trabalhar sempre que quisesse - agora era o momento de 
aproveitar o presente, viver o que lhe restava da juventude, e 
ensinar tudo o que tinha aprendido. 
Me recebeu sem muito entusiasmo:
- O que deseja?
- Fao teatro e iremos montar uma pea sobre o rosto 
feminino de Deus. Soube por um amigo jornalista que voc esteve 
no deserto e nas montanhas dos Blcs, junto com os ciganos, e 
tem informaes a respeito.
- Veio at aqui aprender sobre a Me apenas para uma 
pea?
- E voc aprendeu por que razo?
Athena parou, me olhou de alto a baixo, e sorriu:
- Est certa. Essa foi minha primeira lio como 
mestra: ensine a quem desejar aprender. O motivo no importa.
- Como?
- Nada.
- A origem do teatro  sagrada. Comeou na Grcia, com 
hinos a Dionsio, o deus do vinho, do renascimento, e da 
fertilidade. Mas acredita-se que desde pocas remotas os seres 
humanos tinham um ritual onde fingiam ser outras pessoas, e desta 
maneira procuravam a comunicao com o sagrado.
- Segunda lio, obrigado.
- No estou entendendo. Vim aqui para aprender, no 
para ensinar. 
Aquela mulher estava comeando a me deixar irritada. 
Talvez estivesse sendo irnica. 
- Minha protetora...
- Protetora?
- ... um dia explico. Minha protetora disse que s 
iria aprender o que preciso, se fosse provocada. E, desde que 
voltei de Dubai, voc foi a primeira pessoa que apareceu para me 
mostrar isso. Faz sentido o que ela disse. 
Expliquei que, no processo de pesquisa para a pea de 
teatro, tinha ido de um mestre a outro. Mas nada havia de 
excepcional em seus ensinamentos - exceto o fato de que minha 
curiosidade ia aumentando  medida que eu progredia no assunto. 
Disse tambm que as pessoas que lidavam com o tema pareciam 
confusas, e no sabiam exatamente o que queriam.
- Como por exemplo?
O sexo, por exemplo. Em alguns dos lugares a que fui, 
era completamente proibido. Em outros, no apenas era totalmente 
livre, como s vezes estimulavam orgias. Ela pediu mais detalhes 
- e eu no compreendi se fazia isso para me testar, ou se no 
conhecia nada do que estava se passando. 
Athena continuou antes que eu pudesse responder sua 
pergunta.
- Quando voc dana, sente desejo? Sente que est 
provocando uma energia maior? Quando voc dana, existem momentos 
em que deixa de ser voc?
Fiquei sem saber o que dizer. Na verdade, nas boates e 
nas festas de amigos, a sensualidade estava sempre presente na 
dana - eu comeava por provocar, gostava de ver os olhares de 
desejo dos homens, mas  medida que a noite avanava parecia 
entrar mais em contato comigo, o fato de estar seduzindo ou no 
algum deixava de fazer muita diferena... 
Athena continuou.
- Se o teatro  um ritual, a dana tambm. Alm disso, 
 uma maneira ancestral de aproximar-se do parceiro. Como se os 
fios que nos conectam com o resto do mundo ficassem limpos do 
preconceito e dos medos. Quando voc dana, pode se dar ao luxo 
de ser voc.
Comecei a escut-la com respeito. 
- Depois, voltamos a ser quem ramos antes; pessoas 
assustadas, tentando ser mais importantes do que acham que so. 
Exatamente como eu me sentia. Ou ser que todos 
experimentam a mesma coisa?
- Voc tem namorado?
Lembrei-me que, em um dos lugares em que tinha ido 
para aprender a "Tradio de Gaia", um dos "druidas" havia me 
pedido para que fizesse amor na frente dele. Ridculo e 
assustador - como  que estas pessoas ousavam utilizar a busca 
espiritual para seus propsitos mais sinistros?
- Voc tem namorado ? - ela repetiu. 
- Tenho.
Athena no disse mais nada. Apenas colocou a mo nos 
lbios, pedindo que eu ficasse quieta. 
E de repente me dei conta que era extremamente difcil 
para mim estar em silncio diante de uma pessoa que voc acaba de 
conhecer. A tendncia  falar sobre qualquer coisa - o tempo, os 
problemas com o trnsito, os melhores restaurantes. Estvamos as 
duas sentadas no sof de sua sala completamente branca, com um 
aparelho de CD e uma pequena estante onde ficavam guardados os 
discos. No via livros por nenhuma parte - nem quadros nas 
paredes. Como j havia viajado, esperava encontrar objetos e 
lembranas do Oriente Mdio.
Mas era vazio, e agora o silncio. 
Os olhos cinzentos estavam fixos nos meus, mas fiquei 
firme e no desviei meu olhar. Instinto, talvez. Maneiras de 
dizer que no estamos assustados, mas encarando de frente o 
desafio. S que, com o silncio e a sala branca, o rudo do 
trfego l fora, tudo comeou a parecer irreal. Quanto tempo 
amos ficar ali, sem dizer nada? 
Comecei a acompanhar meus pensamentos; eu chegara ali 
em busca de material para a minha pea, ou queria mesmo o 
conhecimento, a sabedoria, os... poderes? No conseguia definir o 
que tinha me levado a uma...
A uma qu? Uma bruxa? 
Meus sonhos de adolescente voltaram  tona: quem no 
gostaria de encontrar-se com uma bruxa de verdade, aprender 
magia, ser olhada com respeito e temor por suas amigas? Quem, 
como jovem, no se sentiu injustiada pelos sculos de represso 
da mulher, e sentia que esta era a melhor maneira de resgatar a 
identidade perdida? Embora eu j tivesse passado esta fase, era 
independente, fazia o que gostava em um terreno to competitivo 
como o teatro, por que jamais estava contente, precisava testar 
sempre minha... curiosidade? 
Devamos ter mais ou menos a mesma idade... ou eu era 
mais velha? Ser que ela tambm tinha um namorado?
Athena se moveu em direo a mim. Agora estvamos 
separadas por menos de um brao, e comecei a sentir medo. Seria 
lsbica?
Embora no desviasse os olhos, sabia onde estava a 
porta e podia sair na hora que quisesse. Ningum tinha me 
obrigado a ir at aquela casa, encontrar algum que nunca vira na 
minha vida, e ficar ali perdendo tempo, sem dizer nada, sem 
aprender absolutamente coisa nenhuma. Onde ela queria chegar?
No silncio, talvez. Meus msculos comearam a ficar 
tensos. Eu estava sozinha, desprotegida. Eu precisava 
desesperadamente conversar, ou fazer com que minha mente parasse 
de me dizer que tudo estava me ameaando. Como podia saber quem 
sou? Somos o que falamos!
Ela no perguntou sobre minha vida? Quis saber se eu 
tinha namorado, no  verdade? Eu tentei falar mais de teatro, 
mas no consegui. E as histrias que ouvi, de sua ascendncia 
cigana, de seu encontro na Transilvnia, a terra dos vampiros? 
Os pensamentos no paravam: quanto iria custar aquela 
consulta? Fiquei apavorada, devia ter perguntado antes. Uma 
fortuna? E se no pagasse, ser que ela me jogaria um 
encantamento que terminaria por destruir-me? 
Senti o impulso de levantar-me, agradecer, mas dizer 
que no tinha vindo ficar em silncio. Se voc vai a um 
psiquiatra, tem que falar. Se vai a uma igreja, escuta um sermo. 
Se busca a magia, encontra um mestre que quer lhe explicar o 
mundo e lhe d uma srie de rituais. Mas silncio? E por que me 
incomodava tanto?
Era uma pergunta atrs da outra - eu no conseguia 
parar de pensar, querer descobrir uma razo para estarmos ali as 
duas, sem dizer nada. De repente, talvez depois de longos cinco 
ou dez minutos sem que nada se movesse, ela sorriu. 
Eu sorri tambm, e relaxei. 
- Tente ser diferente. Apenas isso. 
- Apenas isso? Ficar em silncio  ser diferente? 
Imagino que neste minuto existem milhares de almas aqui em 
Londres que esto loucas para ter algum com quem conversar, e 
tudo que voc me diz  que silncio faz diferena?
- Agora que voc est falando e reorganizando o 
universo, terminar se convencendo que est certa, e eu estou 
errada. Mas voc viu: ficar em silncio  diferente.
- E desagradvel. No ensina nada.
Ela pareceu no se importar com minha reao. 
- Em que teatro voc trabalha?
Finalmente minha vida comeava a ter interesse! Eu 
voltava  condio de ser humano, com profisso e tudo! Convidei-
a para assistir  pea que estava sendo exibida naquele momento - 
foi a nica maneira que encontrei de me vingar, mostrando que era 
capaz de coisas que Athena no sabia fazer. Aquele silncio havia 
me deixado com um gosto de humilhao na boca. 
Perguntou se podia levar o filho, eu respondi que no 
- era para adultos. 
- Bem, posso deixar com minha me; faz muito tempo que 
no vou a um teatro. 
No cobrou nada pela consulta. Quando me encontrei com 
os outros membros de minha equipe, contei meu encontro com a 
misteriosa criatura; ficaram absolutamente curiosos em conhecer 
algum que, no primeiro contato, tudo que pede  para ficar em 
silncio. 
Athena apareceu no dia marcado. Assistiu  pea, foi 
ao camarim me cumprimentar, no disse se havia gostado ou no. 
Meus colegas sugeriram que a convidasse para o bar a que 
costumvamos ir aps o espetculo. Ali, ao invs de ficar quieta 
desta vez, comeou a falar de uma pergunta que ficara sem 
resposta em nosso primeiro encontro:
- Ningum, nem mesmo a Me, jamais desejaria que a 
atividade sexual fosse praticada apenas por celebrao; o amor 
precisa estar presente. Voc disse que andou encontrando gente 
deste tipo, no  verdade? Tome cuidado. 
Meus amigos no entenderam nada, mas gostaram do 
assunto, e comearam a bombarde-la com perguntas. Algo me 
incomodava: suas respostas eram muito tcnicas, como se no
tivesse muita experincia sobre o que estava falando. Comentou o
jogo de seduo, os ritos de fertilidade, e terminou por uma
lenda grega - com certeza porque eu lhe dissera em nosso primeiro
encontro que na Grcia estavam as origens do teatro. Devia ter
passado a semana inteira lendo sobre o assunto.
- Depois de milnios de dominao masculina, estamos
de volta ao culto da Grande Me. Os gregos a chamavam de Gaia, e
conta o mito que ela nasceu do Caos, o vazio que imperava antes
no universo. Com ela, veio Eros, o deus do amor, e logo gerou o
Mar e o Cu.
- Quem foi o pai? - perguntou um dos meus amigos.
- Ningum. Existe um termo tcnico, chamado
partenognese, que significa ser capaz de dar  luz sem a 
interferncia masculina. Existe tambm um termo mstico, a que 
estamos mais acostumados: a Imaculada Conceio. 
"De Gaia vieram todos os deuses que mais tarde iriam 
povoar os Campos Elsios da Grcia - inclusive o nosso caro 
Dionsio, o dolo de vocs. Mas,  medida que o homem ia se 
afirmando como o principal elemento poltico nas cidades, Gaia 
foi caindo no esquecimento, sendo substituda por Jpiter, Marte, 
Apolo, Saturno - todos muito competentes, mas sem o mesmo encanto 
que a Me que tudo originou."
Em seguida, fez um verdadeiro questionrio a respeito 
de nosso trabalho. O diretor perguntou se no queria nos dar 
algumas lies.
- Sobre o qu?
- Sobre o que voc sabe. 
- Para falar a verdade, aprendi sobre as origens do 
teatro durante a semana. Aprendo tudo  medida que preciso, foi 
isso que me disse Edda. 
Confirmado!
- Mas posso dividir com vocs outras coisas que a vida 
me ensinou. 
Todos concordaram. Ningum perguntou quem era Edda. 


Deidre O"Neill, conhecida como Edda

Eu dizia para Athena: no precisa ficar vindo at aqui 
o tempo todo s para perguntar bobagens. Se um grupo resolveu 
aceit-la como professora, por que no usa esta chance para 
transformar-se em mestra?
Faa o que eu sempre fiz.
Procure sentir-se bem quando estiver achando que  a 
ltima das criaturas. No acredite que est mal: deixe que a Me 
possua o seu corpo e sua alma, entregue-se atravs da dana ou do 
silncio, ou das coisas comuns da vida - como levar o filho  
escola, preparar o jantar, ver se a casa est bem arrumada. Tudo 
 adorao - se voc estiver com a mente concentrada no momento 
presente. 
No tente convencer ningum a respeito de nada. Quando 
no souber, pergunte ou v pesquisar. Mas,  medida que agir, 
seja como um rio que flui, silencioso, entregando-se a uma 
energia maior. Acredite - foi isso que lhe disse em nosso 
primeiro encontro. 
Acredite que  capaz.
No incio, vai ficar confusa, insegura. Depois, vai 
achar que todos pensam que esto sendo enganados. No  nada 
disso: voc sabe, apenas precisa estar consciente. Todas as 
mentes do planeta so facilmente sugestionveis para o pior, 
temem a doena, a invaso, o assalto, a morte: tente devolver-
lhes a alegria perdida. 
Seja clara. 
Reprograme-se a cada minuto do dia com pensamentos que 
a faam crescer. Quando estiver irritada, confusa, procure rir de 
voc mesma. Ria alto, ria muito com esta mulher que est se 
preocupando, se angustiando, achando que seus problemas so os 
mais importantes do mundo. Ria desta situao pattica, porque 
voc  a manifestao da Me, e ainda acredita que Deus  homem, 
cheio de regras. No fundo, a maioria dos nossos problemas se 
resume a isso: seguir regras. 
Concentre-se.
Se no achar nada para focalizar seu interesse, 
concentre-se na respirao. Por a, por seu nariz, est entrando 
o rio de luz da Me. Escute as batidas do corao, siga os 
pensamentos que no consegue controlar, controle a vontade de 
levantar-se imediatamente e fazer algo de "til". Fique sentada 
alguns minutos por dia sem fazer nada, aproveite o mximo que 
puder. 
Quando estiver lavando pratos, reze. Agradea pelo 
fato de que tem pratos para lavar; isso significa que ali j 
esteve comida, que alimentou algum, que cuidou de uma ou mais 
pessoas com carinho - cozinhou, colocou a mesa. Imagine quantos 
milhes de pessoas neste momento no tm absolutamente nada para 
lavar, ou ningum para quem preparar a mesa. 
Evidente que outras mulheres dizem: eu no vou lavar 
pratos, os homens que lavem. Pois eles que lavem se quiserem, mas 
no veja nisso uma igualdade de condies. No h nada de errado 
em fazer coisas simples - embora, se amanh eu publicasse um 
artigo com tudo que penso, iriam dizer que estou trabalhando 
contra a causa feminina. 
Que bobagem! Como se lavar pratos, ou usar suti, ou 
abrir e fechar portas, fosse algo que humilhasse minha condio 
de mulher. Na verdade, eu adoro quando um homem me abre a porta: 
na etiqueta est escrito "ela precisa que eu faa isso, porque 
ela  frgil", mas na minha alma est escrito "sou tratada como 
uma deusa, sou uma rainha". 
Eu no estou aqui para trabalhar pela causa feminina, 
porque tanto os homens como as mulheres so uma manifestao da 
Me, a Unidade Divina. Ningum pode ser maior do que isso. 
Adoraria poder v-la dando aulas sobre o que est 
aprendendo; esse  o objetivo da vida - a revelao! Voc 
transforma-se em um canal, escuta a si mesmo, se surpreende com o 
que  capaz. Lembra do trabalho no banco? Talvez jamais tenha 
entendido, mas era a energia fluindo pelo seu corpo, seus olhos, 
suas mos. 
Voc diria: "no  bem assim, era a dana". 
A dana funciona simplesmente como um ritual. O que  
um ritual?  transformar o que  montono em algo que seja 
diferente, ritmado, e possa canalizar a Unidade. Por isso eu 
insisto: seja diferente at lavando pratos. Mova as mos de modo 
que jamais estejam repetindo o mesmo gesto - embora mantenham a 
cadncia. 
Se achar que ajuda, procure visualizar imagens; 
flores, pssaros, rvores em uma floresta. No imagine coisas 
isoladas, como a vela em que concentrou sua ateno quando veio 
aqui a primeira vez. Procure pensar em algo que seja coletivo. E 
sabe o que vai notar? Que voc no decidiu o seu pensamento. 
Vou dar um exemplo com os pssaros: imagine um bando 
de pssaros voando. Quantos pssaros viu? Onze, dezenove, cinco? 
Voc tem uma idia, mas no sabe o nmero exato. Ento, de onde 
partiu este pensamento? Algum o colocou ali. Algum que sabe o 
nmero exato de pssaros, rvores, pedras, flores. Algum que, 
nestas fraes de segundo, toma conta de voc e mostra Seu poder. 
Voc  o que acredita ser. 
No fique repetindo, como estas pessoas que acreditam 
em "pensamento positivo", que  amada, forte, ou capaz. No 
precisa se dizer isso, porque j sabe. E quando duvida - penso 
que isso deve acontecer com muita freqncia neste estgio de 
evoluo - faa aquilo que sugeri. Em vez de tentar provar que  
melhor do que pensa, simplesmente ria. Ria de suas preocupaes, 
de suas inseguranas. Veja com humor as suas angstias. No incio 
 difcil, mas aos poucos voc se acostuma. 
Agora, volte e v ao encontro de toda esta gente que 
pensa que voc sabe tudo. Convena-se de que eles tm razo - 
porque todos ns sabemos tudo,  apenas uma questo de acreditar 
nisso. 
Acredite.
Os grupos so muito importantes, comentei com voc em 
Bucareste, na primeira vez que nos vimos. Porque eles nos obrigam 
a melhorar; se voc estiver sozinha, tudo que pode fazer  rir de 
si mesma; mas, se estiver com outros, ir rir e agir logo em 
seguida. Os grupos nos desafiam. Os grupos nos permitem 
selecionar nossas afinidades. Os grupos provocam uma energia 
coletiva, onde o xtase  muito mais fcil, porque uns contagiam 
os outros. 
Evidente que os grupos tambm so capazes de nos 
destruir. Mas isso faz parte da vida, esta  a condio humana: 
viver com os outros. E se uma pessoa no conseguiu desenvolver 
bem seu instinto de sobrevivncia, ento no entendeu nada do que 
a Me est dizendo. 
Voc tem sorte, menina. Um grupo acaba de pedir que 
ensine algo - e isso a transformar em mestra. 




Heron Ryan, jornalista

Antes do primeiro encontro com os atores, Athena veio 
 minha casa. Desde que eu publicara o artigo sobre Sarah, estava 
convencida que eu entendia seu mundo - o que no  absolutamente 
verdade. Meu nico interesse era chamar sua ateno. Embora eu 
tentasse aceitar que podia haver uma realidade invisvel capaz de 
interferir em nossas vidas, o nico motivo que me levava a isso 
era um amor que eu no aceitava, mas que continuava se 
desenvolvendo de maneira sutil e devastadora. 
E eu estava satisfeito com meu universo, no queria de 
maneira nenhuma mudar, embora estivesse sendo empurrado para 
isso. 
- Tenho medo - disse ela assim que entrou. - Mas 
preciso seguir adiante, fazer o que me pedem. Preciso acreditar.
- Voc tem uma grande experincia de vida. Aprendeu 
com os ciganos, com os dervixes no deserto, com...
- Em primeiro lugar, no  bem assim. O que significa 
aprender: acumular conhecimento? Ou transformar sua vida?
Sugeri que sassemos aquela noite para jantar e danar 
um pouco. Ela aceitou o jantar, mas recusou a dana. 
- Me responda - insistiu, olhando meu apartamento. - 
Aprender  colocar coisas na estante, ou livrar-se de tudo que 
no serve, e seguir seu caminho mais leve?
Ali estavam as obras que tanto me tinha custado 
comprar, ler, sublinhar. Ali estava minha personalidade, minha 
formao, meus verdadeiros mestres. 
- Quantos livros tem a? Mais de mil, imagino. E, no 
entanto, a grande maioria jamais ser aberta de novo. Guarda isso 
tudo porque no acredita. 
- No acredito?
- No acredita, ponto final. Quem acredita, vai ler 
como li sobre teatro quando Andrea me perguntou a respeito. Mas 
depois,  uma questo de deixar que a Me fale por voc, e,  
medida que fala, descobre. E,  medida que descobre, consegue 
completar os espaos em branco que os escritores deixaram ali de 
propsito, para provocar a imaginao do leitor. E, quando 
completa estes espaos, passa a acreditar na prpria capacidade. 
"Quantas pessoas gostariam de ler os livros que tem 
a, mas no possuem dinheiro para compr-los? Enquanto isso, voc 
fica com esta energia estagnada, para impressionar os amigos que 
o visitam. Ou porque no acredita que j aprendeu algo com eles, 
e precisar consult-los de novo."
Achei que estava sendo dura comigo. E isso me 
fascinava. 
- Acha que no preciso desta biblioteca?
- Acho que precisa ler, mas no precisa guardar tudo 
isso. Seria pedir muito, se sassemos agora e, antes de ir para o 
restaurante, distribussemos a maioria deles para as pessoas com 
quem cruzaremos no caminho? 
- No caberiam em meu carro. 
- Alugamos um caminho. 
- Neste caso, jamais chegaramos ao restaurante a 
tempo de jantar. Alm do mais, voc veio aqui porque est 
insegura, e no para me dizer o que devo fazer com meus livros. 
Sem eles, eu me sentiria nu. 
- Ignorante, voc quer dizer. 
- Inculto, se est procurando a palavra certa. 
- Ento, sua cultura no est no corao, mas nas 
estantes de sua casa. 
Bastava. Peguei o telefone, reservei a mesa, disse que 
iria chegar em quinze minutos. Athena estava querendo fugir do 
assunto que a levara at ali - sua profunda insegurana fazia com 
que partisse para o ataque, em vez de olhar para si mesma. 
Precisava de um homem ao seu lado, e - quem sabe? - estava me 
sondando para saber at onde eu podia chegar, usando aqueles 
artifcios femininos para descobrir se estava pronto a fazer 
qualquer coisa por ela. 
Toda vez que estava em sua presena, minha existncia 
parecia justificada. Era isso que ela queria ouvir? Pois bem, eu 
comentaria durante o jantar. Poderia fazer quase tudo, inclusive 
largar a mulher com quem estava agora - mas jamais distribuiria 
meus livros, claro. 
Voltamos ao assunto do grupo de teatro no txi, embora 
naquele momento eu estivesse disposto a dizer o que nunca tinha 
dito - falar de amor, um assunto para mim muito mais complicado 
que Marx, Jung, o Partido Trabalhista na Inglaterra, ou os 
problemas dirios em redaes de jornais. 
- Voc no precisa se preocupar - eu disse, sentindo 
vontade de segurar sua mo. - Vai dar tudo certo. Fale de 
caligrafia. Fale de dana. Fale de coisas que voc sabe.
- Se fizer isso, jamais descobrirei o que no sei. 
Quando estiver ali, preciso deixar que minha mente fique quieta, 
e meu corao comece a falar. Mas  a primeira vez que fao isso, 
e estou com medo. 
- Gostaria que fosse com voc?
Ela aceitou na hora. Chegamos ao restaurante, pedimos 
vinho, e comeamos a beber. Eu, porque precisava criar coragem 
para dizer o que achava que estava sentindo, embora me parecesse 
absurdo amar algum que no conhecia direito. Ela, porque estava 
com medo de dizer o que no sabia. 
No segundo copo, percebi que seus nervos estavam  
flor da pele. Tentei segurar sua mo, mas ela a retirou 
delicadamente. 
- No posso ter medo. 
- Claro que pode, Athena. Muitas vezes sinto medo. E 
mesmo assim, quando preciso, sigo adiante, e enfrento tudo. 
Vi que os meus nervos tambm estavam  flor da pele. 
Enchi nossas taas de novo - o garom toda hora vinha perguntar 
pela comida, e eu dizia que mais tarde iramos escolher. 
Conversava compulsivamente sobre qualquer assunto que 
me viesse  cabea, Athena escutava com educao, mas parecia 
estar longe, em um universo escuro, cheio de fantasmas. Em 
determinado momento contou de novo sobre a mulher na Esccia, e o 
que ela havia dito. Perguntei se fazia sentido ensinar o que no 
se sabe.
- Algum lhe ensinou a amar alguma vez? - foi sua 
resposta. 
Ser que ela estava lendo meus pensamentos?
- E mesmo assim, como qualquer ser humano, voc  
capaz disso. Como aprendeu? No aprendeu: acredita. Acredita, e 
portanto ama. 
- Athena...
Vacilei, mas consegui terminar a frase, embora minha 
inteno fosse dizer algo diferente. 
- ... talvez seja hora de pedir a comida. 
Me dei conta que ainda no estava preparado para falar 
de coisas que perturbavam meu mundo. Chamei o garom, mandei que 
trouxesse entradas, mais entradas, prato principal, sobremesa, e 
outra garrafa de vinho. Quanto mais tempo, melhor. 
- Voc est estranho. Ser que foi meu comentrio 
sobre os livros? Faa o que quiser, no estou aqui para mudar seu 
mundo. Termino dando palpites onde no fui convidada.
Eu pensara nesta histria de "mudar o mundo" alguns 
segundos antes. 
- Athena, voc vive me falando... melhor, eu preciso 
falar de algo que aconteceu naquele bar em Sibiu, com a msica 
cigana...
- No restaurante, voc quer dizer.
- Sim, no restaurante. Hoje estvamos comentando sobre 
livros, coisas que se acumulam e que ocupam espao. Talvez voc 
tenha razo. Existe algo que desejo dar desde que a vi danando, 
aquele dia. Isso est ficando cada vez mais pesado em meu 
corao. 
- No sei do que voc est falando. 
- Claro que sabe. Estou falando de um amor que estou 
descobrindo agora e fazendo o possvel para destru-lo antes que 
se manifeste. Gostaria que o recebesse;  o pouco que tenho de 
mim mesmo, mas que no possuo. Ele no  exclusivamente seu, 
porque tenho algum em minha vida, mas ficaria feliz se o 
aceitasse de qualquer maneira. 
"Diz um poeta rabe de sua terra, Khalil Gibran: "
bom dar quando algum pede, mas  melhor ainda poder entregar
tudo a quem nada pediu". Se no digo tudo que estou dizendo esta
noite, continuarei apenas sendo algum que testemunha o que passa
- no serei aquele que vive.
Respirei fundo: o vinho havia me ajudado a libertar-
me.
Ela bebeu o copo at o final, e eu fiz o mesmo. O 
garom apareceu com as comidas, fazendo alguns comentrios a 
respeito dos pratos, explicando os ingredientes e a maneira de 
cozinh-los. Ns dois mantnhamos os olhos fixos, um no outro - 
Andrea me contara que Athena agira assim quando se encontraram a 
primeira vez, e estava convencida de que aquilo era uma maneira 
de intimidar os outros. 
O silncio era aterrorizante. Eu a imaginava 
levantando-se da mesa, falando do seu famoso e invisvel namorado 
da Scotland Yard, ou comentando que tinha ficado muito 
lisonjeada, mas estava preocupada com as aulas no dia seguinte. 
- "E existe alguma coisa que se possa guardar? Tudo o 
que possumos, um dia ser dado. As rvores do para continuar a 
viver, pois guardar  colocar um fim em suas existncias."
Sua voz, embora baixa e um pouco pausada por causa do 
vinho, conseguia calar tudo  nossa volta.
- "E o maior mrito no  daquele que oferece, mas do
que recebe sem se sentir devedor. O homem d pouco quando dispe
apenas dos bens materiais que possui; mas d muito quando entrega
a si mesmo."
Dizia tudo isso sem sorrir. Eu parecia estar
conversando com uma esfinge.
-  do mesmo poeta que voc citou - aprendi na escola,
mas no preciso do livro onde escreveu isso; guardei suas
palavras no meu corao.
Bebeu um pouco mais. Eu fiz a mesma coisa. Agora no
me cabia ficar perguntando se tinha aceito ou no; eu me sentia 
mais leve. 
- Talvez voc esteja certa; vou doar meus livros a uma 
biblioteca pblica, guardarei apenas alguns que realmente torno a 
reler. 
-  sobre isso que quer falar agora?
- No. No sei como continuar a conversa. 
- Pois ento jantemos e apreciemos a comida. Parece 
uma boa idia?
No, no parecia uma boa idia; eu queria escutar algo 
diferente. Mas tinha medo de perguntar, de modo que continuei 
falando de bibliotecas, de livros, de poetas, falando 
compulsivamente, arrependido de ter pedido tantos pratos - era eu 
quem desejava sair correndo, porque no sabia como continuar 
aquele encontro. 
No final, ela me fez prometer que iria ao teatro 
assistir a sua primeira aula, e aquilo foi para mim um sinal. Ela 
precisava de mim, tinha aceito o que eu inconscientemente sonhava 
lhe oferecer desde que a vi danando em um restaurante na 
Transilvnia, mas que s aquela noite havia sido capaz de 
compreender.
Ou acreditar, como dizia Athena. 


Andrea McCain, atriz

Claro que sou culpada. Se no fosse por minha causa, 
Athena jamais teria chegado ao teatro naquela manh, juntado o 
grupo, pedido que todos ns nos deitssemos no cho do palco, e 
comeado um relaxamento completo, que inclua respirao e 
conscincia de cada parte do corpo.
"Relaxem agora as coxas..."
Todos obedecamos, como se estivssemos diante de uma 
deusa, de algum que sabia mais que todos ns juntos, embora j 
tivssemos feito este tipo de exerccio centenas de vezes. Todos 
estvamos curiosos do que viria depois de 
"... agora relaxe a face, respire fundo", etc. 
Ser que acreditava que nos estava ensinando alguma 
coisa nova? Estvamos esperando uma conferncia, uma palestra! 
Preciso me controlar, voltemos ao passado; relaxamos, e veio 
aquele silncio, que nos desnorteou por completo. Conversando 
depois com alguns companheiros, todos tivemos a sensao que o 
exerccio tinha acabado; era hora de sentar-se, olhar em volta, 
mas ningum fez isso. Permanecemos deitados, em uma espcie de 
meditao forada, por quinze interminveis minutos. 
Ento, sua voz se fez de novo ouvir. 
- Tiveram tempo de duvidar de mim. Um ou outro 
demonstrou impacincia. Mas agora vou pedir apenas uma coisa: 
quando eu contar at trs, levantem-se e sejam diferentes. 
"No digo: seja uma outra pessoa, um animal, uma casa. 
Evitem fazer tudo que aprenderam nos cursos de dramaturgia - no 
estou pedindo que sejam atores e demonstrem suas qualidades. 
Estou mandando que deixem de ser humanos, e se transformem em 
algo que no conhecem."
Estvamos de olhos fechados, deitados no cho, sem que 
um pudesse saber como o outro estava reagindo. Athena jogava com 
essa incerteza.
- Vou dizer algumas palavras, e vo associar imagens a 
estes comandos. Lembrem-se que esto intoxicados de conceitos, e 
se eu dissesse "destino", talvez comeassem a imaginar suas vidas 
no futuro. Se eu dissesse "vermelho", iriam fazer qualquer 
interpretao psicanaltica. No  isso que eu quero. Eu quero 
que sejam diferentes, como disse. 
No conseguia sequer explicar direito o que desejava. 
Como ningum reclamou, tive certeza que estavam tentando ser 
educados, mas, quando acabasse a tal "conferncia", jamais 
tornariam a convidar Athena. E ainda iriam me dizer como eu era 
ingnua por t-la procurado. 
- Eis a primeira palavra: sagrado. 
Para no morrer de tdio, resolvi fazer parte do jogo: 
imaginei minha me, meu namorado, meus futuros filhos, uma 
carreira brilhante. 
- Faam um gesto que signifique "sagrado".
Cruzei meus braos no peito, como se estivesse 
abraando todos os entes queridos. Soube mais tarde que a maior 
parte abriu os braos em forma de cruz, e uma das meninas abriu 
as pernas, como se estivesse fazendo amor. 
- Voltem a relaxar. Voltem a esquecer tudo, e 
mantenham os olhos fechados. No estou criticando nada, mas, 
pelos gestos que vi, vocs esto dando uma forma ao que 
consideram sagrado. Eu no quero isso - peo que, na prxima 
palavra, no tentem defini-la como ela se manifesta neste mundo. 
Abram seus canais, deixem que esta intoxicao de realidade se 
afaste. Sejam abstratos; e a estaro entrando no mundo para onde 
os estou guiando. 
A ltima frase soou com tal autoridade, que senti a 
energia do lugar mudando. Agora a voz sabia a que lugar desejava 
nos conduzir. Uma mestra, em vez de uma conferencista. 
- Terra - disse ela. 
De repente entendi do que estava falando. J no era 
minha imaginao que contava, mas meu corpo em contato com o 
solo. Eu era a Terra. 
- Faam um gesto que represente Terra. 
No me movi; eu era o solo daquele palco. 
- Perfeito - disse ela. - Ningum se mexeu. Todos, 
pela primeira vez, experimentaram o mesmo sentimento; em vez de 
descrever algo, se transformaram na idia. 
De novo ficou em silncio pelo que imaginei serem 
longos cinco minutos. O silncio nos deixava perdidos, incapazes 
de distinguir se ela no sabia como continuar, ou se no conhecia 
nosso intenso ritmo de trabalho. 
- Vou dizer uma terceira palavra.
Deu uma pausa
- Centro. 
Eu senti - e isso foi um movimento inconsciente - que 
toda a minha energia vital ia para o umbigo, e ali brilhava como 
se fosse uma luz amarela. Aquilo me deu medo: se algum o 
tocasse, eu poderia morrer. 
- Gesto de centro!
A frase veio como um comando. Imediatamente coloquei 
as mos no ventre, para me proteger. 
- Perfeito - disse Athena. - Podem sentar-se.
Abri os olhos e notei as luzes do palco l em cima, 
distantes, apagadas. Esfreguei o rosto, levantei-me do cho, 
notando que meus companheiros estavam surpresos. 
-  isso a conferncia? - disse o diretor. 
- Pode chamar de conferncia. 
- Obrigado por ter vindo. Agora, se nos der licena, 
temos que comear os ensaios da prxima pea.
- Mas no terminei ainda. 
- Deixamos para outro momento. 
Todos pareciam confusos com a reao do diretor. 
Depois da dvida inicial, penso que estvamos gostando - era algo 
diferente, nada de representar coisas ou pessoas, nada de 
imaginar imagens como mas, velas. Nada de sentar-se em crculo 
de mos dadas, e fingir que se est praticando um ritual sagrado. 
Era simplesmente algo absurdo, e queramos saber onde iria parar. 
Athena, sem demonstrar qualquer emoo, abaixou-se 
para pegar sua bolsa. Neste momento, escutamos uma voz na 
platia:
- Que maravilha!
Heron tinha vindo com ela. E o diretor tinha medo 
dele, porque conhecia os crticos de teatro do jornal onde 
trabalhava, e tinha excelentes relaes na mdia. 
- Vocs deixaram de ser indivduos, e passaram a ser 
idias! Que pena que esto ocupados, mas no se preocupe, Athena, 
encontraremos um outro grupo onde eu possa ver como termina sua 
conferncia. Tenho meus contatos. 
Eu ainda me lembrava da luz viajando por todo o meu 
corpo, e concentrando-se no meu umbigo. Quem era aquela mulher? 
Ser que meus companheiros tinham experimentado a mesma coisa?
- Um momento - disse o diretor, olhando a cara de 
surpresa de todos os que estavam ali. - Quem sabe podemos adiar 
os ensaios hoje, e...
- No devem. Porque eu tenho que voltar ao jornal 
agora, para escrever sobre esta mulher. Continuem fazendo o que 
sempre fizeram: acabo de descobrir uma excelente histria. 
Se Athena parecia perdida no meio da discusso dos 
dois homens, no demonstrou nada. Desceu do palco, e acompanhou 
Heron. Nos viramos para o diretor, perguntando por que havia 
reagido assim. 
- Com todo o respeito por Andrea, acho que nossa 
conversa sobre sexo no restaurante foi muito mais rica do que 
estas bobagens que acabamos de fazer. Repararam como ela ficava 
em silncio? No tinha idia de como continuar!
- Mas eu senti uma coisa estranha - disse um dos 
atores mais velhos. - Na hora que ela disse "centro", pareceu que 
toda a minha fora vital se concentrava em meu umbigo. Nunca 
havia experimentado isso. 
- Voc... tem certeza? - era uma atriz que, pelo tom 
de suas palavras, havia sentido a mesma coisa. 
- Essa mulher parece uma bruxa - disse o diretor, 
interrompendo a conversa. - Vamos voltar ao trabalho. 
Comeamos com alongamento, aquecimento, meditao, 
tudo conforme o manual. Em seguida, algumas improvisaes, e logo 
partimos para a leitura do novo texto. Aos poucos, a presena de 
Athena parecia estar se dissolvendo, tudo voltava a ser o que era 
- um teatro, um ritual criado pelos gregos h milnios, onde 
costumvamos fingir que ramos gente diferente. 
Mas era apenas representao. Athena era diferente, e 
eu estava disposta a tornar a v-la, principalmente depois do que 
o diretor dissera a seu respeito.



Heron Ryan, jornalista

Sem que soubesse, eu havia seguido os mesmos passos 
que sugerira aos atores, obedecido a tudo que mandara - sendo que 
a nica diferena  que mantinha os olhos abertos para acompanhar 
o que acontecia no palco. No momento em que dissera  "gesto de 
centro", eu colocara a mo no meu umbigo, e, para minha surpresa, 
vi que todos, inclusive o diretor, tinham feito a mesma coisa. O 
que era aquilo? 
Naquela tarde precisava escrever um artigo 
aborrecidssimo sobre a visita de um chefe de Estado  
Inglaterra, uma verdadeira prova de pacincia. No intervalo dos 
telefonemas, para distrair-me, resolvi perguntar a colegas de 
redao que gesto fariam se eu pedisse para designar "centro". A 
maior parte brincou, comentando sobre partidos polticos. Um
apontou para o centro do planeta. Outro colocou a mo no corao. 
Ningum, mas absolutamente ningum mesmo, entendia o umbigo como 
o centro de qualquer coisa. 
Finalmente, uma das pessoas com quem consegui 
conversar naquela tarde, me explicou algo interessante. Ao voltar 
para casa, Andrea j estava de banho tomado, tinha colocado a 
mesa, e me esperava para jantar. Abriu uma garrafa de vinho 
carssimo, encheu duas taas, e me estendeu uma. 
- Ento, como foi o jantar ontem  noite?
Por quanto tempo um homem pode conviver com uma 
mentira? No queria perder a mulher que estava diante de mim, que 
me fazia companhia nas horas difceis, que sempre estava ao meu 
lado quando me sentia incapaz de encontrar um sentido para minha 
vida. Eu a amava, mas, no mundo louco em que estava mergulhando 
sem saber, meu corao estava distante, procurando adaptar-se a 
algo que talvez conhecesse, mas que no podia aceitar: ser grande 
o suficiente para duas pessoas. 
Como eu jamais arriscaria deixar o certo pela dvida, 
procurei minimizar o que se passara no restaurante. 
Principalmente porque no acontecera absolutamente nada, alm de 
trocas de versos de um poeta que havia sofrido muito por amor. 
- Athena  uma pessoa difcil de se conviver.
Andrea riu. 
- E justamente por isso deve ser interessantssima 
para os homens; desperta este instinto de proteo que vocs tm, 
e que cada vez usam menos. 
Melhor mudar de assunto. Sempre tive a certeza que as 
mulheres tm uma capacidade sobrenatural para saber o que se 
passa na alma de um homem. So todas feiticeiras. 
- Andei fazendo algumas pesquisas sobre o que 
aconteceu hoje no teatro. Voc no sabe, mas eu estava de olhos 
abertos durante os exerccios. 
- Voc sempre est de olhos abertos; acho que faz 
parte de sua profisso. E vai falar dos momentos em que todos se 
comportaram da mesma maneira. Conversamos muito sobre isso no 
bar, depois que samos dos ensaios. 
- Um historiador me disse que, no templo da Grcia 
onde se profetizava o futuro (N.R.: Delfos, dedicado a Apolo) 
havia uma pedra em mrmore, justamente chamada "umbigo". Relatos 
da poca contam que ali estava o centro do planeta. Fui para os 
arquivos do jornal fazer algumas pesquisas: em Petra, na 
Jordnia, existe outro "umbigo cnico", simbolizando no apenas o 
centro do planeta, mas do universo inteiro. Tanto o de Delfos 
como o de Petra procuram mostrar o eixo por onde transita a 
energia do mundo, marcando de modo visvel algo que se manifesta 
apenas no plano, digamos, "invisvel". Jerusalm  chamada tambm 
de umbigo do mundo, como uma ilha no oceano Pacfico, e outro 
lugar que esqueci - porque jamais associei uma coisa com outra.
- A dana!
- O que voc est dizendo?
- Nada. 
- Eu sei o que voc est dizendo: as danas orientais 
do ventre, as mais antigas que se tem notcia, e onde tudo gira 
em torno do umbigo. Quis evitar o assunto, porque eu lhe contei 
que na Transilvnia tinha visto Athena danar. Ela estava 
vestida, embora...
- ... embora o movimento comeasse no umbigo, para s 
ento espalhar-se pelo resto do corpo. 
Tinha razo. 
Melhor mudar de assunto de novo, conversar sobre 
teatro, sobre as coisas aborrecidas do jornalismo, beber um 
pouco, terminar na cama fazendo amor enquanto comeava a chover 
l fora. Percebi que, no momento do orgasmo, o corpo de Andrea 
girava em torno do umbigo - eu j tinha visto isso centenas de 
vezes, e nunca prestara ateno. 


Antoine Locadour, historiador

Heron comeou a gastar uma fortuna em telefonemas para 
a Frana, pedindo que conseguisse todo o material at aquele 
final de semana, insistindo nesta histria de umbigo - que me 
parecia a coisa mais desinteressante e menos romntica do mundo. 
Mas, enfim, ingleses no costumam ver as mesmas coisas que os 
franceses vem; e, em vez de fazer perguntas, procurei pesquisar 
o que a cincia dizia a respeito. 
Logo percebi que conhecimentos histricos no eram 
suficientes - eu podia localizar um monumento aqui, um dlmen 
ali, mas o curioso  que as culturas antigas pareciam concordar 
em torno do mesmo tema, e usar a mesma palavra para definir os 
lugares que considerava sagrados. Nunca tinha prestado ateno 
nisso, e o assunto passou a me interessar. Quando vi o excesso de 
coincidncias, fui em busca de algo complementar: o comportamento 
humano e suas crenas. 
A primeira explicao, mais lgica, logo foi 
descartada: atravs do cordo umbilical somos alimentados, ele  
o centro da vida. Um psiclogo logo me disse que esta teoria no 
fazia o menor sentido: a idia central do homem  sempre "cortar" 
o cordo, e a partir da o crebro ou o corao tornam-se 
smbolos mais importantes. 
Quando estamos interessados em um assunto, tudo a 
nossa volta parece referir-se a ele (os msticos chamam de 
"sinais", os cticos de "coincidncia", e os psiclogos de "foco 
concentrado", embora eu ainda precise definir como os 
historiadores devem referir-se ao tema). Certa noite, minha filha 
adolescente apareceu em casa com um piercing no umbigo. 
- Por que fez isso?
- Porque me deu vontade.
Explicao absolutamente natural e verdadeira, mesmo 
para um historiador que precisa achar um motivo para tudo. Quando 
entrei em seu quarto, vi um pster de sua cantora favorita: o 
ventre estava de fora, e o umbigo, tambm naquela foto na parede, 
parecia ser o centro do mundo. 
Telefonei para Heron, e perguntei por que estava to 
interessado. Pela primeira vez me contou sobre o que se passara 
no teatro, como as pessoas haviam reagido de maneira espontnea, 
mas inesperada, a um comando. Impossvel arrancar mais 
informaes de minha filha, de modo que resolvi consultar 
especialistas.
Ningum parecia dar muita ateno ao assunto, at que
encontrei Franois Shepka, um psiclogo indiano (N.R.: nome e 
nacionalidade trocados por expresso desejo do cientista) que 
estava comeando a revolucionar as terapias atualmente em uso: 
segundo ele, esta histria de voltar  infncia para resolver os 
traumas nunca tinha levado o ser humano a lugar nenhum - muitos 
problemas que j haviam sido superados pela vida terminavam 
retornando, e as pessoas adultas recomeavam a culpar seus pais 
pelos fracassos e derrotas. Shepka estava em plena guerra com as 
sociedades psicanalticas francesas, e uma conversa sobre temas 
absurdos - como o umbigo - pareceu relax-lo. 
Ficou entusiasmado com o tema, mas no o abordou 
imediatamente. Disse que para um dos mais respeitados 
psicanalistas da histria, o suo Carl Gustav Jung, ns todos 
bebemos em uma mesma fonte. Chama-se "alma do mundo"; embora
sempre tentemos ser indivduos independentes, uma parte de nossa 
memria  a mesma. Todos buscam o ideal da beleza, da dana, da 
divindade, da msica. 
A sociedade, entretanto, se encarrega de definir como 
estes ideais vo se manifestar no plano real. Assim, por exemplo, 
hoje em dia o ideal de beleza  ser magra, enquanto h milhares 
de anos as imagens das deusas eram gordas. O mesmo acontece com a 
felicidade: existe uma srie de regras que, se voc no seguir, 
seu consciente no aceitar a idia de que  feliz.
Jung costumava classificar o progresso individual em 
quatro etapas: a primeira era a Persona - mscara que usamos 
todos os dias, fingindo quem somos. Acreditamos que o mundo 
depende de ns, que somos timos pais e nossos filhos no nos
compreendem, que os patres so injustos, que o sonho do ser
humano  no trabalhar nunca e passar a vida inteira viajando.
Muitas pessoas se do conta que algo est errado nesta histria: 
mas, como no querem mudar nada, terminam afastando rapidamente o 
assunto de suas cabeas. Algumas poucas procuram entender o que 
est errado, e terminam encontrando a Sombra.
A Sombra  o nosso lado negro, que dita como devemos 
agir e nos comportar. Quando tentamos nos livrar da Persona, 
acendemos uma luz dentro de ns, e vemos as teias de aranha, a 
covardia, a mesquinhez. A Sombra est ali para impedir nosso 
progresso - e geralmente consegue, voltamos correndo para ser 
quem ramos antes de duvidar. Entretanto, alguns sobrevivem a 
este embate com suas teias de aranha, dizendo: "sim, tenho uma 
srie de defeitos, mas sou digno, e quero ir adiante".
Neste momento, a Sombra desaparece, e entramos em 
contato com a Alma. 
Por Alma, Jung no est definindo nada religioso; fala 
de uma volta  tal Alma do Mundo, fonte do conhecimento. Os 
instintos comeam a se tornar mais aguados, as emoes so 
radicais, os sinais da vida so mais importantes que a lgica, a 
percepo da realidade j no  to rgida. Comeamos a lidar com 
coisas com as quais no estamos acostumados, passamos a reagir de 
maneira inesperada para ns mesmos. 
E descobrimos que, se conseguirmos canalizar todo este 
jorro de energia contnua, vamos organiz-lo em um centro muito 
slido, que Jung chama de O Velho Sbio para os homens, ou a 
Grande Me para as mulheres.
Permitir esta manifestao  algo perigoso. 
Geralmente, quem chega ali, tem a tendncia a considerar-se 
santo, domador de espritos, profeta.  preciso muita maturidade 
para entrar em contato com a energia do Velho Sbio ou da Grande 
Me. 
- Jung enlouqueceu - disse meu amigo, depois de me 
explicar as quatro etapas descritas pelo psicanalista suo. - 
Quando entrou em contato com seu Velho Sbio, comeou a dizer que 
era guiado por um esprito, chamado Philemon. 
- E finalmente...
- ... chegamos no smbolo do umbigo. No apenas as 
pessoas, mas as sociedades so constitudas destes quatro passos. 
A civilizao ocidental tem uma Persona, idias que nos guiam. 
"Em sua tentativa de adaptar-se s mudanas, entra em 
contato com a Sombra - vemos as grandes manifestaes de massa,
onde a energia coletiva pode ser manipulada tanto para o bem como
para o mal. De repente, por alguma razo, a Persona ou a Sombra
j no satisfazem os seres humanos - e  chegado o momento de um 
salto, onde h uma conexo inconsciente com a Alma. Novos valores 
comeam a surgir. 
- Notei isso. Tenho reparado o ressurgir do culto da 
face feminina de Deus. 
- timo exemplo. E, no final deste processo, para que 
estes novos valores se instalem, a raa inteira comea a entrar 
em contato com os smbolos - a linguagem cifrada com que as
geraes atuais se comunicam com o conhecimento ancestral. Um
destes smbolos de renascimento  o umbigo. No umbigo de Vishnu, 
divindade indiana responsvel pela criao e pela destruio, 
senta-se o deus que tudo ir governar a cada ciclo. Os iogues o 
consideram como um dos chacras, ponto sagrado no corpo humano. As 
tribos mais primitivas costumavam colocar monumentos no lugar 
onde achavam que se encontrava o umbigo do planeta. Na Amrica do 
Sul, pessoas em transe dizem que a verdadeira forma do ser humano 
 um ovo luminoso, que se conecta com os outros atravs de 
filamentos que saem do seu umbigo. 
"A mandala, desenho que estimula a meditao,  uma 
representao simblica disso."
Passei toda a informao para a Inglaterra antes da 
data que havamos combinado. Disse que a mulher que consegue 
despertar em um grupo a mesma reao absurda deve ter um poder 
gigantesco, e no me surpreenderia se fosse alguma espcie de 
paranormal. Sugeri que procurasse estud-la mais de perto.
 Nunca havia pensado no tema, e procurei esquec-lo 
imediatamente; minha filha disse que estava me comportando de 
maneira estranha, s pensava em mim mesmo, s olhava para o meu 
umbigo!


Deidre O"Neill, conhecida como Edda

- Tudo deu errado: como  que voc conseguiu colocar 
em minha cabea que eu saberia ensinar? Por que me humilhar 
diante dos outros? Eu devia esquecer que voc existe. Quando me 
ensinaram a danar, eu dancei. Quando me ensinaram a escrever 
letras, eu aprendi. Mas voc foi perversa: exigiu que eu tentasse 
algo alm dos meus limites. Por isso peguei um trem, por isso vim 
at aqui - para que pudesse ver meu dio!
Ela no parava de chorar. Ainda bem que tinha deixado 
a criana com os pais, porque falava um pouco alto demais, e seu 
hlito estava com... um perfume de vinho. Pedi que entrasse, 
fazer aquele escndalo na porta de minha casa em nada iria ajudar 
minha reputao - j bastante comprometida porque diziam que eu 
recebia homens, mulheres, e organizava grandes orgias sexuais em 
nome de Sat. 
Mas ela continuava ali, gritando:
- A culpa  sua! Voc me humilhou!
Uma janela se abriu, e logo outra. Bem, quem est 
disposta a mudar o eixo do mundo tem que estar tambm disposta e 
saber que os vizinhos nem sempre estaro contentes. Aproximei-me 
de Athena e fiz exatamente o que ela desejava que fizesse: 
abracei-a. 
Ela continuou a chorar em meu ombro. Com todo cuidado, 
eu a fiz subir os poucos degraus, e entramos em casa. Preparei um 
ch cuja frmula no divido com ningum, porque foi meu protetor 
quem me ensinou; coloquei diante dela, que bebeu em um s gole. 
Fazendo isso, mostrou que sua confiana em mim ainda estava 
intacta.
- Por que sou assim? - continuou. 
Eu sabia que o efeito do lcool havia sido cortado. 
- Tenho homens que me amam. Tenho um filho que me 
adora, e que me v como modelo de vida. Tenho pais adotivos que 
considero como minha verdadeira famlia, e seriam capazes de 
morrer por minha causa. Preenchi os espaos em branco do meu 
passado quando fui em busca de minha me. Tenho dinheiro 
suficiente para passar trs anos sem fazer nada, apenas 
aproveitando a vida - e no estou contente!
"Sinto-me miservel, culpada, porque Deus me abenoou 
com tragdias que consegui superar, e milagres que honrei, e no 
estou jamais contente! Sempre quero mais. No precisava ter ido 
quele teatro, e acrescentar uma frustrao  minha lista de 
vitrias!"
- Voc acha que agiu errado?
Ela parou, e me olhou espantada. 
- Por que pergunta isso?
Eu apenas aguardei a resposta. 
- Eu agi certo. Estava com um jornalista quando entrei 
ali, sem ter a menor noo do que ia fazer, e de repente as 
coisas comearam a surgir como se viessem do nada. Sentia a 
presena da Grande Me ao meu lado, me guiando, me instruindo, 
fazendo com que minha voz passasse uma segurana que, no ntimo, 
eu no possua. 
- Ento por que est reclamando?
- Porque ningum entendeu!
- E isso  importante? To importante que a faa vir 
at a Esccia para insultar-me diante de todo mundo?
- Claro que  importante! Se voc  capaz de tudo, se 
sabe que est fazendo a coisa certa, como  que no consegue pelo 
menos ser amada e admirada por isso?
Esse era o problema. Peguei-a pela mo e a conduzi ao 
mesmo quarto onde, semanas antes, havia contemplado a vela. Pedi 
que se sentasse e procurasse acalmar-se um pouco - embora 
estivesse certa de que o ch estava surtindo efeito. Fui ao meu 
quarto, peguei um espelho circular, e coloquei-o diante de seu 
rosto. 
- Voc tem tudo, e lutou por cada polegada de seu 
territrio. Agora veja aqui as suas lgrimas. Veja seu rosto, e a 
amargura que ele demonstra. Procure olhar a mulher que est no 
espelho; desta vez no ria, mas tente compreend-la. 
Dei tempo suficiente para que pudesse seguir minhas 
instrues. Quando notei que estava entrando no transe desejado, 
segui adiante: 
- Qual  o segredo da vida? Pois chamemos isso de 
"graa", ou "bno". Todos procuram estar satisfeitos com o que 
tm. Menos eu. Menos voc. Menos algumas poucas pessoas que, 
infelizmente, teremos que nos sacrificar um pouco, em nome de uma 
coisa maior. 
"Nossa imaginao  maior que o mundo que nos cerca, 
vamos alm de nossos limites. Antigamente, chamavam isso de 
"bruxaria" - mas ainda bem que as coisas mudaram, ou a esta hora 
j estaramos na fogueira. Quando pararam de queimar as mulheres, 
a cincia encontrou uma explicao, normalmente chamada de 
"histeria feminina"; embora no cause a morte pelo fogo, termina 
provocando uma srie de problemas, principalmente no trabalho. 
"Entretanto, no se preocupe, em breve iro chamar de 
"sabedoria". Mantenha os olhos fixos no espelho: quem est vendo?
- Uma mulher. 
- E o que est alm da mulher?
Ela vacilou um pouco. Eu insisti, e terminou 
respondendo:
- Outra mulher. Mais verdadeira, mais inteligente que 
eu. Como se fosse uma alma que no me pertencesse, mas que 
fizesse parte de mim. 
- Isso mesmo. Agora vou pedir para que imagine um dos 
smbolos mais importantes da alquimia: uma serpente que faz um 
crculo e devora a prpria cauda. Consegue imaginar isso?
Ela fez um sinal afirmativo com a cabea. 
- Assim  a vida de pessoas como eu e como voc. Elas 
se destroem e se constroem todo o tempo. Tudo na sua existncia 
ocorreu desta maneira: do abandono ao encontro, do divrcio ao 
novo amor, da filial do banco ao deserto. Apenas uma coisa 
permanece intacta - seu filho. Ele  o fio condutor de tudo, 
respeite isso. 
De novo comeou a chorar. Mas era um tipo diferente de 
lgrimas. 
- Voc veio at aqui porque viu um rosto feminino na 
fogueira. Este rosto  o mesmo que est no espelho agora, e 
procure honr-lo. No se deixe oprimir pelo que os outros pensam, 
j que, em alguns anos, ou em algumas dcadas, ou em alguns 
sculos, este pensamento ser modificado. Viva agora o que as 
pessoas s iro viver no futuro. 
"O que voc quer? Voc no pode querer ser feliz, 
porque isso  fcil e aborrecido. Voc no pode querer apenas 
amar, porque isso  impossvel. O que voc quer? Voc quer 
justificar sua vida - viv-la da maneira mais intensa possvel. 
Isso  ao mesmo tempo uma armadilha e um xtase. Procure estar 
atenta ao perigo, e viva a alegria, a aventura de ser a Mulher 
que est alm da imagem refletida no espelho." 
Seus olhos se fecharam, mas sei que minhas palavras 
haviam penetrado em sua alma, e ali permaneceriam. 
- Se quiser arriscar-se e continuar a ensinar, faa 
isso. Se no quiser, saiba que j foi muito mais alm do que a 
maioria das pessoas. 
Seu corpo comeou a relaxar. Segurei-a nos braos 
antes que casse, e ela dormiu com a cabea apoiada em meus 
seios. 
Tentei sussurrar algumas coisas, porque eu j havia 
passado pelas mesmas etapas, e sei o quanto era difcil - assim 
tinha me dito meu protetor, e assim eu tinha experimentado em 
minha prpria carne. Mas o fato de ser difcil no tornava esta 
experincia menos interessante. 
Que experincia? Viver como ser humano e como 
divindade. Passar da tenso ao relaxamento. Do relaxamento, ao 
transe. Do transe, ao contato mais intenso com as pessoas. Deste 
contato, de novo  tenso, e assim por diante, como a serpente 
que come a prpria cauda. 
Nada fcil - principalmente porque exige um amor 
incondicional, que no teme o sofrimento, a rejeio, a perda. 
Mas, para quem bebe uma vez desta gua,  impossvel 
tornar a matar sua sede em outras fontes. 




Andrea McCain, atriz

- Outro dia voc falou de Gaia, que criou a si mesma, 
e teve um filho sem precisar de homem. Disse, com toda razo, que 
a Grande Me terminou cedendo lugar aos deuses masculinos. Mas se 
esqueceu de Hera, uma das descendentes de sua deusa favorita. 
"Hera tem mais importncia, porque  mais prtica. 
Governa os cus e a terra, as estaes do ano e as tempestades. 
Segundo os mesmos gregos que voc citou, a Via Lctea que vemos 
nos cus  composta do leite que jorrou de seu seio. Um belo 
seio, diga-se de passagem, porque o todo poderoso Zeus mudou de 
forma, transformou-se em um pssaro, apenas para poder beij-lo 
sem ser rejeitado."
Caminhvamos por uma grande loja de departamentos em 
Knightsbridge. Telefonei dizendo que gostaria de conversar um 
pouco, e ela me convidou para ver as liquidaes de inverno - 
teria sido muito mais simptico tomarmos um ch juntas, ou 
almoarmos em um restaurante tranqilo. 
- Seu filho pode perder-se nesta multido.
- No se preocupe. Continue o que estava contando. 
- Hera descobriu o truque, e obrigou Zeus a casar-se. 
Mas, logo depois da cerimnia, o grande rei do Olimpo voltou  
sua vida de playboy, seduzindo todas as deusas ou humanas que 
passavam diante dele. Hera permaneceu fiel: em vez de colocar a 
culpa em seu marido, dizia que as mulheres deviam se comportar 
melhor. 
- No  isso que todas ns fazemos?
No sabia onde desejava chegar, de modo que continuei 
como se no tivesse escutado:
- At que resolveu pagar na mesma moeda, encontrar um 
deus ou um homem e levar para a cama. Ser que no podemos parar 
um pouco e tomar um caf?
Mas Athena acabara de entrar em uma loja de lingerie. 
- Esta  bonita? - me perguntou, mostrando um 
provocante conjunto de calcinha e suti da cor da pele, feito em 
tric.
- Muito. Quando estiver usando, algum vai ver?
- Claro - ou voc acha que sou santa? Mas continue o 
que estava mesmo dizendo sobre Hera.
- Zeus ficou assustado com seu comportamento. Mas 
agora, j independente, Hera pouco se preocupava com seu 
casamento. Voc tem mesmo um namorado?
Ela olhou para os lados. S quando viu que o menino 
no podia escutar-nos, foi que respondeu de maneira 
monossilbica:
- Tenho. 
- Nunca vi. 
Foi at a caixa, pagou a lingerie, colocou-a na bolsa. 
- Viorel est com fome, e tenho certeza que no se 
interessa por lendas gregas. Termine a histria de Hera.
- Tem um final meio tolo: com medo de perder sua 
amada, fingiu que se casava de novo. Quando Hera soube, entendeu 
que as coisas estavam indo longe demais - aceitava amantes, mas o 
divrcio seria impensvel. 
- Nada de original.
- Resolveu ir at o lugar onde a cerimnia seria 
realizada, criar um escndalo, e foi s ento que se deu conta 
que ele estava pedindo a mo de uma esttua. 
- O que fez Hera?
- Riu muito. Isso quebrou o gelo entre os dois, e ela 
tornou a ser a rainha dos cus. 
- timo. Se isso algum dia acontecer com voc...
- ... o qu?
- Se seu homem arranjar uma outra mulher, no se 
esquea de rir. 
- Eu no sou uma deusa. Seria muito mais destruidora. 
Por que nunca vi seu namorado?
- Porque ele est sempre muito ocupado. 
- Onde o conheceu?
Ela parou, com a lingerie nas mos. 
- Conheci no banco onde trabalhava, ele tinha uma 
conta ali. E agora desculpe: meu filho est me esperando. Voc 
tem razo, ele pode perder-se entre estas centenas de pessoas, se 
eu no der toda a ateno necessria. Teremos um encontro l em 
casa na semana que vem; claro que voc est convidada.
- Eu sei quem organizou. 
Athena me deu dois beijos cnicos no rosto, e foi 
embora; pelo menos, tinha entendido minha mensagem. 
Naquela tarde, no teatro, o diretor veio dizer que 
estava irritado com meu comportamento: eu havia organizado um 
grupo para visitar aquela mulher. Expliquei que a idia no 
partira de mim - Heron ficara fascinado com a histria do umbigo, 
e me perguntou se alguns atores estariam dispostos a continuar a 
tal conferncia que havia sido interrompida. 
- Mas ele no manda em voc. 
Claro que no, mas a ltima coisa que desejava neste 
mundo era que fosse sozinho  casa de Athena.
Os atores estavam j reunidos, mas, em vez de outra 
leitura da nova pea, o diretor resolveu mudar o programa.
- Faremos hoje mais um exerccio de psicodrama (N.R.: 
tcnica onde pessoas dramatizam experincias pessoais). 
No havia necessidade; todos ns j sabamos como os 
personagens se comportariam nas situaes colocadas pelo autor. 
- Posso sugerir o tema?
Todos se viraram para mim. Ele parecia surpreso. 
- O que  isso, uma rebelio? 
- Escute at o final: criaremos uma situao onde um 
homem, depois de lutar muito, consegue reunir um grupo de pessoas 
para celebrar um rito importante na comunidade. Digamos, algo que 
tenha a ver com a colheita do prximo outono. Entretanto, chega 
uma estrangeira na cidade, e por causa da sua beleza e das lendas 
que correm sobre ela - dizem que  uma deusa disfarada, o grupo 
que o bom homem tinha reunido para manter as tradies de sua 
aldeia logo se dispersa, e vai encontrar-se com a recm-chegada. 
- Mas isso nada tem a ver com a pea que estamos 
ensaiando! - disse uma das atrizes. 
O diretor, porm, tinha entendido o recado.
-  uma tima idia, podemos comear.
E virando-se para mim:
- Andrea, voc ser a recm-chegada. Assim, pode 
compreender melhor a situao da aldeia. E eu serei o bom homem 
que tenta manter os costumes intactos. E o grupo ser composto de 
casais que freqentam a igreja, se renem aos sbados para 
trabalhos comunitrios, e se ajudam mutuamente. 
Deitamos no cho, relaxamos, e comeamos o exerccio - 
que na verdade  muito simples: a pessoa central (neste caso, eu 
mesma) vai criando situaes, e os outros reagem  medida que so 
provocados. 
Quando o relaxamento terminou, transformei-me em 
Athena. Na minha fantasia, ela corria o mundo como Satans em 
busca de sditos para o seu reino, mas se disfarava de Gaia, a 
deusa que sabe tudo e que tudo criou. Durante quinze minutos os 
"casais" se formaram, se conheceram, inventaram uma histria em 
comum onde existiam filhos, fazendas, compreenso e amizade. 
Quando senti que o universo estava pronto, sentei-me em um canto 
do palco, e comecei a falar de amor. 
- Estamos aqui nesta pequena aldeia, e vocs acham que 
sou uma estrangeira, por isso se interessam pelo que tenho a 
contar. Nunca viajaram, no sabem o que se passa alm das 
montanhas, mas eu posso lhes dizer: no h necessidade de louvar 
a terra. Ela sempre ser generosa com esta comunidade. O 
importante  louvar o ser humano. Vocs dizem que amam viajar? 
Esto usando a palavra errada - o amor  uma relao entre as 
pessoas. 
"Vocs desejam que a colheita seja frtil e por isso 
decidiram amar a terra? Outra bobagem: o amor no  desejo, no  
conhecimento, no  admirao.  um desafio, um fogo que arde sem 
que possamos ver. Por isso, se acham que sou uma estranha nesta 
terra, esto enganados: tudo me  familiar, porque venho com esta 
fora, com esta chama, e quando partir ningum mais ser o mesmo. 
Trago o amor de verdade, no aquele que ensinaram os livros e os 
contos de fadas."
O "marido" de um dos "casais" comeou a me olhar. A 
mulher ficou perdida com sua reao.
Durante o resto do exerccio, o diretor - melhor 
dizendo, o bom homem - fazia o possvel para explicar s pessoas 
a importncia de manter as tradies, louvar a terra, pedir que 
ela fosse generosa este ano como tinha sido no ano passado. Eu 
apenas falava de amor.
- Ele diz que a terra quer ritos? Pois eu garanto: se 
vocs tiverem amor suficiente entre vocs, a colheita ser farta, 
porque este  um sentimento que tudo transforma. Mas o que eu 
vejo? Amizade. A paixo j se extinguiu h muito tempo, porque j 
se acostumaram uns com os outros.  por isso que a terra d 
apenas o que deu no ano anterior, nem mais nem menos. E  por 
isso que, no escuro de suas almas, vocs reclamam silenciosamente 
que nada em suas vidas muda. Por qu? Porque tentaram controlar a 
fora que tudo transforma, de modo que suas vidas pudessem 
continuar sem grandes desafios. 
O bom homem explicava: 
- Nossa comunidade sempre sobreviveu porque respeitou 
as leis, e at mesmo o amor  guiado por elas. Aquele que se 
apaixona sem levar em conta o bem comum, ir sempre viver em 
constante angstia: de ferir sua companhia, de irritar sua nova 
paixo, de perder tudo que construiu. Uma estrangeira sem laos e 
sem histria pode dizer o que quiser, mas no sabe as 
dificuldades que tivemos antes de chegar onde chegamos. No sabe 
o sacrifcio que fizemos por nossos filhos. Desconhece o fato de 
que trabalhamos sem descanso para que a terra seja generosa, a 
paz esteja conosco, as provises possam ser armazenadas para o 
dia de amanh.
Durante uma hora eu defendi a paixo que tudo devora, 
enquanto o bom homem falava do sentimento que traz paz e 
tranqilidade. No final, eu fiquei falando sozinha, enquanto a 
comunidade inteira se reunia em torno dele. 
Havia feito meu papel com um entusiasmo e uma f que 
jamais imaginara possuir; apesar de tudo, a estrangeira partia da 
pequena aldeia sem ter convencido ningum. 
E isso me deixava muito, muito contente. 


Heron Ryan, jornalista

Um velho amigo meu costuma dizer: "a gente aprende 25% 
com o mestre, 25% escutando a si mesmo, 25% com os amigos, e 25% 
com o tempo". No primeiro encontro na casa de Athena, onde ela 
pretendia terminar a aula interrompida no teatro, todos ns 
aprendemos com... no sei. 
Nos esperava na pequena sala de seu apartamento, junto 
com o filho. Reparei que o lugar era totalmente branco, vazio, 
exceto por um mvel com um aparelho de som em cima, e uma pilha 
de CDs. Estranhei a presena da criana, que devia aborrecer-se 
com uma conferncia; esperava que continuasse no momento onde 
tinha parado - comandos atravs de palavras. Mas ela tinha outros 
planos; explicou que ia colocar uma msica vinda da Sibria, e 
que todos simplesmente deviam escutar.
Mais nada. 
- Eu no consigo chegar a lugar nenhum atravs da 
meditao - disse. - Vejo estas pessoas sentadas de olhos 
fechados, um sorriso nos lbios, suas caras srias, a postura 
arrogante, concentradssimas em absolutamente nada, convencidas 
que esto em contato com Deus ou com a Deusa. Pelo menos, 
escutaremos msica juntos. 
De novo, aquela sensao de mal-estar, como se Athena 
no soubesse exatamente o que fazia. Mas quase todos os atores de 
teatro estavam ali, inclusive o diretor - que segundo Andrea fora 
espionar o campo inimigo. 
A msica terminou. 
- Desta vez, dancem em um ritmo que no tenha nada, 
absolutamente nada a ver com a melodia. 
Athena colocou-a de novo, com o volume bem mais alto, 
e comeou a mover seu corpo sem qualquer harmonia. Apenas um 
senhor mais velho, que na pea representava um rei bbado, fez o 
que tinha sido mandado. Ningum se mexeu; as pessoas pareciam um 
pouco constrangidas. Uma delas olhou o relgio - haviam se 
passado apenas dez minutos. 
Athena parou e olhou em volta:
- Por que esto parados?
- Me parece... um pouco ridculo fazer isso - escutou-
se a voz tmida de uma atriz. - Aprendemos a harmonia, no o 
oposto. 
- Pois faam o que digo. Precisam de uma explicao 
intelectual? Eu dou: as mudanas s acontecem quando fazemos algo 
que vai contra, totalmente contra tudo que estamos acostumados. 
E virando-se para o "rei bbado": 
- Por que voc aceitou seguir a msica fora do ritmo? 
- Nada mais fcil: nunca aprendi a danar. 
 Todos riram, e a nuvem escura que estava pairando no 
lugar pareceu ir embora. 
- Muito bem, vou comear de novo, e vocs podem seguir 
o que sugiro, ou podem ir embora - desta vez sou eu quem decide a 
hora de terminar a conferncia. Uma das coisas mais agressivas no 
ser humano  ir contra o que acha bonito, e faremos isso hoje. 
Vamos danar mal. Todo mundo. 
Era apenas uma experincia a mais, e para no deixar 
constrangida a dona da casa, todo mundo danou mal. Eu lutava 
contra mim mesmo, porque a tendncia era seguir aquela percusso 
maravilhosa, misteriosa. Sentia-me como se estivesse agredindo os 
msicos que a tocavam, o compositor que a imaginou. Volta e meia 
meu corpo queria lutar contra a falta de harmonia, e eu o 
obrigava a comportar-se como estava mandando. O garoto tambm 
danava, rindo o tempo inteiro, mas em determinado momento parou 
e sentou-se no sof, talvez exausto pelo esforo que estava 
fazendo. O CD foi desligado no meio de um acorde. 
- Esperem.
Todos esperaram. 
- Vou fazer algo que nunca fiz. 
Ela fechou os olhos, e colocou a cabea entre as mos. 
- Nunca dancei fora do ritmo...
Ento, a prova parecia ter sido pior para ela que para 
qualquer um de ns.
- Estou mal...
Tanto o diretor como eu nos levantamos. Andrea me 
olhou com certa fria, mesmo assim fui at Athena. Antes que a 
tocasse, ela pediu que voltssemos aos nossos lugares. 
- Algum quer dizer algo? - sua voz parecia frgil, 
trmula, e ela no tirava o rosto das mos. 
- Eu quero.
Era Andrea. 
- Antes, pegue meu filho e diga-lhe que est tudo bem 
com sua me. Mas preciso continuar assim, enquanto for 
necessrio. 
Viorel parecia assustado; Andrea sentou-o em seu colo 
e acariciou-o.
- O que voc quer dizer?
- Nada. Mudei de idia. 
- A criana fez voc mudar de idia. Mas continue. 
Lentamente, Athena foi descobrindo o rosto, levantando 
a cabea, e sua fisionomia era de uma estranha. 
- No vou falar. 
- Est bem. Ento voc - apontou para o velho ator - 
v ao mdico amanh. Isso de no conseguir dormir, ir ao banheiro 
a noite inteira,  srio.  um cncer na prstata. 
O homem ficou lvido. 
- E voc - apontou para o diretor - assuma sua 
identidade sexual. No tenha medo. Aceite que detesta mulheres, e 
que ama os homens. 
- O que voc est...
- No me interrompa. No estou dizendo isso por causa 
de Athena. Estou apenas me referindo  sua sexualidade: voc ama 
os homens, e no creio que haja nada de errado nisso. 
No estou dizendo por causa de Athena? Mas ela era 
Athena!
- E voc - apontou para mim - venha at aqui. Ajoelhe-
se diante de mim. 
Com medo de Andrea, com vergonha de todos, eu fiz o 
que ela pedia. 
- Abaixe a cabea. Deixe-me tocar sua nuca. 
Senti a presso de seus dedos, mas nada alm disso. 
Assim ficamos quase um minuto, quando me mandou levantar e voltar 
para meu lugar. 
- Nunca mais precisar de comprimidos para dormir. A 
partir de hoje, o sono volta. 
Olhei para Andrea - achei que comentaria alguma coisa, 
mas seu olhar parecia to espantado quanto o meu. 
Uma das atrizes, talvez a mais jovem, levantou a mo. 
- Quero falar. Mas preciso saber a quem estou me 
dirigindo. 
- Hagia Sofia. 
- Quero saber se... 
Era a atriz mais jovem do nosso grupo. Olhou em volta, 
envergonhada, mas o diretor fez um sinal com a cabea, pedindo 
que continuasse.
- ... se minha me est bem. 
- Est ao seu lado. Ontem, quando voc saiu de casa, 
ela fez com que esquecesse a bolsa. Voc voltou para apanh-la, e 
descobriu que a chave estava dentro de casa, no tinha como 
entrar. Perdeu uma hora buscando um chaveiro, embora pudesse ter 
ido ao seu compromisso, encontrado o homem que a esperava, e 
arranjado o emprego que gostaria. Mas se tudo tivesse acontecido 
como havia planejado de manh, em seis meses estaria morta em um 
acidente de carro. Ontem, a falta da bolsa mudou sua vida.
A moa comeou a chorar. 
- Algum mais quer perguntar algo?
Uma outra mo foi levantada; era o diretor. 
- Ele me ama?
Ento era verdade. A histria com a me da moa havia 
provocado um turbilho de emoes naquela sala. 
- Sua pergunta est errada. O que voc precisa saber  
se est em condies de dar o amor que ele precisa. E o que vier, 
ou o que no vier, ser gratificante da mesma maneira. Saber-se 
capaz de amar  o bastante. 
"Se no for ele, ser outro. Porque voc descobriu uma 
fonte, deixou-a jorrar, e ela inundar seu mundo. No tente 
manter uma distncia segura para ver o que acontece; tampouco 
procure ter certeza antes de dar o passo. O que voc der, voc 
receber - embora s vezes venha do lugar onde menos espera."
Aquelas palavras serviam tambm para mim. E Athena - 
ou quem quer que seja - virou-se para Andrea.
- Voc!
Meu sangue gelou. 
- Voc tem que estar preparada para perder o universo 
que criou. 
- O que  "universo"?
-  o que acha que j tem. Voc aprisionou seu mundo, 
mas sabe que precisa libert-lo. Sei que entende o que estou 
falando, embora no desejasse nunca ouvir isso. 
- Entendo.
Tinha certeza que estavam falando de mim. Seria tudo 
aquilo uma encenao de Athena? 
- Terminou - disse ela. - Traga-me a criana. 
Viorel no queria ir, estava assustado com a 
transformao da me; mas Andrea o segurou carinhosamente pelas 
mos, e o levou at ela. 
Athena - ou Hagia Sofia, ou Sherine, no importa quem 
estava ali - fez a mesma coisa que fizera comigo, tocando com 
firmeza a nuca do menino.
- No se assuste com as coisas que v, meu filho. No 
procure afast-las, porque elas vo terminar indo embora de 
qualquer jeito; aproveite a companhia dos anjos enquanto puder. 
Voc neste momento est com medo, mas no est com tanto medo 
como devia, porque sabe que somos muitos nesta sala. Voc parou 
de rir e de danar quando viu que eu abraava a sua me, e pedia 
para falar atravs de sua boca. Saiba que ela me deu permisso, 
ou eu no estaria fazendo isso. Sempre apareci sob a forma de 
luz, e continuo sendo esta luz, mas hoje decidi falar. 
O menino abraou-a. 
- Podem sair. Deixem-me ficar sozinha com ele. 
Um a um, fomos saindo do apartamento, deixando a 
mulher com a criana. No txi para casa, tentei puxar conversa 
com Andrea, mas ela pediu que, se tivssemos que falar algo, no 
deveramos nos referir ao que acabara de acontecer. 
Fiquei quieto. Minha alma encheu-se de tristeza: 
perder Andrea era muito difcil. Por outro lado, senti uma imensa 
paz - os acontecimentos provocaram as mudanas, e eu no 
precisava passar pelo desgaste de sentar-me diante de uma mulher 
que amava muito, e dizer que tambm estava apaixonado por outra. 
Neste caso, eu escolhi ficar quieto. Cheguei em casa, 
liguei a televiso, Andrea foi tomar seu banho. Fechei os olhos 
e, quando os abri, a sala estava inundada de luz; j era dia, eu 
havia dormido quase dez horas seguidas. Ao meu lado estava um 
bilhete, onde Andrea dizia que no queria me acordar, tinha ido 
direto para o teatro, mas deixara o caf preparado. O bilhete era 
romntico, enfeitado com a marca de batom e um pequeno decalque 
de corao. 
Ela no estava nem um pouco disposta a "abrir mo do 
seu universo". Iria lutar. E minha vida se transformaria em um 
pesadelo. 
Naquela tarde, ela ligou, e sua voz no demonstrava 
nenhuma emoo especial. Contou-me que o tal ator tinha ido ao
mdico, fizeram um exame de toque, e descobriram que sua prstata 
estava anormalmente inflamada. O passo seguinte foi um exame de 
sangue, onde detectaram um aumento significativo de um tipo de 
protena chamado PSA. Colheram material para a bipsia, mas, pelo 
quadro clnico, as chances de um tumor maligno eram grandes. 
- O mdico lhe disse: voc tem sorte, mesmo que 
estejamos diante de um cenrio ruim, ainda  possvel operar, e 
existem 99% de chances de cura. 


Deidre O"Neill, conhecida como Edda


Que Hagia Sofia, que nada! Era ela mesma, Athena, mas 
tocando a parte mais profunda do rio que corre por sua alma - 
entrando em contato com a Me. 
Tudo que fez foi ver o que estava acontecendo em outra 
realidade. A me da moa, por estar morta, vive em um lugar sem 
tempo, e neste caso pode desviar o curso de um acontecimento - 
mas ns, seres humanos, sempre estaremos limitados a conhecer o 
presente. No  pouco, diga-se de passagem: descobrir uma doena 
incubada antes que ela se agrave, tocar centros nervosos e 
desbloquear energias, isso est ao nosso alcance. 
Claro que tantos morreram na fogueira, outros foram 
exilados, e muitos terminaram escondendo e suprimindo a centelha 
da Grande Me em nossa alma. Eu jamais procurei induzir Athena a 
entrar em contato com o Poder. Ela mesma decidiu fazer isso, 
porque a Me j lhe havia dado vrios sinais: era uma luz 
enquanto danava, transformou-se em letras enquanto aprendia 
caligrafia, apareceu em uma fogueira ou em um espelho. O que 
minha discpula no sabia era como conviver com Ela, at que fez 
uma coisa que provocou toda essa sucesso de acontecimentos. 
Athena, que sempre dizia a todos que deviam ser 
diferentes, era no fundo uma pessoa igual ao resto dos mortais. 
Tinha um ritmo, uma velocidade de cruzeiro. Era mais curiosa? 
Talvez. Tinha conseguido ultrapassar suas dificuldades de julgar-
se uma vtima? Com certeza. Sentia necessidade de dividir com os 
outros, fossem funcionrios de banco ou atores, aquilo que ia 
aprendendo? Em alguns casos a resposta  sim, em outros eu 
procurei estimul-la, porque no somos destinados  solido, e 
nos conhecemos quando nos vemos no olhar dos outros.
Mas minha interferncia termina a. 
Porque a Me queria manifestar-se naquela noite, 
possivelmente sussurrou algo em seu ouvido: "v contra tudo que 
aprendeu at agora - voc, que  uma mestra do ritmo, deixe que 
ele passe pelo seu corpo, mas no o obedea". Foi por isso que 
Athena sugeriu o exerccio: seu inconsciente estava j preparado 
para conviver com a Me, mas ela vibrava sempre na mesma 
sintonia, e com isso no permitia que elementos externos pudessem 
se manifestar. 
Comigo acontecia a mesma coisa: a melhor maneira de 
meditar, de entrar em contato com a luz, era fazendo tric - algo 
que minha me me ensinara quando criana. Sabia contar os pontos, 
mexer as agulhas, criar belas coisas atravs da repetio e da 
harmonia. Um dia, meu protetor pediu-me para tricotar de uma 
maneira completamente irracional! Algo muito violento para mim, 
que havia aprendido o trabalho com carinho, pacincia, e 
dedicao. Mesmo assim, ele insistiu que eu fizesse um pssimo 
trabalho. 
Durante duas horas eu achava aquilo ridculo, absurdo, 
minha cabea doa, mas no podia deixar que as agulhas guiassem 
minhas mos. Qualquer um  capaz de fazer algo errado, por que 
estava me pedindo isso? Porque conhecia minha obsesso pela 
geometria e pelas coisas perfeitas. 
E de repente, aconteceu; eu parei com as agulhas, 
senti um vazio imenso, que foi preenchido por uma presena 
clida, amorosa, companheira.  minha volta tudo estava 
diferente, e sentia vontade de dizer coisas que jamais ousaria em 
meu estado normal. Mas no perdi a conscincia - sabia que era eu 
mesma, embora - aceitemos o paradoxo - no fosse a pessoa com 
quem estivesse acostumada a conviver. 
Portanto, eu posso "ver" o que aconteceu, embora no 
estivesse ali; a alma de Athena seguindo os sons da msica, e seu 
corpo indo em direo totalmente contrria. Depois de algum 
tempo, a alma se desligou do corpo, um espao foi aberto, e a Me 
finalmente pde entrar. 
Melhor dizendo: uma centelha da Me apareceu ali. 
Antiga, mas com aparncia jovem. Sbia, mas no onipotente. 
Especial, mas sem arrogncia. A percepo mudou, e ela passou a 
ver as mesmas coisas que enxergava quando criana - os universos 
paralelos que povoam este mundo. Neste momento, podemos ver no 
apenas o corpo fsico, mas as emoes das pessoas. Dizem que os 
gatos tm o mesmo poder, e eu acredito. 
Entre o mundo fsico e o espiritual existe uma espcie 
de manto, que varia de cor, intensidade, luz, e que os msticos 
chamam de "aura". A partir da, tudo  fcil: a aura conta o que 
est se passando. Se eu estivesse presente ela veria uma cor 
violeta com algumas manchas amarelas ao redor do meu corpo. Isso 
significa que ainda tenho um longo caminho pela frente, e que 
minha misso no est ainda cumprida nesta terra. 
Misturada com as auras humanas, aparecem formas 
transparentes - que as pessoas costumam chamar de "fantasmas". 
Foi o caso da me da menina, o nico caso, alis, onde o destino 
deviaser mudado. Tenho quase certeza que a tal atriz, mesmo antes 
de perguntar, sabia que a me estava ao lado, e a nica surpresa 
foi a histria da bolsa. 
Antes da tal dana sem seguir o ritmo, todos ficaram 
intimidados. Por qu? Porque todos ns estamos acostumados a 
fazer as coisas "como devem ser feitas". Ningum gosta de dar 
passos errados, principalmente quando estamos conscientes disso. 
Inclusive Athena - no deve ter sido fcil para ela sugerir algo 
que ia contra tudo que amava. 
Fico contente que, naquele momento, a Me tenha 
vencido a batalha. Um homem tenha sido salvo do cncer, outro 
passou a aceitar sua sexualidade, e um terceiro deixou de tomar 
plulas para dormir. Tudo porque Athena quebrou o ritmo, freando 
o carro quando estava a altssima velocidade e desarrumando tudo. 
Voltando ao meu tric: usei este processo por um 
tempo, at que consegui provocar esta presena sem qualquer 
artifcio, j que a conhecia, e estava me acostumando a ela. Com 
Athena ocorreu o mesmo - uma vez que sabemos onde esto as Portas 
da Percepo, fica faclimo abrir e fech-las, desde que nos 
acostumemos com nosso comportamento "estranho". 
E cabe acrescentar: meu tric ficou muito mais rpido 
e melhor, da mesma maneira que Athena passou a danar com muito 
mais alma e ritmo depois que ousou quebrar estas barreiras.



Andrea McCain, atriz

A histria se espalhou como fogo; na segunda-feira 
seguinte, quando  folga no teatro, a casa de Athena estava 
cheia. Todos ns havamos levado amigos. Ela repetiu a mesma 
coisa, obrigou-nos a danar sem ritmo, como se precisasse da 
energia coletiva para chegar ao encontro de Hagia Sofia. O menino 
de novo estava presente, e eu passei a observ-lo. Quando se 
sentou no sof, a msica foi cortada e o transe teve incio. 
E comeavam as consultas. Como podamos imaginar, as 
trs primeiras perguntas eram relacionadas com amor - se fulano 
vai continuar comigo, se beltrano me ama, se estou sendo trado. 
Athena no dizia nada. A quarta pessoa que ficou sem resposta 
resolveu reclamar:
- Ento, estou sendo trado?
- Sou Hagia Sofia, a sabedoria universal. Vim criar o 
mundo sem a companhia de ningum, exceto do Amor. Eu sou o incio 
de tudo, e antes de mim havia o caos. 
"Portanto, se algum de vocs quer controlar as foras 
que dominaram o caos, no perguntem a Hagia Sofia. Para mim, o 
amor preenche tudo. No pode ser desejado - porque  um fim em si 
mesmo. No pode trair, porque no est ligado  posse. No pode 
ser mantido preso, porque  como um rio, e transbordar as 
barreiras. Quem tentar aprisionar o amor, tem que cortar sua 
fonte que o alimenta, e neste caso a gua que conseguiu juntar 
terminar estagnada e podre." 
Os olhos de Hagia percorreram o grupo - a maior parte 
deles estava ali pela primeira vez - e ela comeou a apontar as 
coisas que estava vendo: ameaas de doenas, problemas no 
trabalho, dificuldades de relao entre pais e filhos, 
sexualidade, potenciais que existiam mas no estavam sendo 
explorados. Lembro-me que se virou para uma mulher de 
aproximadamente trinta anos:
- Seu pai lhe disse como as coisas deveriam ser, e 
como uma mulher deveria se comportar. Voc sempre viveu lutando 
contra seus sonhos, e o "querer" nunca se manifestou.. Era sempre 
substitudo pelo "dever" ou "esperar" ou "precisar". Mas voc  
uma tima cantora. Um ano de experincia, e poder fazer uma 
grande diferena em seu trabalho. 
- Tenho um filho e um marido. 
- Athena tambm tem um filho. Seu marido ir reagir no 
incio, mas logo terminar aceitando. E no  preciso ser Hagia 
Sofia para saber isso. 
- Talvez j esteja velha demais.
- Voc est se recusando a aceitar quem . J no  
meu problema, eu disse o que precisava ser dito. 
Pouco a pouco, todas as pessoas que estavam naquela 
pequena sala sem poder sentar-se porque no havia lugar, suando 
em bicas apesar de ser ainda final de inverno, sentindo-se 
ridculas por ter vindo a um evento destes, foram sendo chamadas 
para receber os conselhos de Hagia Sofia. 
A ltima fui eu:
- Voc fica, se quiser deixar de ser duas, e passar a 
ser apenas uma. 
Desta vez eu no estava com seu filho no colo; ele 
assistia a tudo, e parecia que a conversa que tiveram logo depois 
da primeira sesso havia sido suficiente para que perdesse o 
medo. 
Concordei com a cabea. Ao contrrio da sesso 
anterior, quandoas pessoas simplesmente haviam sado quando ela 
pediu para ficar com a criana, desta vez Hagia Sofia fez um 
sermo antes de terminar o ritual. 
- Vocs no esto aqui para ter respostas seguras; 
minha misso  provoc-los. No passado, governantes e governados 
acudiam a orculos, para que adivinhassem o futuro. O futuro, 
porm,  caprichoso, porque se guia pelas decises tomadas aqui, 
no presente. Mantenham a bicicleta acelerada, porque, se o 
movimento acaba, vocs cairo. 
"Para aqueles que neste momento esto no cho, que 
vieram conhecer Hagia Sofia querendo apenas que ela confirme o 
que gostariam que fosse verdade, por favor, no tornem a 
aparecer. Ou comecem a danar, e fazer com que os que os cercam 
tambm se movam. O destino ser implacvel com os que querem 
viver em um universo que j terminou. O novo mundo  da Me, que 
veio junto com o Amor para separar os cus das guas. Quem 
acredita que fracassou, fracassar sempre. Quem decidiu que no 
pode agir diferente, ser destrudo pela rotina. Quem decidiu 
impedir as mudanas, ir transformar-se em p. Malditos sejam os 
que no danam, e impedem os outros de danar!"
Seus olhos cuspiam fogo.
- Podem ir. 
Todos saram, eu podia ver a confuso expressa na 
maioria dos rostos. Vieram em busca de conforto, e haviam 
encontrado provocao. Chegaram querendo escutar sobre como o 
amor pode ser controlado, e ouviram que a chama que tudo devora 
jamais poder deixar de incendiar tudo. Queriam ter certeza que 
suas decises estavam certas - seus maridos, suas mulheres, seus 
patres, estavam satisfeitos -, e a nica coisa que encontraram 
foram palavras de dvida. 
Algumas pessoas, porm, sorriam. Elas haviam entendido 
a importncia da dana, e com certeza iriam deixar que seus 
corpos e suas almas flutuassem a partir daquela noite - mesmo 
tendo que pagar um preo, como sempre ocorre. 
Na sala, ficaram apenas a criana, Hagia Sofia, eu e 
Heron. 
- Pedi para que voc ficasse sozinha. 
Sem dizer nada, ele pegou seu sobretudo e foi embora. 
Hagia Sofia me olhava. E, pouco a pouco, eu a vi 
transformar-se em Athena. A nica maneira de descrever como se 
deu esta passagem  tentando compar-la com uma criana; quando  
contrariada, podemos ver a irritao em seus olhos, mas logo ela 
se distrai, e quando a raiva vai embora parece que o menino no  
mais aquele que estava chorando. A "entidade", se  que podemos 
chamar assim, parecia ter se dissipado no ar quando seu 
instrumento perdeu a concentrao. 
Eu agora estava diante de uma mulher que parecia 
exausta. 
- Prepare-me um ch. 
Ela estava me dando uma ordem! E no era mais a 
sabedoria universal, mas algum pela qual meu homem estava 
interessado, ou apaixonado. At onde iramos com esta relao? 
Mas um ch no iria destruir meu amor-prprio: fui at 
a cozinha, esquentei a gua, coloquei folhas de camomila dentro, 
e voltei para a sala. O menino estava dormindo em seu colo. 
- Voc no gosta de mim.
No respondi. 
- Tampouco gosto de voc - continuou. -  bonita, 
elegante, uma excelente atriz, dona de uma cultura e uma educao 
que eu jamais tive, embora minha famlia tivesse insistido muito. 
Mas  insegura, arrogante, desconfiada. Como disse Hagia Sofia, 
voc  duas, quando podia ser apenas uma. 
- No sabia que se lembrava do que diz durante o 
transe, porque neste caso voc tambm  duas: Athena e Hagia 
Sofia. 
- Posso ter dois nomes, mas sou uma s - ou sou todas 
as pessoas do mundo. E  justamente a que quero chegar: porque 
sou uma e todas, a centelha que surge quando entro em transe me 
d instrues precisas. Claro que estou semiconsciente o tempo 
inteiro, mas falando coisas que vm de um ponto desconhecido 
dentro de mim mesmo; como se estivesse alimentando-me no seio da 
Me, deste leite que corre por todas as nossas almas, e 
transporta o conhecimento pela Terra. 
"Desde a semana passada, na primeira vez que entrei em 
contato com esta nova forma, a primeira coisa que me dita me 
pareceu um absurdo: eu devia ensin-la." 
Fez uma pausa.
- Evidente que achei que estava delirando, j que no 
sinto a menor simpatia por voc. 
Fez outra pausa, maior que a primeira.
- Mas hoje a fonte insistiu nisso. E estou lhe dando 
esta escolha. 
- Por que a chama de Hagia Sofia?
- Fui eu quem a batizou;  o nome de uma mesquita que 
vi em um livro, e achei muito bonita. 
"Voc, se quiser, poder ser minha discpula. Foi isso 
que a trouxe aqui no primeiro dia. Todo este novo momento em 
minha vida, inclusive a descoberta de Hagia Sofia dentro de mim, 
foi provocado porque um dia voc entrou por esta porta, e disse: 
"fao teatro e iremos montar uma pea sobre o rosto feminino de 
Deus. Soube que esteve no deserto e nas montanhas dos Blcs, 
junto com os ciganos, e tem informaes a respeito"."
- Vai me ensinar tudo que sabe?
- Tudo o que no sei. Vou aprender  medida que 
estiver em contato com voc, como disse na primeira vez que nos 
vimos, e estou repetindo agora. Depois que aprender o que 
preciso, seguiremos separadas nossos caminhos. 

- Pode ensinar a algum que no gosta?
- Posso amar e respeitar algum que no gosto. Nas 
duas vezes em que estive em transe, enxerguei sua aura - era a 
mais evoluda que vi em toda a minha vida. Voc pode fazer uma 
diferena neste mundo, se aceitar minha proposta. 
- Ir me ensinar a ver auras?
- Eu mesma no sabia que era capaz disso, at que vi 
pela primeira vez. Se estiver no seu caminho, terminar 
aprendendo tambm esta parte.
Entendi que tambm podia amar algum que no gostava. 
Disse que sim. 
- Ento vamos transformar esta aceitao em um ritual. 
Um rito nos joga em um mundo desconhecido, mas sabemos que com as 
coisas que esto ali no podemos brincar. No basta dizer sim; 
precisa colocar sua vida em jogo. E sem pensar muito. Se for a 
mulher que imagino que seja, no ir dizer: "preciso refletir um 
pouco". Ir dizer...
- Estou preparada. Vamos ao ritual. Onde aprendeu este 
ritual?
- Vou aprender agora. J no preciso mais sair do meu 
ritmo para entrar em contato com a centelha da Me, porque, uma 
vez que ela se instala,  fcil tornar a encontrar-se com ela. J 
sei a porta que preciso abrir, embora estivesse escondida no meio 
de muitas entradas e sadas. Tudo que preciso  de um pouco de 
silncio.
Silncio de novo!
Ficamos ali, os olhos bem abertos, fixos, como se 
fssemos comear um duelo mortal. Rituais! Antes mesmo de tocar a 
campainha da casa de Athena pela primeira vez, j havia 
participado de alguns. Tudo aquilo para no final sentir-me usada, 
diminuda, diante de uma porta que sempre estava ao alcance de 
meus olhos, mas que eu no conseguia abrir. Rituais! 
Tudo que Athena fez foi tomar um pouco do ch que eu 
havia preparado.
- O ritual est feito. Pedi que fizesse algo para mim, 
e voc fez. Eu o aceitei. Agora  sua vez de pedir-me algo. 
Pensei imediatamente em Heron. Mas no era o momento. 
- Tire a roupa. 
Ela no perguntou a razo. Olhou para o menino, 
certificou-se que dormia, e logo comeou a retirar o suter. 
- No precisa - eu interrompi. - No sei por que pedi 
isso. 
Mas ela continuou a despir-se. A blusa, a cala jeans, 
o suti - reparei em seus seios, os mais belos que tinha visto 
at ento. Finalmente tirou a calcinha. E ali estava, oferecendo-
me sua nudez. 
- Abenoe-me - disse Athena. 
Abenoar minha "mestra"? Mas eu havia dado o primeiro 
passo, no podia parar no meio - e, molhando minhas mos na 
xcara de ch, aspergi um pouco a bebida em seu corpo. 
- Da mesma maneira que esta planta foi transformada em 
bebida, da mesma maneira que esta gua misturou-se com a planta, 
eu te abeno, e peo  Grande Me que a fonte de onde veio esta 
gua jamais pare de jorrar, e a terra de onde veio esta planta 
seja sempre frtil e generosa. 
Surpreendi-me com minhas palavras; no tinham sado 
nem de dentro, nem de fora de mim. Era como se as conhecesse 
sempre, e tivesse feito isso uma infinidade de vezes. 
- Est abenoada, pode vestir-se.
Mas ela continuou nua, com um sorriso nos lbios. O 
que desejava? Se Hagia Sofia era capaz de ver auras, sabia que eu 
no tinha o menor desejo de ter relaes com uma mulher. 
- Um momento.
Ela pegou o menino no colo, levou-o para o seu quarto, 
e voltou em seguida. 
- Tire tambm sua roupa. 
Quem estava pedindo? Hagia Sofia, que me dizia do meu 
potencial e de quem era a discpula perfeita? Ou Athena, que eu 
pouco conhecia, parecia capaz de qualquer coisa, uma mulher que a 
vida tinha educado para ir alm de seus limites, saciar qualquer 
curiosidade?
Havamos entrado em um tipo de confrontao que no 
permitia recuos. Despi-me com a mesma desenvoltura, o mesmo 
sorriso, e o mesmo olhar. 
Ela me pegou pela mo, e nos sentamos no sof. 
Durante a meia hora que se seguiu, Athena e Hagia 
Sofia manifestaram-se; queriam saber quais seriam meus prximos 
passos.  medida que as duas me perguntavam, eu via que tudo 
estava realmente escrito diante de mim, as portas sempre 
estiveram fechadas porque no entendia que eu era a nica pessoa 
no mundo autorizada a abri-las. 


Heron Ryan, jornalista

O secretrio de redao me entrega um vdeo, e vamos 
at a sala de projeo para assisti-lo. 
Fora filmado na manh do dia 26 de abril de 1986, e 
mostra uma vida normal em uma cidade normal. Um homem sentado 
tomando caf. A me passeando com o beb pela rua. As pessoas 
atarefadas, indo para o trabalho, uma ou duas pessoas esperando 
no ponto de nibus. Um senhor lendo um jornal em um banco de uma 
praa. 
Mas o vdeo est com problema: aparecem vrias riscas 
horizontais, como se o boto de "tracking" precisasse ser mexido. 
Levanto-me para fazer isso, o secretrio me interrompe:
-  assim mesmo. Continue assistindo. 
Imagens da pequena cidade do interior continuam 
passando, sem absolutamente nenhuma coisa interessante alm das 
cenas da vida comum. 
-  possvel que algumas daquelas pessoas saibam que 
aconteceu um acidente a dois quilmetros dali - diz meu superior. 
-  possvel tambm que saibam que ocorreram  30 mortes; um 
nmero grande, mas no o suficiente para mudar a rotina dos 
habitantes. 
As cenas agora mostram nibus escolares estacionando. 
Ali ficaro por muitos dias, sem que nada acontea. As imagens 
esto muito ruins. 
- No  o "tracking".  a radiao. O vdeo foi feito 
pela KGB, a polcia secreta da Unio Sovitica
"Na noite do dia 26 de abril,  1h 23 da manh, o pior 
desastre criado pela mo do homem aconteceu em Chernobyl, 
Ucrnia. Com a exploso de um reator nuclear, as pessoas da rea 
foram submetidas a uma radiao noventa vezes maior que a da 
bomba de Hiroshima. Era necessrio evacuar imediatamente a 
regio, mas ningum, absolutamente ningum disse nada - afinal de 
contas, o governo no comete erros. S uma semana depois, 
apareceu na pgina 32 do jornal local uma pequena nota de cinco 
linhas, falando da morte dos operrios, e no dando maiores 
explicaes. Nesse meio tempo, foi comemorado o Dia do Trabalho 
em toda a ex-Unio Sovitica, e em Kiev, capital da Ucrnia, as 
pessoas desfilam sem saber que a morte invisvel estava no ar."
E conclui:
- Quero que v at l ver como est Chernobyl hoje em 
dia. Acaba de ser promovido a reprter especial. Ter um aumento 
de 20%, alm de poder sugerir que tipo de artigo devemos 
publicar. 
Eu devia dar saltos de alegria, mas fui possudo de 
uma tristeza imensa, que precisava disfarar. Impossvel 
argumentar com ele, dizer que neste momento existiam duas 
mulheres em minha vida, eu no queria sair de Londres, era minha 
vida e meu equilbrio mental que estavam em jogo. Pergunto quando 
devo viajar, responde que o mais breve possvel, porque corriam 
boatos de que outros pases estavam aumentando significativamente 
a produo de energia nuclear. 
Consigo negociar uma sada honrosa, explicando que 
primeiro precisava ouvir especialistas, entender direito o 
assunto, e, assim que tiver recolhido o material necessrio, 
embarcaria sem demora. 
Ele concorda, aperta minha mo, me d os parabns. No 
tenho tempo de conversar com Andrea - quando chego em casa ela 
ainda no voltou do teatro. Caio direto no sono, e de novo acordo 
com o tal bilhete dizendo que tinha sado para trabalhar, e o 
caf est na mesa. 
Vou para o trabalho, procuro agradar o chefe que 
"melhorou minha vida", telefono para especialistas em radiao e 
energia. Descubro que um total de 9 milhes de pessoas no mundo 
inteiro foram afetadas diretamente pelo desastre, inclusive de 3 
a 4 milhes de crianas. As trinta mortes se transformaram, 
segundo o especialista John Gofmans, em 475 mil casos de cncer 
fatais, e um nmero igual de cncer no fatais. 
Um total de 2 mil cidades e vilarejos foram 
simplesmente riscados do mapa. Segundo o Ministrio da Sade da 
Bielo-Rssia, o ndice de cncer na tiride no pas deve aumentar 
consideravelmente entre 2005 e 2010, como conseqncia da 
radiatividade que ainda continua a fazer efeito. Outro 
especialista me explica que alm destas 9 milhes de pessoas 
diretamente expostas  radiao, mais 65 milhes foram 
indiretamente afetadas atravs do consumo de alimentos 
contaminados, em muitos pases do mundo. 
 um assunto srio, que merece ser tratado com 
respeito. No final do dia volto  sala do secretrio de redao e 
sugiro que eu v visitar a cidade apenas no dia do aniversrio do 
acidente - at l posso fazer mais pesquisas, ouvir mais 
especialistas, e ver como o governo ingls acompanhou a tragdia. 
Ele concorda. 
Ligo para Athena - afinal ela diz que namora algum da 
Scotland Yard, e este  o momento de lhe pedir um favor, j que 
Chernobyl no  um assunto classificado como secreto, e a Unio 
Sovitica no existe mais. Ela promete que ir conversar com o 
seu "namorado", mas diz que no garante ter as respostas que 
desejo. 
Diz tambm que est partindo para a Esccia no dia 
seguinte, retornando apenas para a reunio do grupo. 
- Que grupo?
O grupo, responde. Ento agora aquilo vai transformar-
se em rotina? Quando poderemos nos encontrar, conversar, 
esclarecer as coisas soltas no ar? 
Mas ela j desligou. Volto para casa, vejo os 
noticirios, janto sozinho, vou buscar Andrea no teatro. Chego a 
tempo de assistir ao final da pea e, para minha surpresa, parece 
que a pessoa que est ali no palco no  a mesma com quem convivi 
durante quase dois anos; h algo de mgico em seus gestos, os 
monlogos e dilogos saem com uma intensidade com a qual no 
estou acostumado. Estou vendo uma estranha, uma mulher que 
desejaria ter ao meu lado - e me dou conta  que a tenho ao meu 
lado, no  de maneira nenhuma uma estranha para mim.
- Como foi sua conversa com Athena? - pergunto na 
volta para casa. 
- Foi bem. E como est o trabalho?
Mudou de assunto. Conto que fui promovido, falo de 
Chernobyl, e ela no demonstra muito interesse. Comeo a achar 
que estou perdendo o amor que tinha, e no ganhei o amor que 
esperava. Entretanto, assim que chegamos ao apartamento ela me 
convida para tomarmos banho juntos, e logo estamos entre os 
lenis. Antes, ela colocou no volume mximo a tal msica de 
percusso (explica que conseguiu uma cpia), e disse que eu no 
pensasse nos vizinhos - a gente se preocupava demais com eles, e 
no vivia jamais nossas vidas. 
O que ocorre, dali por diante,  algo que ultrapassa 
minha compreenso. Ser que a mulher que, neste momento, faz amor 
comigo de uma maneira absolutamente selvagem, tinha descoberto 
finalmente sua sexualidade - e isso havia sido ensinado ou 
provocado por outra mulher?
Porque, enquanto me agarrava com uma violncia nunca 
vista, dizia sem parar:
- Hoje eu sou seu homem, e voc  minha mulher. 
E ali ficamos por quase uma hora, e experimentei 
coisas que nunca tinha ousado antes. Em determinados momentos 
tive vergonha, vontade de pedir que parasse, mas ela parecia 
estar com pleno domnio da situao, eu me entreguei - porque no 
tinha escolha. E o que  pior, tinha muita curiosidade. 
No final, estava exausto, mas Andrea parecia com mais 
energia que antes. 
- Antes de dormir, quero que saiba uma coisa - disse 
ela. - Se voc for adiante, o sexo lhe dar possibilidade de 
fazer amor com os deuses e as deusas. Foi isso que voc 
experimentou hoje. Quero que v dormir sabendo que eu despertei a 
Me que estava em voc. 
Tive vontade de perguntar se havia aprendido aquilo 
com Athena, mas no tive coragem. 
- Diga-me que gostou de ser mulher por uma noite. 
- Gostei. No sei se gostaria sempre, mas foi algo que 
me assustou e me alegrou ao mesmo tempo. 
- Diga-me que sempre quis experimentar o que 
experimentou. 
Uma coisa  deixar-se levar pela situao, a outra  
comentar friamente o assunto. Eu no disse nada - embora no 
duvidasse que ela soubesse a resposta. 
- Pois bem - continuou Andrea. - Isso tudo estava 
dentro de mim e eu no sabia. E estava dentro de mim a mscara 
que caiu hoje quando eu estava no palco: voc notou algo 
diferente?
- Claro. Irradiava uma luz especial. 
- Carisma: a fora divina que se manifesta no homem e 
na mulher. O poder sobrenatural que no precisamos mostrar para 
ningum, porque todos conseguem enxergar, at os menos sensveis. 
Mas s acontece depois que ficamos nus, morremos para o mundo, e 
renascemos para ns mesmos. Ontem  noite, eu morri. Hoje, quando 
pisei o palco e vi que fazia exatamente o que havia escolhido, eu 
renasci de minhas cinzas. 
"Porque eu sempre andei tentando ser quem era, mas no 
conseguia. Tentava sempre impressionar os outros, tinha conversas 
inteligentes, agradava meus pais e ao mesmo tempo usava todos os 
artifcios para conseguir fazer as coisas que gostaria. Eu sempre 
abri meu caminho com sangue, lgrimas, fora de vontade - mas 
ontem entendi que escolhi o processo errado. O meu sonho no 
requer nada disso, apenas que eu me entregue a ele, e morda os 
dentes se achar que estou sofrendo, porque o sofrimento passa. 
- Por que est me dizendo isso?
- Deixe-me terminar. Neste percurso onde o sofrimento 
parecia ser a nica regra, eu lutei por coisas que no adianta 
lutar. Como amor, por exemplo: ou a gente sente, ou no h fora 
no mundo que consiga provoc-lo. 
"Podemos fingir que amamos. Podemos nos acostumar com 
o outro. Podemos viver uma vida inteira de amizade, cumplicidade, 
criar uma famlia, ter sexo todas as noites, ter orgasmo, e mesmo 
assim sentir que h um vazio pattico em tudo isso, alguma coisa 
importante est faltando. Em nome do que havia aprendido sobre as 
relaes entre um homem e uma mulher, procurei lutar por coisas 
que no valiam tanto a pena. E isso inclui voc, por exemplo.
"Hoje, enquanto fazamos amor, enquanto eu dava o 
mximo, e percebia que voc tambm estava dando o seu melhor, 
entendi que seu melhor j no me interessa mais. Vou dormir ao 
seu lado, e amanh estou indo embora. O teatro  meu ritual, ali 
eu posso expressar e desenvolver o que quero."
Comecei a me arrepender de tudo - de ter ido  
Transilvnia para cruzar com uma mulher que podia estar 
destruindo minha vida, provocado o primeiro encontro do "grupo", 
confessado meu amor em um restaurante. Naquele momento, odiei 
Athena. 
- Sei o que voc est pensando - disse Andrea. - Que 
sua amiga me fez uma lavagem cerebral; no  nada disso. 
- Eu sou um homem, embora hoje tenha me comportado na 
cama como mulher. Eu sou uma espcie em extino, porque no vejo 
muitos homens ao meu redor. Poucas pessoas arriscam o que eu 
arrisco. 
- Tenho certeza, e isso faz com que o admire. Mas ser 
que voc no vai me perguntar quem eu sou, o que quero, o que 
desejo?
Perguntei. 
- Quero tudo. Quero a selvageria e a ternura. Quero 
incomodar os vizinhos e procurar acalm-los. No quero mulheres 
na cama, mas quero homens, verdadeiros homens - como voc, por 
exemplo. Que me amem ou que me usem, isso no tem importncia - o 
meu amor  maior que isso. Quero amar livremente, e quero deixar 
que as pessoas  minha volta faam a mesma coisa. 
"Finalmente: tudo que conversei com Athena foi sobre 
as coisas simples que despertam a energia reprimida. Como fazer 
amor, por exemplo. Ou andar na rua repetindo "eu estou aqui e 
agora". Nada de especial, nenhum ritual secreto; a nica coisa 
que fazia de nosso encontro algo relativamente incomum,  que as 
duas estavam nuas. A partir de agora, ela e eu nos veremos sempre 
nas segundas-feiras, e se eu tiver qualquer coisa a comentar, 
farei isso depois da sesso - no tenho a menor vontade de ser 
sua amiga. 
"Da mesma maneira, quando ela sente vontade de dividir 
algo, vai at a Esccia conversar com esta tal de Edda, que pelo 
visto voc tambm conhece, e nunca me contou."
- Mas eu no me lembro!
Senti que Andrea estava se acalmando aos poucos. 
Preparou duas taas de caf, e bebemos juntos. Ela voltou a 
sorrir, perguntou de novo sobre minha promoo, disse que estava 
preocupada com as reunies de segunda-feira, porque naquela manh 
soubera que os amigos dos amigos estavam convidando outras 
pessoas, e o local era pequeno. Eu fazia um esforo incomum para 
fingir que tudo no tinha passado de um ataque de nervos, uma 
tenso pr-menstrual, uma crise de cimes. 
Abracei-a, ela encolheu-se no meu ombro; esperei que 
dormisse, embora estivesse exausto. Naquela noite, no sonhei com 
absolutamente nada, no tive qualquer pressentimento.
E na manh seguinte, quando acordei, vi que as roupas 
dela no estavam mais l; a chave de casa estava sobre a mesa, 
sem nenhum bilhete de despedida. 


Deidre O"Neill, conhecida como Edda

As pessoas lem muitas histrias de bruxas, de fadas, 
de paranormais, de meninos possudos por espritos malignos. 
Assistem a muitos filmes com rituais em que pentagramas, espadas, 
e invocaes so feitas. Tudo bem,  preciso deixar que a 
imaginao funcione, que estas etapas sejam vividas; e quem passa 
por elas sem se deixar enganar, termina entrando em contato com a 
Tradio. 
A verdadeira Tradio  isso: o mestre jamais diz ao 
discpulo o que deve fazer. So apenas companheiros de viagem, 
dividindo a mesma e difcil sensao de "estranhamento" diante 
das percepes que mudam sem parar, dos horizontes que se abrem, 
das portas que se fecham, dos rios que s vezes parecem 
atrapalhar o caminho - e que na verdade no devem ser 
atravessados, mas percorridos. 
A diferena entre mestre e discpulo  apenas uma: o 
primeiro tem um pouco menos de medo que o segundo. Ento, quando 
se sentam ao redor de uma mesa ou de uma fogueira para conversar, 
o mais experiente sugere: "por que no faz isso?". Nunca diz: 
"ande por aqui, e ir chegar onde eu cheguei", j que cada 
caminho  nico, e cada destino  pessoal. 
O verdadeiro mestre provoca no discpulo a coragem de 
desequilibrar seu mundo, embora tambm ele esteja com receio das 
coisas que tem encontrado, e mais receio ainda do que lhe reserva 
a prxima curva. 
Eu era uma mdica jovem e entusiasmada, que foi para o 
interior da Romnia em um programa de intercmbio do governo 
ingls, procurando ajudar o meu prximo. Parti carregando 
medicamentos na bagagem, e conceitos na cabea: tinha idias 
claras a respeito de como as pessoas devem se comportar, do que  
necessrio para ser feliz, dos sonhos que devemos manter acesos 
dentro de ns, de como as relaes humanas precisam ser 
desenvolvidas. Desembarquei em Bucareste durante aquela sangrenta 
e delirante ditadura, fui para a Transilvnia como parte de um 
programa de vacinao em massa dos habitantes do lugar. 
No entendia que estava sendo apenas uma pea a mais 
em um complicado tabuleiro de xadrez, onde mos invisveis 
manipulavam meu ideal, e tudo aquilo que pensava estar fazendo 
pela humanidade tinha segundas intenes: estabilizar o governo 
do filho do ditador, permitir que a Inglaterra vendesse armas em 
um mercado que era dominado pelos soviticos. 
Minhas boas intenes logo caram por terra quando 
comecei a ver que as vacinas apenas no bastavam, existiam outras 
doenas grassando na regio, eu escrevia sem parar pedindo 
recursos e no os conseguia - diziam que no me preocupasse alm 
daquilo que me haviam pedido. 
Senti-me impotente, revoltada. Conheci a misria de 
perto, teria condies de fazer alguma coisa se pelo menos algum 
me estendesse umas poucas libras, mas no estavam tanto 
interessados nos resultados. Nosso governo queria apenas notcias 
em jornais, de modo que pudesse dizer aos seus partidos polticos 
ou aos seus eleitores que tinham enviado grupos para diversos 
lugares do mundo em misso humanitria. Tinham boas intenes - 
alm de vender armas, claro. 
Eu me desesperei; que diabos era este mundo? Certa 
noite, parti para a floresta gelada blasfemando contra Deus, que 
era injusto com tudo e com todos. Foi quando eu estava sentada ao 
p de um carvalho que o meu protetor se aproximou. Disse que eu 
podia morrer de frio - respondi que era mdica, sabia os limites 
do corpo, e no momento em que estivesse me aproximando destes 
limites, voltaria para o acampamento. Perguntei o que ele fazia 
ali. 
- Converso com uma mulher que me ouve, j que os 
homens ficaram surdos.
Achei que se referia a mim - mas no, a mulher era a 
prpria floresta. Depois de ver aquele homem andando pelo bosque, 
fazendo gestos e dizendo coisas que era incapaz de compreender, 
uma certa paz instalou-se no meu corao; afinal de contas, eu 
no era a nica no mundo a ficar falando sozinha. Quando me 
preparava para voltar, ele tornou a vir ao meu encontro. 
- Sei quem voc  - disse. - Na aldeia tem fama de uma 
pessoa boa, sempre bem-humorada e pronta para ajudar os outros, 
mas eu vejo algo diferente: raiva e frustrao.
Sem saber se estava diante de um espio do governo, 
resolvi dizer tudo que estava sentindo - eu precisava desabafar 
mesmo correndo o risco de ser presa. Caminhamos juntos em direo 
ao hospital de campanha onde eu trabalhava; levei-o ao 
dormitrio, que naquele momento estava vazio (meus companheiros 
se divertiam em uma festa anual que acontecia na cidade), e 
convidei-o para tomar algo. Ele retirou uma garrafa do bolso:
- Palinka - disse, referindo-se  bebida tradicional 
do pas, cujo teor alcolico  altssimo. - Sou eu quem convida. 
Bebemos juntos, no percebi que estava ficando cada 
vez mais embriagada; s me dei conta do meu estado quando tentei 
ir ao banheiro, tropecei em algo e ca no cho. 
- No se mexa - disse o homem. - Veja bem o que est 
diante dos seus olhos. 
Uma fila de formigas. 
- Todos acham que elas so muito sbias. Possuem 
memria, inteligncia, capacidade de organizao, esprito de 
sacrifcio. Buscam alimento no vero, guardam para o inverno, e 
agora saem de novo, nesta primavera gelada, para trabalhar. Se 
amanh o mundo fosse destrudo por uma guerra atmica, as 
formigas sobreviveriam.
- Como  que o senhor sabe tudo isso? 
- Estudei biologia. 
- E por que diabos no trabalha para melhorar o estado 
do seu povo? O que faz no meio da floresta, falando sozinho com 
as rvores?
- Em primeiro lugar eu no estava sozinho; alm das 
rvores, voc estava me escutando. Mas respondendo  sua 
pergunta: deixei a biologia para dedicar-me ao trabalho de 
ferreiro. 
Levantei-me com muito custo. A cabea continuava 
girando, mas eu estava consciente o bastante para entender a 
situao daquele pobre coitado. Apesar da universidade, no 
conseguiu encontrar emprego. Disse que o mesmo acontecia no meu 
pas.
- No se trata disso; deixei biologia porque queria 
trabalhar como ferreiro. Desde criana era fascinado por aqueles 
homens martelando o ao, compondo uma msica estranha, espalhando 
fagulhas ao redor, colocando o ferro em brasa na gua, criando 
nuvens de vapor. Eu era um bilogo infeliz, porque meu sonho era 
fazer o metal rgido ganhar formas suaves. At que um dia 
apareceu um protetor. 
- Um protetor?
- Digamos que, ao ver estas formigas fazendo 
exatamente o que esto programadas para fazer, voc exclame: que 
fantstico! Os guardas so geneticamente preparados para 
sacrificar-se pela rainha, os operrios carregam folhas dez vezes 
mais pesadas que eles, os engenheiros preparam tneis que 
resistem a tempestades e inundaes. Entram em batalhas mortais 
com seus inimigos, sofrem pela comunidade, e jamais se perguntam: 
o que estamos fazendo aqui? 
"Os homens tentam imitar a sociedade perfeita das 
formigas, e eu como bilogo estava cumprindo meu papel, at que 
algum apareceu com esta pergunta: 
"Voc est contente com o que faz?"
"Eu disse: claro que estou, sou til ao meu povo." 
"E isso basta?"
"Eu no sabia se bastava, mas disse que ele me parecia 
uma pessoa arrogante e egosta. 
"Ele respondeu: "pode ser. Mas tudo que voc 
conseguir  continuar repetindo o que vem sendo feito desde que 
o homem se entende por homem - manter as coisas organizadas".
"Mas o mundo progrediu", respondi. Ele perguntou se
eu sabia histria - claro que sabia. Fez outra pergunta: h
milhares de anos j no ramos capazes de construir grandes 
edifcios, como as pirmides? No ramos capazes de adorar 
deuses, de tecer, de fazer fogo, de arranjar amantes e esposas, 
de transportar mensagens escritas? Claro que sim. Mas, embora nos 
tivssemos organizado para substituir os escravos gratuitos por 
escravos com salrio hoje em dia, todos os avanos tinham 
acontecido apenas no campo da cincia. Os seres humanos ainda 
continuavam com as mesmas perguntas de seus ancestrais. Ou seja - 
no tinham evoludo absolutamente nada. A partir deste momento, 
entendi que aquela pessoa que me fazia tais perguntas era algum 
enviado pelo cu, um anjo, um protetor."
- Por que o chama de protetor?
- Porque me disse que existiam duas tradies: uma que 
nos faz repetir a mesma coisa atravs dos sculos. A outra que 
nos abre a porta do desconhecido. Mas esta segunda tradio  
incmoda, desconfortvel, e perigosa, porque, se tiver muitos 
adeptos, terminar destruindo a sociedade que custou tanto para 
ser organizada tendo como exemplo as formigas. Portanto, esta 
segunda tradio tornou-se secreta, e s conseguiu sobreviver 
tantos sculos porque seus adeptos criaram uma linguagem oculta,
atravs de smbolos.
- Voc perguntou mais?
- Evidente, porque, embora eu negasse, ele sabia que 
eu no estava satisfeito com o que fazia. Meu protetor comentou: 
"tenho medo de dar passos que no esto no mapa, mas, apesar dos 
meus terrores, no final do dia a vida me parece muito mais 
interessante". 
"Insisti sobre a tradio, e ele disse algo como 
"enquanto Deus for apenas homem, teremos sempre alimento para 
comer e casa para morar. Quando a Me finalmente reconquistar sua 
liberdade, talvez tenhamos que dormir ao relento e viver de amor, 
ou talvez sejamos capazes de equilibrar emoo e trabalho". 
"O homem que viria a ser meu protetor, me perguntou: 
"se voc no fosse bilogo, o que seria?". 
"Eu disse: "ferreiro, mas no d dinheiro". Ele 
respondeu: "pois quando se cansar de ser o que no , v 
divertir-se e celebrar a vida, batendo com um martelo em um 
ferro. Com o tempo, descobrir que isso lhe dar mais do que 
prazer: lhe dar um sentido".
"Como sigo esta tradio de que voc falou?"
"J disse, pelos smbolos", respondeu ele. "Comece 
fazendo o que quer, e tudo o mais lhe ser revelado. Acredite que 
Deus  me, cuida dos seus filhos, jamais deixa que nenhum mal 
lhe acontea. Eu fiz isso, e sobrevivi. Descobri que existem 
outras pessoas que tambm fazem isso - mas so confundidas com 
loucas, irresponsveis, supersticiosas. Procuram na natureza a 
inspirao que est ali, desde que o mundo  mundo. Construmos 
pirmides, mas tambm desenvolvemos smbolos."
"Tendo dito isso, foi embora e nunca mais o vi. 
"Sei apenas que, a partir daquele momento, os smbolos 
comearam a aparecer porque meus olhos tinham sido abertos por 
aquela conversa. Custou muito, mas certa tarde disse  minha 
famlia que, embora eu tivesse tudo que um homem sonha, estava 
infeliz - na verdade, tinha nascido para ser ferreiro. Minha 
mulher reclamou, dizendo: voc que nasceu cigano, que teve que 
enfrentar tantas humilhaes para chegar onde chegou, agora vai 
querer voltar atrs? Meu filho ficou contentssimo, porque tambm 
gostava de ver os ferreiros em nossa aldeia, e detestava os 
laboratrios das grandes cidades. 
"Passei a dividir meu tempo entre as pesquisas 
biolgicas, e o trabalho de ajudante de um ferreiro. Vivia 
cansado, mas estava mais alegre que antes. Certo dia, larguei o 
emprego e montei minha prpria ferraria - que deu completamente 
errado no incio; justamente quando eu comeava a acreditar na 
vida, as coisas pioravam sensivelmente. Um dia, estava 
trabalhando, e percebi que ali, diante de mim, estava um smbolo. 
"Recebia o ao no trabalhado, e precisava transform-
lo em peas para automveis, mquinas agrcolas, utenslios de 
cozinha. Como isso  feito? Primeiro, eu aqueo a chapa de ao 
num calor infernal, at que ela fique vermelha. Em seguida, sem 
qualquer piedade, eu pego o martelo mais pesado, e aplico vrios 
golpes, at que a pea adquira a forma desejada. 
"Logo ela  mergulhada num balde de gua fria, e a 
oficina inteira se enche com o barulho do vapor, enquanto a pea 
estala e grita por causa da sbita mudana de temperatura.
"Tenho que repetir este processo at conseguir a pea 
perfeita: uma vez apenas no  suficiente."
O ferreiro deu uma longa pausa, acendeu um cigarro, e 
continuou:
- s vezes, o ao que chega s minhas mos no 
consegue agentar este tratamento. O calor, as marteladas, e a 
gua fria terminam por ench-lo de rachaduras. E eu sei que 
jamais se transformar numa boa lmina de arado, ou em um eixo de 
motor. Ento, eu simplesmente o coloco no monte de ferro-velho 
que voc viu na entrada da minha ferraria.
Mais uma pausa, e o ferreiro concluiu:
- Sei que Deus est me colocando no fogo das aflies. 
Tenho aceitado as marteladas que a vida me d, e s vezes sinto-
me to frio e insensvel como a gua que faz sofrer o ao. Mas a 
nica coisa que peo : "Meu Deus, minha Me, no desista, at 
que eu consiga tomar a forma que espera de mim. Tente da maneira 
que achar melhor, pelo tempo que quiser - mas jamais me coloque 
no monte de ferro-velho das almas".


Quando terminei minha conversa com aquele homem, 
apesar de bbada, sabia que minha vida havia mudado. Havia uma 
tradio por detrs de tudo aquilo que aprendemos, e eu precisava 
ir era em busca de pessoas que, consciente ou inconscientemente, 
conseguiam manifestar este lado feminino de Deus. Em vez de ficar 
praguejando contra meu governo e as manipulaes polticas, 
resolvi fazer o que realmente tinha vontade: curar as pessoas. O 
resto no me interessava mais. 
Como no tinha os recursos necessrios, aproximei-me 
de mulheres e homens da regio, que me guiaram ao mundo das ervas 
medicinais. Comecei a aprender que existia uma tradio popular 
que remontava a um passado remotssimo - era transmitida de 
gerao a gerao atravs da experincia, e no do conhecimento 
tcnico. Com esta ajuda, pude ir muito mais alm do que minhas 
possibilidades permitiam, porque eu no estava ali apenas para 
cumprir uma tarefa da universidade, ou ajudar meu governo a 
vender armas, ou fazer propaganda inconsciente de partidos 
polticos. 
Eu estava ali porque curar as pessoas me deixava 
contente. 
Isso me aproximou da natureza, da tradio oral, e das 
plantas. De volta  Inglaterra, resolvi conversar com os mdicos, 
e perguntava: "vocs sabem exatamente os remdios que devem 
receitar, ou... s vezes so ajudados pela intuio?". A quase 
totalidade, depois que o gelo da conversa era quebrado, dizia que 
muitas vezes eram guiados por uma voz, e que quando 
desrespeitavam seus conselhos, terminavam errando o tratamento. 
Evidente que utilizam toda a tcnica disponvel, mas sabem que 
existe um canto, um canto escuro, onde estava realmente o sentido 
da cura, e a melhor deciso a tomar. 
Meu protetor desequilibrou meu mundo - embora fosse 
apenas um ferreiro cigano. Eu costumava ir pelo menos uma vez por 
ano  sua aldeia, e discutamos como a vida se abre diante de 
nossos olhos quando ousamos ver as coisas de modo diferente.  Em 
algumas destas visitas, encontrei outros discpulos seus, e 
juntos comentvamos nossos medos e nossas conquistas. O protetor 
dizia: eu tambm fico apavorado, mas nestas horas descubro uma 
sabedoria que est alm de mim, e sigo adiante. 
Ganho hoje uma fortuna como mdica em Edimburgo, e 
ganharia mais dinheiro ainda se resolvesse trabalhar em Londres, 
mas prefiro aproveitar a vida e ter meus momentos de folga. Fao 
aquilo que gosto: combino os processos de cura dos antigos, a 
Tradio Arcana, com as tcnicas mais modernas da medicina atual 
- a Tradio de Hipcrates. Estou escrevendo um tratado a 
respeito, e muitas pessoas da comunidade "cientfica", ao verem 
meu texto publicado em uma revista especializada, ousaro dar 
passos que no fundo sempre quiseram dar. 
No acredito que a cabea seja a fonte de todos os 
males; existem doenas. Acho que antibiticos e antivirais foram 
grandes passos para a humanidade. No pretendo fazer com que um 
paciente meu cure apendicite apenas com meditao - o que ele 
precisa  de uma boa e rpida cirurgia. Enfim, dou meus passos 
com coragem e medo, procuro tcnica e inspirao. E sou prudente 
o bastante para no ficar falando isso por a, caso contrrio 
iriam logo me tachar de curandeira, e muitas vidas que eu poderia 
salvar terminariam sendo perdidas. 
Quando estou em dvida, peo ajuda  Grande Me. Nunca 
me deixou sem resposta. Mas sempre me aconselhou a ser discreta; 
com toda certeza deu o mesmo conselho  Athena, pelo menos em 
duas ou trs ocasies.
Mas ela estava fascinada demais pelo mundo que 
comeava a descobrir, e no escutou.



Um jornal londrino, 24 de agosto de 1994

A BRUXA DE PORTOBELLO
LONDRES (copyright Jeremy Lutton) - "Por estas e 
outras razes eu no acredito em Deus. Veja s como se comportam 
aqueles que acreditam!" Assim reagiu Robert Wilson, um dos 
comerciantes de Portobello Road. 
A rua, conhecida no mundo inteiro por seus antiqurios 
e sua feira de objetos usados aos sbados, transformou-se ontem  
noite em uma praa de guerra, exigindo interveno de pelo menos 
cinqenta policiais do Royal Borough of Kensington and Chelsea 
para acalmar os nimos. No final do tumulto, cinco pessoas 
estavam feridas, embora nenhuma em estado grave. O motivo da 
batalha campal, que durou quase duas horas, foi uma manifestao 
convocada pelo Reverendo Ian Buck contra aquilo que chamou de 
"culto satnico no corao da Inglaterra". 
Segundo Buck, h seis meses um grupo de pessoas 
suspeitas no deixava a vizinhana dormir em paz nas noites de 
segunda-feira, dia em que invocavam o demnio. As cerimnias eram 
conduzidas pela libanesa Sherine H. Khalil, que se autonomeava 
Athena, a deusa da sabedoria. 
Reunia geralmente duas centenas de pessoas no antigo 
armazm de cereais da Companhia das ndias, mas a multido vinha 
aumentando com o passar do tempo, e nas semanas passadas um grupo 
igualmente numeroso ficava do lado de fora esperando uma 
oportunidade para entrar e participar do culto. Vendo que nenhuma 
de suas reclamaes verbais, peties, abaixo-assinados, notas 
para jornais, havia dado resultado, o reverendo resolveu 
mobilizar sua comunidade, pedindo que s 19 horas de ontem os 
seus fiis se colocassem do lado de fora do armazm, impedindo a 
entrada dos "adoradores de Satans". 
"Assim que recebemos a primeira denncia, mandamos 
algum para inspecionar o local, mas no foi encontrado nenhum 
tipo de droga ou indcio de atividade ilcita" - disse um 
oficial, que preferiu no ser identificado j que acabam de abrir 
um inqurito para apurar o que aconteceu. - "Como a msica sempre 
era desligada s 10 horas da noite, no havia violaes  lei do 
silncio, e no podemos fazer nada. A Inglaterra permite a 
liberdade de culto."
O Reverendo Buck tem outra verso para o caso: 
"Na verdade, esta bruxa de Portobello, esta mestra do 
charlatanismo, tem contatos com altas esferas do governo, da a 
passividade de uma polcia paga com o dinheiro do contribuinte 
para manter a ordem e a decncia. Vivemos em um momento em que 
tudo  permitido; a democracia est sendo engolida e destruda 
por causa de sua liberdade ilimitada."
O pastor afirma que logo no incio desconfiou do 
grupo; haviam alugado um imvel caindo aos pedaos, e passavam 
dias inteiros tentando recuper-lo, "numa clara demonstrao de 
que pertenciam a uma seita, e tinham sido submetidos  lavagem 
cerebral, porque ningum trabalha de graa neste mundo". Ao ser 
perguntado se os seus fiis tambm no se dedicavam a trabalhos 
caritativos ou de apoio  comunidade, Buck alegou que "o que 
fazemos  em nome de Jesus".
Ontem  noite, ao chegar ao armazm onde seus 
seguidores a aguardavam do lado de fora, Sherine Khalil, seu 
filho, e alguns de seus amigos foram impedidos de entrar pelos 
paroquianos do Reverendo Buck, que carregavam cartazes e 
utilizavam megafones conclamando a vizinhana a juntar-se a eles. 
O bate-boca logo degenerou em agresses fsicas, e em pouco tempo 
era impossvel controlar ambos os lados. 
"Dizem que lutam em nome de Jesus; mas na verdade o 
que desejam  fazer com que continuemos a no escutar as palavras 
de Cristo, que dizia "todos ns somos deuses"" - afirmou a 
conhecida atriz Andrea McCain, uma das seguidoras de Sherine 
Khalil, a Athena. A senhorita McCain recebeu um corte no 
superclio direito, foi imediatamente medicada, e deixou o local 
antes que a reportagem pudesse descobrir mais alguma coisa sobre 
a sua relao com o culto. 
Para a Sra. Khalil, que procurava acalmar seu filho de 
oito anos logo que a ordem foi restabelecida, tudo que acontece 
no antigo armazm  uma dana coletiva, seguida da invocao a 
uma entidade conhecida como Hagia Sofia, a quem so feitas 
perguntas. A celebrao termina com uma espcie de sermo e uma 
orao coletiva em homenagem  Grande Me. O oficial que foi 
encarregado de apurar as primeiras denncias confirmou suas 
palavras.
Pelo que apuramos, a comunidade no possui nome ou 
registro como sociedade beneficente. Mas, para o advogado Sheldon 
Williams, isso no  necessrio: "estamos em um pas livre, as 
pessoas podem se reunir em recintos fechados para eventos sem 
fins lucrativos, desde que isso no incentive a quebra de 
qualquer lei de nosso cdigo civil, como seria a incitao ao 
racismo, ou consumo de entorpecentes". 
A Sra. Khalil rejeitou enfaticamente qualquer 
possibilidade de interromper os seus cultos por causa dos 
distrbios.
"Formamos um grupo para nos encorajar mutuamente, j 
que  muito difcil enfrentar sozinhos as presses da sociedade", 
comentou. "Exijo que o seu jornal denuncie esta presso religiosa 
que viemos sofrendo ao longo de todos estes sculos. Sempre que 
no fazemos as coisas de acordo com as religies institudas e 
aprovadas pelo Estado, somos reprimidos - como tentaram fazer 
hoje. Acontece que antes caminhvamos para o calvrio, para as 
prises, para as fogueiras, para o exlio. Mas agora temos 
condies de reagir, e a fora ser respondida com a fora, da 
mesma maneira que a compaixo tambm ser paga com compaixo."
Ao ser confrontada com as acusaes do Reverendo Buck, 
ela acusou-o de "manipular seus fiis, usando a intolerncia como 
pretexto, e a mentira como arma para aes violentas".
Segundo o socilogo Arthaud Lenox, fenmenos como este 
tendem a se repetir nos prximos anos, possivelmente envolvendo 
confrontaes mais srias entre religies estabelecidas. "No 
momento em que a utopia marxista provou sua total incompetncia 
para canalizar os ideais da sociedade, o mundo agora se volta 
para um despertar religioso, fruto do pavor natural da 
civilizao pelas datas redondas. Entretanto, acredito que, 
quando o ano 2000 chegar e o mundo continuar existindo, o bom 
senso prevalecer, e as religies voltaro a ser apenas um 
refgio para gente mais fraca, que est sempre em busca de 
guias."
A opinio  contestada por D. Evaristo Piazza, bispo 
auxiliar do Vaticano no Reino Unido: "o que vemos surgir no  um 
despertar espiritual que todos ns ansiamos, mas uma onda daquilo 
que os americanos chamam de Nova Era, espcie de caldo de cultura 
onde tudo  permitido, os dogmas no so respeitados, e as idias 
mais absurdas do passado voltam a assolar a mente humana. Pessoas 
inescrupulosas como esta senhora esto tentando infundir suas 
idias falsas em mentes fracas e sugestionveis, com o nico 
objetivo de lucro financeiro e poder pessoal".
O historiador alemo Franz Herbert, atualmente fazendo 
estgio no Instituto Goethe de Londres, tem uma idia diferente. 
"As religies estabelecidas deixaram de responder as questes 
fundamentais do homem - como sua identidade e sua razo de viver. 
Em vez disso, se concentraram apenas em uma srie de dogmas e 
normas voltadas para uma organizao social e poltica. Desta 
maneira, as pessoas em busca de uma espiritualidade autntica 
esto partindo em direo a novos rumos; isso significa, sem 
dvida nenhuma, uma volta ao passado e aos cultos primitivos, 
antes destes cultos serem contagiados pelas estruturas de poder."
No posto policial onde a ocorrncia foi registrada, o 
Sargento William Morton informou que caso o grupo de Sherine 
Khalil resolva realizar sua reunio na prxima segunda-feira e 
achar que est sendo ameaada, deve solicitar por escrito 
proteo policial, evitando que os incidentes se repitam. 
(Colaborou na reportagem Andrew Fish; fotos de Mark Guillhem.)


Heron Ryan, jornalista

Li a reportagem no avio quando voltava da Ucrnia 
cheio de dvidas. No tinha ainda conseguido saber se a tragdia 
de Chernobyl sido realmente grande, ou fora usada pelos grandes 
produtores de petrleo para inibir o uso de outras fontes de 
energia. 
Fiquei assustado com o artigo que tinha em mos.  As 
fotos mostravam algumas vitrines quebradas, um Reverendo Buck 
colrico, e - ali estava o perigo - uma bela mulher, com olhos de 
fogo, abraada ao seu filho. Entendi imediatamente o que poderia 
acontecer de bom e de ruim. Fui direto do aeroporto para 
Portobello, convencido de que ambas as minhas previses se 
transformariam em realidade. 
No lado positivo, a reunio da segunda-feira seguinte 
foi um dos eventos de maior sucesso na histria do bairro: veio 
gente de todo o bairro, algumas curiosas para encontrar a tal 
entidade mencionada na matria, outras com cartazes defendendo a 
liberdade de culto e de expresso. Como o lugar no comportava 
mais de duzentas pessoas, a multido ficou espremida na calada, 
esperando ao menos um olhar daquela que parecia ser a sacerdotisa 
dos oprimidos. 
Quando ela chegou, foi recebida com palmas, bilhetes, 
pedidos de socorro; algumas pessoas lhe atiraram flores, e uma 
senhora, de idade indefinida, pediu que continuasse a lutar pela 
liberdade das mulheres, pelo direito de adorao da Me. 
Os paroquianos da semana anterior devem ter ficado 
intimidados com a multido e no compareceram, apesar das ameaas 
que fizeram espalhar nos dias anteriores. Nenhuma agresso foi 
ouvida, e a cerimnia transcorreu como sempre - dana, Hagia 
Sofia se manifestando (a esta altura eu j sabia que era apenas 
um lado da prpria Athena), celebrao no final (que havia sido 
acrescentada recentemente, quando o grupo mudou-se para o armazm 
cedido por um dos primeiros freqentadores), e ponto final. 
Notei que durante o sermo Athena parecia possuda: 
- Todos ns temos um dever com o amor: permitir que 
ele se manifeste da maneira que julgar melhor. No podemos e no 
devemos nos assustar quando as foras das trevas, aquelas que 
instituram a palavra "pecado" apenas para controlar nossos 
coraes e mentes, querem se fazer ouvir. O que  pecado? Jesus 
Cristo, que todos ns conhecemos, virou-se para a mulher 
adltera, e disse: "ningum te condenou? Pois eu tambm no te 
condeno". Curou aos sbados, permitiu que uma prostituta lavasse 
seus ps, convidou um criminoso que estava sendo crucificado com 
ele para gozar as delcias do Paraso, comeu alimentos proibidos, 
disse que nos preocupssemos apenas com o dia de hoje, porque os 
lrios do campo no tecem nem fiam, mas se vestem com glria. 
"O que  pecado? Pecado  impedir que o Amor se 
manifeste. E a Me  amor. Estamos em um novo mundo, podemos 
escolher seguir nossos prprios passos, no o que a sociedade nos 
obrigou a fazer. Se for necessrio, enfrentaremos de novo as 
foras das trevas como fizemos na semana passada. Mas ningum ir 
calar nossa voz ou nosso corao."
Eu estava vendo a transformao de uma mulher em um 
cone. Ela falava tudo aquilo com convico, com dignidade, com 
f no que dizia. Torci para que as coisas fossem realmente assim, 
que estivssemos realmente diante de um novo mundo, do qual eu 
seria testemunha. 
Sua sada do armazm foi to consagradora quanto sua 
entrada, e, ao me ver na multido, chamou-me para seu lado, 
comentando que havia sentido minha falta na semana passada. 
Estava alegre, segura de si, convencida da correo de seus atos. 
Este era o lado positivo do artigo de jornal, e oxal 
as coisas terminassem por a. Queria estar errado em minha 
anlise, mas, trs dias depois, a minha previso se confirmou: o 
lado negativo surgiu com toda a sua fora. 
Utilizando um dos mais conceituados e conservadores 
escritrios de advocacia do Reino, cujos diretores - esses sim, e 
no Athena - tinham contato com todas as esferas do governo, e 
usando as declaraes que haviam sido publicadas, o Reverendo 
Buck convocou uma entrevista coletiva para dizer que naquele 
momento estava entrando na justia com um processo de difamao, 
calnia, e danos morais. 
O secretrio de redao me chamou: sabia que eu tinha 
amizade com o personagem central de todo aquele escndalo, e 
sugeriu que fizssemos uma entrevista exclusiva. Minha primeira 
reao foi de revolta: como iria usar esta relao de amizade 
para vender jornais? 
Mas, depois que conversamos um pouco, comecei a achar 
que talvez fosse uma boa idia: ela teria a oportunidade de 
apresentar sua verso da histria. Indo mais longe, poderia usar 
a entrevista para promover tudo aquilo pelo qual agora estava 
lutando abertamente. Sa do encontro com o secretrio de redao 
com o plano que elaboramos juntos: uma srie de reportagens sobre 
as novas tendncias sociais, e as transformaes que a busca 
religiosa estava atravessando. Em uma destas reportagens, eu 
publicaria as palavras de Athena. 
Na mesma tarde do encontro com o secretrio de 
redao, fui at sua casa - aproveitando-me do fato de que o 
convite partira dela, na sada do armazm. Soube por vizinhos que 
oficiais de justia tinham aparecido no dia anterior para 
entregar-lhe uma intimao, mas tampouco conseguiram. 
Telefonei mais tarde, sem sucesso. Tentei outra vez no 
incio da noite, e ningum respondia ao telefone. A partir da 
comecei a ligar a cada meia hora, e a ansiedade crescia 
proporcionalmente aos telefonemas. Desde que Hagia Sofia me 
curara da insnia, o cansao me empurrava para a cama s 11 horas 
da noite, mas desta vez a angstia me manteve acordado. 
Achei o nmero de sua me no catlogo telefnico. Mas 
j era tarde, se ela no estivesse ali, a famlia inteira iria 
ficar preocupada; o que fazer? Liguei a televiso para ver se 
algo havia acontecido - nada de especial, Londres continuava a 
mesma, com suas maravilhas e seus perigos.
Resolvi fazer uma ltima tentativa: depois de tocar 
trs vezes, algum atendeu. Imediatamente reconheci a voz de 
Andrea do outro lado da linha.
- O que voc quer? - ela perguntou. 
- Athena pediu que eu a procurasse. Est tudo bem? 
- Evidente que est tudo bem, e est tudo mal, 
dependendo de como se quiser ver a coisa. Mas acho que voc pode 
ajudar. 
- Onde ela est? 
Desligou sem dar maiores detalhes. 


Deidre O"Neill, conhecida como Edda

Athena hospedou-se em um hotel prximo  minha casa. 
As notcias de Londres referentes a eventos locais, 
principalmente aos pequenos conflitos nos bairros da periferia, 
jamais chegam  Esccia. No nos interessa muito como os ingleses 
gestionam seus pequenos problemas; temos nossa bandeira, nossa 
equipe de futebol, e em breve teremos nosso parlamento.  
pattico que nesta poca ainda utilizemos o mesmo cdigo 
telefnico da Inglaterra, seus selos de correio, e tenhamos ainda 
que amargar a derrota de nossa rainha Mary Stuart na batalha pelo 
trono.
Ela terminou decapitada nas mos dos ingleses, sob o 
pretexto de problemas religiosos,  claro. O que minha discpula 
estava enfrentando no era nenhuma novidade. 
Deixei que Athena descansasse por um dia inteiro. Na 
manh seguinte, em vez de entrar no pequeno templo e trabalhar 
usando os rituais que conheo, resolvi lev-la para passear com 
seu filho em um bosque perto de Edimburgo. Ali, enquanto a 
criana brincava e corria solta entre as rvores, ela me contou 
em detalhes tudo que estava acontecendo.
Quando terminou, comecei a falar:
-  de dia, o cu est nublado, e alm das nuvens os 
seres humanos acreditam que vive um Deus todo-poderoso, guiando o 
destino dos homens. Entretanto, veja seu filho, olhe seus ps, 
escute os sons  sua volta: aqui embaixo est a Me, muito mais 
prxima, trazendo alegria s crianas, e energia aos que caminham 
sobre Seu corpo. Por que as pessoas preferem acreditar em algo 
distante e esquecer o que est visvel, a verdadeira manifestao 
do milagre?
- Eu sei a resposta: porque l em cima algum guia e 
d as ordens, escondido atrs das nuvens, inquestionvel em sua 
sabedoria. Aqui embaixo ns temos um contato fsico com a 
realidade mgica, liberdade de escolher onde nossos passos vo 
nos levar. 
- Belas e exatas palavras. Voc acha que o ser humano 
deseja isso? Deseja esta liberdade de escolher os prprios 
passos?
- Penso que sim. Esta terra onde piso me traou 
caminhos muito estranhos, de um vilarejo no interior da 
Transilvnia a uma cidade no Oriente Mdio, dali a outra cidade 
em uma ilha, depois ao deserto,  Transilvnia de novo, etc. De 
um banco de subrbio a uma companhia de venda de imveis no Golfo 
Prsico. De um grupo de dana a um beduno. E, sempre que meus 
ps me empurravam para a frente, eu dizia "sim" ao invs de dizer 
"no".
- O que voc ganhou com isso?
- Hoje posso ver as auras das pessoas. Posso despertar 
a Me em minha alma. Minha vida agora tem um sentido, sei pelo 
que estou lutando. Mas por que pergunta? Voc tambm ganhou o 
poder mais importante de todos: o dom da cura. Andrea consegue 
profetizar e conversar com espritos; tenho acompanhado passo a 
passo seu desenvolvimento espiritual. 
- O que mais ganhou?
- Alegria de estar viva. Sei que estou aqui, tudo  um 
milagre, uma revelao. 
A criana caiu e machucou o joelho. Instintivamente, 
Athena correu at ela, limpou a ferida, disse que no era nada, e 
o menino logo voltou a divertir-se na floresta. Usei aquilo como 
um sinal.
- O que acaba de acontecer com seu filho, aconteceu 
comigo. E est acontecendo com voc, no  verdade?
- Sim. Mas no acho que tropecei e ca; acho que estou 
passando mais uma vez por um teste, que me ensinar o prximo 
passo. 
Nestes momentos, o mestre no deve dizer nada - apenas 
abenoar seu discpulo. Porque, por mais que deseje poup-lo de 
sofrimentos, os caminhos esto traados e os ps desejosos de 
segui-los. Sugeri que voltssemos de noite ao bosque, apenas as 
duas. Ela perguntou onde poderia deixar o filho; eu me 
encarregaria disso - tinha uma vizinha que me devia favores, e 
teria o maior prazer em cuidar de Viorel. 


No final do entardecer retornamos ao mesmo lugar, e no 
caminho discutamos coisas que nada tinham a ver com o ritual que 
estava prestes a ser realizado. Athena tinha me visto fazer 
depilao com um novo tipo de cera, e estava interessadssima em 
saber quais as vantagens sobre os antigos processos. Conversamos 
animadas sobre vaidade, moda, lugares mais baratos para comprar, 
comportamento feminino, feminismo, estilos de cabelo. Em 
determinado momento ela disse algo como "a alma no tem idade, 
no sei por que nos preocupamos com isso", mas logo deu-se conta 
que no havia grandes problemas em deixar-se simplesmente relaxar 
e falar de coisas absolutamente superficiais. 
Muito pelo contrrio: era divertidssimo este tipo de 
conversa, e cuidar da esttica no deixava de ser algo 
importantssimo na vida de uma mulher (os homens fazem o mesmo, 
mas de maneira diferente, e no assumem tanto como ns).
 medida que me aproximava do local que havia 
escolhido - ou melhor, que a floresta estava escolhendo para mim 
-, comecei a sentir a presena da Me. No meu caso, esta presena 
se manifesta atravs de uma certa e misteriosa alegria interior, 
que sempre me emociona, e quase me leva s lgrimas. Era o 
momento de parar e mudar de assunto. 
- Pegue alguns gravetos - pedi.
- Mas j est escuro. 
- A lua cheia ilumina o suficiente, mesmo estando 
atrs das nuvens. Eduque seus olhos: eles foram feitos para 
enxergar alm do que pensa. 
Ela comeou a fazer o que lhe pedi, volta e meia 
blasfemando porque havia tocado em um espinho. Quase meia hora se 
passou, e neste tempo no conversamos; eu sentia a emoo da 
presena da Me, a euforia de estar ali com aquela mulher que 
ainda parecia uma menina, que confiava em mim, que me fazia 
companhia nesta busca s vezes louca demais para a mente humana.
Athena ainda estava no estgio de responder perguntas, 
como havia respondido as minhas naquela tarde. Eu j tinha sido 
assim um dia, at deixar-me transportar por completo ao reino do 
mistrio, apenas contemplar, celebrar, adorar, agradecer, e 
permitir que o dom se manifeste. 
Olhava Athena catando os gravetos, e via a menina que 
um dia fui, tambm em busca de segredos velados, de poderes 
ocultos. A vida havia me ensinado algo completamente diferente: 
os poderes no eram ocultos, e os segredos j tinham sido 
revelados h muito tempo. Quando vi que a quantidade de gravetos 
era suficiente, pedi com um sinal que parasse. 
Procurei, eu mesma, galhos maiores, e os coloquei por 
cima dos gravetos; era assim a vida. Para que pegassem fogo, os 
gravetos deviam antes ser consumidos. Para que pudssemos liberar 
a energia do forte,  preciso que o fraco tenha possibilidade de 
se manifestar. 
Para que possamos entender os poderes que carregamos 
conosco, e os segredos que j foram revelados, antes era 
necessrio deixar que a superfcie - as expectativas, os medos, 
as aparncias - fosse consumida. Ento, entrvamos nesta paz que 
agora encontrava na floresta, com o vento soprando sem muita 
violncia, a luz da lua por detrs das nuvens, os rudos de 
animais que saam  noite para caar cumprindo o ciclo de 
nascimento e morte da Me, sem que jamais fossem criticados por 
seguir seus instintos e sua natureza. 
Acendi a fogueira. 
Nenhuma de ns duas sentiu vontade de dizer nada - 
ficamos apenas contemplando a dana do fogo por um tempo que 
pareceu uma eternidade, e sabendo que, naquele momento, centenas 
de milhares de pessoas deviam estar diante de suas lareiras, em 
diversos lugares do mundo, independente do fato de terem em suas 
casas os mais modernos sistemas de aquecimento; faziam isso 
porque estavam diante de um smbolo.
Foi preciso um grande esforo para sair daquele 
transe, que embora no me dissesse nada de especifico, no me 
fizesse ver deuses, auras, ou fantasmas, me deixava no estado de 
graa que eu precisava tanto. Voltei a concentrar-me no presente, 
na moa ao meu lado, no ritual que precisava realizar. 
- Como est sua discpula? - perguntei. 
- Difcil. Mas, se no fosse assim, talvez eu no 
aprendesse o que preciso. 
- E que poder ela desenvolve?
- Ela conversa com as entidades do mundo paralelo.
- Como voc conversa com Hagia Sofia?
- No. Voc sabe que Hagia Sofia  a Me se 
manifestando em mim. Ela conversa com os seres invisveis. 
Eu j havia entendido, mas queria ter certeza. Athena 
estava mais calada do que o normal. No sei se havia conversado 
com Andrea a respeito dos acontecimentos de Londres, mas isso no 
vinha ao caso. Levantei-me, abri a bolsa que carregava comigo, 
tirei um punhado de ervas especialmente escolhidas, e joguei nas 
labaredas.
- A madeira comeou a falar - disse Athena, como se 
estivesse diante de algo absolutamente normal, e isso era bom, os 
milagres estavam agora fazendo parte de sua vida. 
- O que ela est dizendo?
- No momento nada, so apenas rudos. 
Minutos depois ela ouvia uma cano vinda da fogueira. 
-  to maravilhoso! 
Ali estava a menina, no mais a mulher ou a me.
- Fique como est. No procure se concentrar, ou 
seguir meus passos, ou entender o que estou dizendo. Relaxe, 
sinta-se bem. Isso  tudo que s vezes podemos esperar da vida. 
Ajoelhei-me, peguei um graveto em brasa, fiz um 
crculo  sua volta, deixando uma pequena abertura para que 
pudesse entrar. Eu tambm estava ouvindo a mesma msica que 
Athena, e dancei ao seu redor - invocando a unio do fogo 
masculino com a terra que agora o recebia de braos e pernas 
abertas, que tudo purificava, que transformava em energia a fora 
contida dentro daqueles gravetos, troncos, seres humanos, 
entidades invisveis. Dancei enquanto durou a melodia do fogo, e 
fiz os gestos de proteo  criatura que estava dentro do 
crculo, sorrindo. 
Quando as chamas se extinguiram, peguei um pouco de 
cinza e aspergi na cabea de Athena; em seguida, apaguei com os 
ps o crculo que fizera a sua volta. 
- Muito obrigado - disse ela. - Senti-me querida, 
amada, protegida. 
- No esquea disso nos momentos difceis. 
- Agora que encontrei meu caminho, no existiro 
momentos difceis. Creio que tenho uma misso a cumprir, no  
isso?
- Sim, todos ns temos uma misso a cumprir. 
Ela comeou a ficar insegura.
- Voc no me respondeu sobre os momentos difceis. 
- No  uma pergunta inteligente. Lembre-se do que 
disse pouco antes:  amada, querida, protegida. 
- Farei o possvel. 
Seus olhos se encheram de lgrimas. Athena havia 
entendido minha resposta. 

Samira R. Khalil, dona de casa

- Meu neto! O que o meu neto tem a ver com isso? Em 
que mundo vivemos, meu Deus? Ainda estamos na Idade Mdia, 
procurando bruxas?
Corri at ele. O menino estava com o nariz sujo de 
sangue, mas no parecia importar-se com meu desespero, e logo me 
empurrou:
- Eu sei me defender. E me defendi.
Embora jamais tenha gerado um filho em meu ventre, 
conheo o corao das crianas; estava muito mais preocupada por 
Athena que por Viorel - isso era uma das muitas brigas que ele 
iria enfrentar na sua vida, e seus olhos inchados no deixavam de 
mostrar um certo orgulho. 
- Um grupo de meninos na escola disse que mame era 
uma adoradora do diabo!
Sherine chegou logo em seguida - a tempo de ver o 
garoto ainda com sangue, e fazer um verdadeiro escndalo. Queria 
sair, voltar  escola para falar com o diretor, mas eu a abracei. 
Deixei que derramasse todas as suas lgrimas, expressasse toda a 
sua frustrao - neste momento tudo que eu podia fazer era ficar 
calada, tentando passar meu amor em silncio.
Quando se acalmou um pouco, expliquei com todo cuidado 
que podia voltar a morar conosco, nos ocuparamos de tudo - seu 
pai havia conversado com alguns advogados quando lera no jornal 
sobre o processo que estavam movendo contra ela. Faramos o 
possvel e o impossvel para livr-la desta situao, 
agentaramos os comentrios dos vizinhos, os olhares de ironia 
dos conhecidos, a falsa solidariedade dos amigos. 
Nada havia de mais importante no mundo que a 
felicidade de minha filha, embora eu nunca pudesse compreender 
por que  sempre escolhia caminhos to difceis e to sofridos. 
Mas uma me no tem que compreender nada - apenas amar e 
proteger. 
E orgulhar-se. Sabendo que podamos lhe dar quase 
tudo, fora cedo em busca de sua independncia. Teve seus 
tropeos, suas derrotas, fez questo de enfrentar sozinha as 
turbulncias. Procurou a me consciente dos riscos que corria, e 
isso s terminou por aproxim-la mais de nossa famlia. Eu me 
dava conta que todos os meus conselhos jamais tinham sido aceitos 
- conseguir um diploma, casar-se, aceitar as dificuldades de uma 
vida em comum sem reclamar, no procurar ir alm do que a 
sociedade permitia.
E qual o resultado? 
Acompanhando a histria de minha filha, me transformei 
em uma pessoa melhor. Evidente que no compreendia nada de Deusa 
Me, esta mania de estar sempre reunindo pessoas estranhas ao seu 
lado, e jamais conformar-se com o que havia conseguido depois de 
muito trabalho. 
Mas, no fundo, gostaria muito de ter sido como ela, 
embora j fosse um pouco tarde para pensar assim. 
Ia levantar-me e preparar algo para comerem, mas ela 
me impediu.
- Quero ficar um pouco aqui, no seu colo. Isso  tudo 
que preciso. Viorel, v para o quarto ver televiso que gostaria 
de conversar com sua av. 
O menino obedeceu. 
- Eu devo ter lhe causado muito sofrimento. 
- Nenhum. Muito pelo contrrio, voc e seu filho so a 
fonte de nossas alegrias, e o motivo pelo qual estamos vivos. 
- Mas eu no fiz exatamente...
- ... que bom que tenha sido assim. Hoje eu posso 
confessar: houve momentos em que a odiei, que me arrependi 
amargamente de no ter seguido o conselho da enfermeira e adotado 
outra criana. E me perguntava: "como  que uma me pode odiar 
sua filha?". Tomava calmantes, ia jogar bridge com as amigas, 
comprava compulsivamente, tudo para compensar o amor que eu havia 
lhe dado e julgava no estar recebendo de volta. 
"Faz alguns meses, quando voc decidiu largar mais uma 
vez um emprego que estava lhe dando dinheiro e prestgio, eu 
fiquei desesperada. Fui at a igreja prxima de casa: queria 
fazer uma promessa, pedir  Virgem para voc tomar conscincia da 
realidade, mudar de vida, aproveitar as chances que estava 
desperdiando. Estava disposta a fazer qualquer coisa em troca 
disso.
"Fiquei olhando a Virgem com o menino no seu colo. E 
disse: "voc que  me, sabe o que estou passando. Pode me pedir 
qualquer coisa, mas salve minha filha, porque acho que est 
caminhando para destruir a si mesma"."
Senti que os braos de Sherine me apertavam. Ela 
comeou a chorar de novo, mas era um pranto diferente. Eu fazia o 
possvel para controlar minha emoo. 
- E sabe o que senti neste momento? Que ela conversava 
comigo. E dizia: "escute, Samira, eu tambm pensava assim. Sofri 
muitos anos porque meu filho no escutava nada do que eu dizia. 
Preocupava-me com sua segurana, achava que no sabia escolher 
seus amigos, no tinha o menor respeito pelas leis, pelos 
costumes, pela religio, ou pelos mais velhos". Preciso contar o 
resto?
- No precisa, eu entendo. Mas gostaria de ouvir de 
qualquer maneira.
- A Virgem terminou dizendo: "mas meu filho no me 
ouviu. E hoje estou muito contente por causa disso".
Com todo carinho, retirei sua cabea do meu ombro e 
levantei-me.
- Vocs precisam comer. 
Fui at a cozinha, preparei uma sopa de cebola, um 
prato de tabule, esquentei o po sem fermento, coloquei a mesa, e 
almoamos juntos. Conversamos sobre coisas sem importncia, que 
nestes momentos nos unem e justificam o amor de estarmos ali, 
tranqilos, mesmo que a tempestade esteja arrancando rvores e 
semeando destruio l fora. Claro, no final da tarde a minha 
filha e meu neto sairiam por aquela porta, para enfrentarem de 
novo os ventos, os troves, os raios - mas isso era uma escolha 
sua. 
- Mame, voc disse que faria qualquer coisa por mim, 
no  verdade?
Claro que era verdade. Inclusive dar minha vida, se 
fosse necessrio. 
- No acha que eu tambm deveria fazer qualquer coisa 
por Viorel?
- Penso que esse  o instinto. Mas alm do instinto, 
essa  a maior manifestao do amor que temos. 
Ela continuou comendo.
- Voc sabe que entraram com um processo na justia, e 
que seu pai est pronto para ajud-la, se assim desejar. 
- Claro que desejo.  minha famlia. 
Pensei duas vezes, trs vezes, mas no me contive:
- Posso lhe dar um conselho? Sei que voc tem amigos 
importantes. Falo daquele jornalista. Por que no pede a ele que 
publique sua histria, que conte sua verso dos fatos? A imprensa 
est dando muito espao a este reverendo, e as pessoas terminam 
por lhe dar razo.
- Ento, alm de aceitar o que fao, voc est 
querendo me ajudar?
- Sim, Sherine. Mesmo que no a entenda, mesmo que s 
vezes sofra como a Virgem deve ter sofrido sua vida inteira, 
mesmo que voc no seja Jesus Cristo e tenha uma grande mensagem 
para passar ao mundo, eu estou do seu lado, e quero v-la 
vitoriosa.  


Heron Ryan, jornalista

Athena entrou quando eu estava procurando anotar 
freneticamente o que imaginava ser a entrevista ideal sobre os 
acontecimentos de Portobello e o renascer da Deusa. Era um 
assunto delicado, delicadssimo.
O que eu via no armazm era uma mulher dizendo: "vocs 
so capazes, faam o que a Grande Me ensina - confiem no amor e 
os milagres sero realizados". E a multido concordava, mas isso 
no podia durar muito, porque estvamos em uma poca onde a 
escravido era a nica maneira de encontrar a felicidade. O 
livre-arbtrio exige uma responsabilidade imensa, d trabalho, e 
traz angstia e sofrimento. 
- Preciso que escreva algo sobre mim - pediu. 
Respondi que devamos esperar um pouco, o assunto 
podia morrer na semana seguinte, mas que havia preparado algumas 
perguntas sobre a Energia Feminina. 
- No momento, as brigas e os escndalos interessam 
apenas ao bairro e aos tablides: nenhum jornal respeitvel 
publicou qualquer linha. Londres est cheia deste tipo de 
conflitos, e chamar a ateno da grande imprensa no  
aconselhvel. Melhor seria ficar duas ou trs semanas sem reunir 
seu grupo. 
"Entretanto, acho que o assunto da Deusa - tratado com 
a seriedade que merece, pode fazer muita gente levantar uma srie 
de perguntas importantes." 
- Durante um jantar, voc disse que me amava. E agora, 
alm de dizer que no quer me ajudar, est me pedindo para que 
renuncie s coisas em que acredito?
Como interpretar aquelas palavras? Ser que finalmente 
aceitava o que lhe oferecera aquela noite, o que me acompanhava a 
cada minuto de vida? O poeta libans havia dito que era mais 
importante dar que receber; embora fossem palavras sbias, eu 
fazia parte daquilo que chamam de "humanidade", com minhas 
fraquezas, meus momentos de indeciso, meu desejo de simplesmente 
dividir a paz, escravizar-me aos meus sentimentos, entregar-me 
sem perguntar nada, sem mesmo querer saber se este amor era 
correspondido. Bastava permitir que a amasse, isso era tudo; 
tenho certeza que Hagia Sofia iria concordar inteiramente comigo. 
Athena estava passando por minha vida j h quase dois anos, e eu 
tinha medo que continuasse seu caminho, desaparecesse no 
horizonte, sem que eu tivesse sido capaz de pelo menos acompanh-
la em uma parte de sua jornada. 
- Voc est falando de amor?
- Estou pedindo sua ajuda. 
O que fazer? Controlar-me, manter o sangue-frio, no 
precipitar as coisas e terminar por destru-las? Ou dar o passo 
que estava faltando, abra-la e proteg-la de todos os perigos?
- Eu quero ajudar - respondi, embora minha cabea 
estivesse insistindo para dizer "no se preocupe com nada, eu 
penso que te amo". - Peo que confie em mim; faria tudo, 
absolutamente tudo por voc. Inclusive dizer "no", quando acho 
que  o caso, mesmo correndo o risco de que voc no compreenda. 
Contei que o secretrio de redao do jornal havia 
proposto uma srie de matrias sobre o despertar da Deusa, que 
inclua uma entrevista com ela. No incio me parecera uma 
excelente idia, mas agora entendia que era melhor esperar um 
pouco. 
- Ou voc deseja levar sua misso adiante, ou voc 
deseja se defender. Sei que est consciente de que o que faz  
mais importante do que a maneira como  vista pelos outros. Est 
de acordo?
- Estou pensando em meu filho. Todos os dias agora tem 
problemas na escola. 
- Vai passar. Daqui a uma semana ningum vai mais 
falar nisso. Ento ser o momento de agirmos; no para defender-
se de ataques idiotas, mas para colocar, com segurana e 
sabedoria, a dimenso do seu trabalho. 
"E se tem dvidas de meus sentimentos, est decidida a 
continuar, vou com voc na prxima reunio. Veremos o que 
acontece."


E na segunda-feira seguinte eu a acompanhei, j no 
era apenas uma pessoa na multido, podia ver as cenas da mesma 
maneira que ela estava vendo.
Pessoas que se aglomeravam no local, flores e palmas, 
moas que gritavam "sacerdotisa da Deusa", duas ou trs senhoras 
bem vestidas  que imploravam por uma audincia separada, por 
causa de doena na famlia. A multido comeou a empurrar-nos, 
barrando a entrada - jamais havamos pensado que seria necessrio 
um esquema de segurana, e fiquei assustado. Agarrei-a pelo 
brao, peguei Viorel no colo, e entramos. 
L dentro, com a sala j cheia, Andrea nos esperava, 
irritadssima:
- Acho que voc deve dizer hoje que no faz milagre 
nenhum! - gritou para Athena. - Voc est se deixando dominar 
pela vaidade! Por que Hagia Sofia no fala com toda esta gente 
para ir embora? 
- Porque ela indica as doenas - respondeu Athena em 
tom desafiador. - E quanto mais pessoas se beneficiarem, melhor. 
Ia continuar a conversa, mas a multido aplaudia, e 
Athena subiu ao palco improvisado. Ligou o pequeno aparelho de 
som que trazia de casa, deu instrues para que ningum seguisse 
o ritmo da msica, pediu que danassem, e o ritual comeou. Em 
determinado momento Viorel foi para um canto e sentou-se - era o 
momento de Hagia Sofia se manifestar. Athena repetiu o que eu j 
havia visto tantas vezes: desligou abruptamente o som, colocou a 
cabea entre as mos, as pessoas ficaram em silncio obedecendo a 
um comando invisvel. 
O ritual repetiu-se sem qualquer variao: perguntas 
sobre amor que eram descartadas, mas aceitava comentar sobre 
ansiedade, doenas, problemas pessoais. Da posio em que estava, 
podia ver que algumas pessoas tinham lgrimas nos olhos, outras 
pareciam estar diante de uma santa. Chegou o momento do sermo 
final, antes do ritual coletivo de celebrao da Me. 
Como j conhecia os prximos passos, comecei a 
imaginar qual seria a melhor maneira de sair dali com o mnimo de 
tumulto possvel. Torci para que seguisse a indicao de Andrea, 
dizendo que no procurassem milagres ali; caminhei em direo a 
Viorel para que pudssemos deixar o local assim que sua me 
acabasse de falar. 
E foi quando escutei a voz de Hagia Sofia:
- Hoje, antes de terminar, vamos falar de dieta. 
Esqueam esta histria de regimes.
Dieta? Esqueam esta histria de regimes?
- Sobrevivemos todos estes milnios porque fomos
capazes de comer. E hoje em dia isso parece ter se tornado uma
maldio. Por qu? O que nos faz procurar manter, aos 40 anos, o
mesmo corpo que tnhamos quando ramos jovens? Ser possvel
parar esta dimenso do tempo? Claro que no. E por que precisamos
ser magros?
Ouvi uma espcie de murmrio na platia. Deviam estar
esperando uma mensagem mais espiritual.
- No precisamos. Compramos livros, freqentamos
academias, gastamos uma parte importantssima de nossa
concentrao tentando parar o tempo, quando devamos celebrar  o
milagre de andar por este mundo. Em vez de pensar em como viver
melhor, ficamos obcecados com o peso.
"Esqueam isso; vocs podem ler todos os livros que
quiserem, fazer os exerccios que desejarem, sofrerem todas as
punies que decidirem, e tero apenas duas escolhas - ou deixam
de viver, ou iro engordar.
"Comam com moderao, mas comam com prazer: o mal no
 o que entra, mas o que sai da boca do homem. Lembrem-se que
durante milnios lutamos para no passar fome. Quem inventou esta
histria de que todos precisam ser magros a vida inteira?
"Vou responder: os vampiros da alma, aqueles que tm
tanto medo do futuro que pensam ser possvel parar a roda do
tempo. Hagia Sofia garante: no  possvel. Usem a energia e o
esforo de uma dieta para alimentarem-se do po espiritual.
Entendam que a Grande Me d com fartura e com sabedoria -
respeitem isso, e no iro engordar alm daquilo que o tempo
exige.
"Em vez de queimarem artificialmente estas calorias,
procurem transform-las na energia necessria para a luta pelos
sonhos; ningum ficou mais magro por muito tempo, s por causa de
uma dieta."
O silncio era completo. Athena deu incio ao ritual
de encerramento, todos celebraram a presena da Me, eu agarrei
Viorel nos braos prometendo a mim mesmo que da prxima vez iria
trazer alguns amigos para improvisar um mnimo de segurana,
samos escutando os mesmos gritos e aplausos da entrada.
Um comerciante me agarrou pelos braos:
- Isso  um absurdo! Se quebrarem alguma de minhas 
vitrinas, vou process-los!
Athena ria, dava autgrafos, Viorel parecia contente. 
Eu torcia para que nenhum jornalista estivesse ali naquela noite. 
Quando finalmente conseguimos nos desvencilhar da multido, 
tomamos um txi.
Perguntei se gostariam de comer alguma coisa. Claro 
que sim, tinha acabado de comentar sobre isso, disse Athena. 


Antoine Locadour, historiador

Nesta sucesso de erros que ficou conhecido como {NAO
PRECISA} "A bruxa de Portobello", o que mais me surpreende  a
ingenuidade de Heron Ryan, um jornalista com anos de carreira e
experincia internacional. Quando conversamos, ele estava
apavorado com as manchetes dos tablides: 
"O Regime da Deusa!", gritava um. 
"Emagrea enquanto come, diz a Bruxa de Portobello!", 
estampava outro na primeira pgina. 
Alm de tocar em algo to sensvel como a religio, a 
tal Athena tinha ido mais longe: falara de dieta, um assunto de 
interesse nacional, mais importante que guerras, greves, ou 
catstrofes naturais. Nem todos acreditam em Deus, mas todos 
querem emagrecer. 
Os reprteres entrevistavam comerciantes locais, que 
garantiam ter visto velas negras e vermelhas acesas, e rituais 
com a presena de poucas pessoas nos dias que antecediam as 
reunies coletivas. Por enquanto, o tema se resumia a 
sensacionalismo barato, mas Ryan devia ter previsto que havia um 
processo em curso na justia britnica, e que o acusador no iria 
perder qualquer oportunidade para fazer chegar at os juzes o 
que considerava ser no apenas uma calnia, mas um atentado a 
todos os valores que mantinham de p a sociedade. 
Na mesma semana, um dos mais prestigiosos jornais 
ingleses publicava em sua coluna de editoriais, um texto do 
Reverendo Ian Buck, Ministro da Congregao Evanglica de 
Kensington, que dizia em um de seus pargrafos:
"Como bom cristo, eu tenho o dever de dar minha outra 
face quando sou injustamente agredido ou quando minha honra  
atingida. Entretanto, no podemos nos esquecer que, da mesma 
maneira que Jesus ofereceu sua outra face, tambm usou o chicote 
para aoitar aqueles que pretendiam transformar a Casa de Deus em 
um covil de ladres.  a isso que estamos assistindo em 
Portobello Road neste momento: pessoas inescrupulosas, que se 
fazem passar por salvadoras de almas, prometendo falsas 
esperanas e curas para todos os males, afirmando inclusive que 
permanecero magras e elegantes se seguirem seus ensinamentos. 
"Portanto, no me resta outra alternativa alm de ir  
justia impedir que tal situao se prolongue por muito tempo. Os 
seguidores deste movimento juram que so capazes de despertar 
dons jamais vistos, e negam a existncia de um Deus Todo-
Poderoso, tentando substitu-Lo por divindades pags como Vnus 
ou Afrodite. Para eles, tudo  permitido, desde que seja feito 
com "amor". Ora, o que  o amor? Uma fora sem moral, que 
justifica qualquer fim? Ou um compromisso com os verdadeiros 
valores da sociedade, como a famlia e as tradies?"


Na reunio seguinte, prevendo que pudesse se repetir a 
mesma batalha campal de agosto, a polcia tomou providncias e 
deslocou meia dzia de guardas para evitar confrontos. Athena 
chegou acompanhada de guarda-costas improvisados por Ryan, e 
desta vez escutou no apenas aplausos, mas vaias e imprecaes. 
Uma senhora, ao ver que estava acompanhada de um menino de oito 
anos, entrou dois dias depois com uma petio jurdica baseada no 
Children Act 1989, alegando que a me estava causando danos 
irreversveis ao filho, e sua guarda deveria ser transferida ao 
pai. 
Um tablide conseguiu localizar Luks Jessen-Petersen, 
que no quis dar entrevista; ameaou o reprter, dizendo que no 
mencionassem Viorel em seus artigos, ou seria capaz de qualquer 
loucura. 
No dia seguinte, o tablide estampava a manchete: "Ex-
marido da Bruxa de Portobello diz que  capaz de matar pelo 
filho".
Naquela mesma tarde, mais duas peties baseadas no 
Children Act 1989 davam entrada nos tribunais, desta vez pedindo 
que o Estado se responsabilizasse pelo bem-estar da criana. 
No houve uma reunio seguinte; embora grupos de 
pessoas - a favor e contra - estivessem diante da porta, e 
guardas fardados procurassem conter os nimos, Athena no 
apareceu. O mesmo aconteceu na semana seguinte; desta vez, tanto 
os grupos como o destacamento policial eram menores. 
Na terceira semana, havia apenas vestgios de flores 
no local, e uma pessoa distribuindo fotos de Athena para quem 
chegasse. 
O assunto deixou de ocupar as pginas dos cotidianos 
londrinos. Quando o Reverendo Ian Buck decidiu anunciar que 
estava retirando seu processo de calnia e difamao, baseado no 
"esprito cristo que devemos ter por aqueles que se arrependem 
de seus gestos", no encontrou nenhum grande veculo de imprensa 
interessado, e tudo que conseguiu foi publicar seu texto na seo 
de cartas de leitores de um jornal de bairro. 
Pelo que eu saiba, o tema jamais ganhou projeo 
nacional, sempre estando restrito s pginas onde se publicam os 
assuntos da cidade. Um ms depois que os cultos terminaram, 
quando viajei at Brighton, tentei puxar o assunto com alguns 
amigos, e nenhum deles tinha ouvido falar. 
Ryan tinha tudo nas mos para esclarecer aquele 
assunto; o que seu jornal dissesse seria seguido por grande parte 
da imprensa. Mas, para minha surpresa, jamais publicou uma linha 
a respeito de Sherine Khalil. 
Na minha opinio, o crime - pelas suas caractersticas 
- nada tem a ver com o que ocorreu em Portobello. Tudo no passou 
de uma macabra coincidncia. 
 

Heron Ryan, jornalista

Athena pediu que ligasse meu gravador. Ela trazia 
outro com ela, um modelo que nunca tinha visto, bastante 
sofisticado e de dimenses mnimas. 
- Em primeiro lugar, quero dizer que estou sendo 
ameaada de morte. Em segundo lugar, prometa que, mesmo que eu 
morra, voc esperar cinco anos para deixar que algum escute 
esta fita. No futuro, podero distinguir o que  falso do que  
verdadeiro. 
"Diga que concorda - pois desta maneira estar 
assumindo um compromisso legal."
- Concordo. Mas acho que...
- No ache nada. Caso eu aparea morta, isso ser meu 
testamento, com a condio de nada ser dito agora. 
Desliguei o gravador. 
- No h o que temer. Tenho amigos em todas as 
posies e cargos do governo, gente que me deve favores, que 
precisa ou precisar de mim. Ns podemos...
- Eu j no lhe disse que tinha um namorado que 
trabalha na Scotland Yard?
De novo esta conversa? Se era assim, por que {Paulo,
estava "porque" CORRECAO PERFEITA} no estava l quando todos ns
precisvamos de sua ajuda, quando tanto Athena como Viorel podiam
ter sido atacados pela multido?
As perguntas surgiam uma atrs da outra: ela queria me
testar? O que passava na cabea desta mulher - seria
desequilibrada, inconstante, uma hora desejando estar ao meu
lado, outra hora voltando com o tema de um homem que no existia?
- Ligue o gravador de novo - ela pediu.
Eu me sentia pssimo: comecei a pensar que sempre 
havia sido usado por ela. Gostaria de poder dizer naquele 
momento: "v embora, no aparea nunca mais na minha vida, desde 
que a conheci tudo se transformou em um inferno, vivo esperando o 
dia em que chega aqui, me d um abrao, me beija, e pede para 
ficar ao meu lado. Isso no acontece nunca".
- Alguma coisa errada?
Ela sabia que tinha alguma coisa errada. Melhor 
dizendo, era impossvel que no reconhecesse o que sentia, porque 
no tinha feito outra coisa durante todo este tempo alm de 
demonstrar meus sentimentos, embora s tenha falado deles uma 
nica vez. Mas desmarcava qualquer compromisso para encontr-la, 
estava ao seu lado sempre que pedia, tentava criar algum tipo de 
cumplicidade com seu filho, achando que um dia ele poderia 
chamar-me de pai. Nunca pedi que deixasse o que fazia, aceitava 
sua vida, suas decises, sofria em silncio com sua dor, me 
alegrava com suas vitrias, orgulhava-me da sua determinao. 
- Por que desligou o gravador?
Fiquei aquele segundo entre o cu e o inferno, entre a 
exploso e a submisso, entre o raciocnio frio e a emoo 
destruidora. No final, usando todas as foras que tinha, consegui 
manter o controle. 
Apertei o boto.
- Continuemos. 
- Estava dizendo que estou sendo ameaada de morte. 
Pessoas telefonam, sem dizer nomes; me insultam, afirmam que sou 
uma ameaa ao mundo, estou querendo trazer de volta o reino de 
Satans, e que no podem permitir isso. 
- Voc falou com a polcia? 
Omiti propositadamente a referncia ao namorado, 
mostrando desta maneira que jamais acreditei na histria.
- Falei. Eles gravaram os telefonemas. Vm de cabines 
telefnicas, mas disseram que no me preocupasse, esto vigiando 
minha casa. Conseguiram prender uma destas pessoas: tem um 
desequilbrio mental, acha que  a reencarnao de um apstolo, e 
que "desta vez  preciso lutar para que Cristo no seja expulso 
de novo". Neste momento, est em um hospital psiquitrico; a 
polcia explicou que j foi internado antes, depois de ameaar 
outros pelo mesmo motivo.
- Se esto atentos, nossa polcia  a melhor do mundo. 
Realmente no h por que se preocupar. 
- No tenho medo da morte; se meus dias terminassem 
hoje, levaria comigo momentos que pouca gente com minha idade 
teve a chance de viver. O que tenho medo, e por isso pedi que 
gravasse nossa conversa hoje,  de matar. 
- Matar?
- Voc sabe que esto na justia alguns processos que 
pretendem tirar Viorel de minha guarda. Tentei com amigos, mas 
ningum pode fazer nada;  preciso esperar o resultado. Segundo 
eles, dependendo do juiz, estes fanticos iro conseguir o que 
desejam. Por causa disso, comprei uma arma. 
"Sei o que significa um filho ser afastado da sua me, 
porque vivi a experincia em minha carne. De modo que, no momento 
em que o primeiro oficial de justia se aproximar, eu atiro. E 
continuarei atirando, at que as balas acabem. Se no me 
atingirem antes, lutarei com as facas de minha casa. Se tirarem 
as facas, usarei minhas unhas e meus dentes. Mas ningum 
conseguir afastar Viorel do meu lado, a no ser que passem por 
cima do meu cadver. Est gravando?"
- Est. Mas existem meios...
- No existem. Meu pai est acompanhando os processos. 
Disse que no caso de direito de famlia, pouco se h que fazer. 
"Agora desligue o gravador." 
- Era esse seu testamento?
No respondeu. Como eu no fazia nada, tomou ela 
prpria a iniciativa. Em seguida, foi at o aparelho de som, e 
colocou a famosa msica das estepes, que agora eu quase conhecia 
de cor. Danou da maneira que fazia nos rituais, completamente 
fora de compasso,e eu sabia onde estava pretendendo chegar. Seu 
gravador continuava ligado, como testemunha silenciosa de tudo 
que estava se passando ali. Enquanto a luz de uma tarde 
ensolarada entrava pelas vidraas, Athena mergulhava em busca de 
outra luz, que estava ali desde que o mundo havia sido criado. 
A centelha da Me parou de danar, interrompeu a 
msica, colocou a cabea entre as mos, e ficou quieta por algum 
tempo. Logo levantou os olhos e encarou-me.
- Voc sabe quem est aqui, no sabe?
- Sim. Athena e sua parte divina, Hagia Sofia. 
- Eu me habituei a fazer isso. No penso que seja 
necessrio, mas foi o mtodo que descobri para encontr-la, e 
agora se tornou uma tradio em minha vida. Voc sabe com quem 
est falando: com Athena. Hagia Sofia sou eu. 
- Sei disso. Quando dancei pela segunda vez em sua 
casa, descobri tambm um esprito que me guia: Philemon. Mas no 
converso muito com ele, no escuto o que ele me diz. Sei que, 
quando est presente,  como se nossas duas almas finalmente se 
encontrassem. 
- Isso mesmo. E Philemon e Hagia Sofia vo hoje 
conversar sobre amor. 
- Eu teria que danar. 
- No precisa. Philemon me entender, pois vejo que 
foi tocado pela minha dana. O homem que est diante de mim sofre 
por algo que julga jamais ter conseguido atingir: o meu amor.
"Mas o homem que est alm de voc mesmo, esse 
compreende que a dor, a ansiedade, o sentimento de abandono so 
desnecessrios e infantis: eu te amo.  No da maneira que sua parte 
humana deseja, mas da maneira que a centelha divina assim 
desejou. Habitamos uma mesma tenda, que foi colocada em nosso 
caminho por Ela. Ali entendemos que no somos escravos de nossos 
sentimentos, mas seus mestres. 
"Servimos e somos servidos, abrimos as portas de 
nossos quartos, e nos abraamos. Talvez nos beijemos tambm - 
porque tudo que acontece com intensidade na terra ter seu 
correspondente no plano invisvel. E voc sabe que no estou a 
provoc-lo, nem estou brincando com seus sentimentos ao dizer 
isso."
- O que  o amor, ento?
- A alma, o sangue, e o corpo da Grande Me. Eu te amo 
com a mesma fora que almas exiladas se amam, quando se encontram 
no meio do deserto. Nunca se passar nada de fsico entre ns, 
mas nenhuma paixo  intil, nenhum amor  jogado fora. Se a Me 
despertou isso em seu corao, tambm despertou no meu, embora 
voc talvez o aceite melhor.  impossvel que a energia do amor 
se perca - ela  mais poderosa que qualquer coisa, e se manifesta 
de muitas maneiras. 
- No sou suficientemente forte para isso. Essa viso 
abstrata me deixa deprimido e mais solitrio que nunca. 
- Nem eu: preciso de algum ao meu lado. Mas um dia 
nossos olhos vo se abrir, as diversas formas de Amor podero se 
manifestar, e o sofrimento desaparecer da face da Terra. 
"Penso que no deve demorar muito; muitos de ns esto 
retornando de uma longa viagem, onde fomos induzidos a procurar  
coisas que no nos interessavam. Agora nos damos conta que eram 
falsas. Mas esta volta no se faz sem dor - porque passamos muito 
tempo fora, achamos que somos estrangeiros em nossa prpria 
terra. 
"Levaremos algum tempo para encontrar os amigos que 
tambm partiram, os lugares onde estavam nossas razes e nossos 
tesouros. Mas isso terminar acontecendo."
No sei por que razo, comecei a ficar comovido. E 
isso me empurrou adiante. 
- Quero continuar falando de amor. 
- Estamos falando. Este foi sempre o objetivo de tudo 
que busquei em minha vida; deixar que o amor se manifestasse em 
mim sem barreiras, que preenchesse meus espaos em branco, que me 
fizesse danar, sorrir, justificar minha vida, proteger meu 
filho, entrar em contato com os cus, com homens e mulheres, com 
todos aqueles que foram colocados no meu caminho. 
"Tentei controlar meus sentimentos dizendo "esse 
merece meu carinho", ou "esse no merece", coisas deste tipo. At 
que entendi meu destino, quando vi que podia perder a coisa mais 
importante de minha vida."
- O seu filho.
- Exato. A manifestao mais completa de amor. Foi no 
momento em surgiu a possibilidade de o afastarem de mim, que me 
encontrei comigo mesmo, entendendo que jamais poderia ter nada, 
perder nada. Compreendi isso depois de chorar compulsivamente por 
horas. Foi s depois de sofrer muito, intensamente, que a parte 
de mim que chamo Hagia Sofia me disse: "Que bobagem  essa? O 
amor sempre permanece! E seu filho sempre partir, mais cedo ou 
mais tarde!".
Eu comeava a compreender. 
- O amor no  um hbito, um compromisso, ou uma 
dvida. No  aquilo que nos ensinam as msicas romnticas - o 
amor .  esse o testamento de Athena, ou Sherine, ou Hagia 
Sofia: o amor . Sem definies. Ame e no pergunte muito. Apenas 
ame. 
-  difcil. 
- Est gravando?
- Voc pediu que desligasse.
- Pois torne a gravar.
Fiz o que ela mandava. Athena continuou:
-  difcil para mim tambm. Por isso, a partir de 
hoje no volto mais para casa. Vou esconder-me; a polcia me 
proteger dos loucos, mas no me proteger da Justia humana. Eu 
tinha uma misso a cumprir, e isso me fez ir to longe que 
arrisquei at mesmo a guarda de meu filho. Mesmo assim, no me 
arrependo: cumpri meu destino. 
- Qual era sua misso?
- Voc sabe, porque participou desde o incio: 
preparar o caminho da Me. Continuar uma tradio que foi 
suprimida por sculos, mas que agora comea a ressurgir. 
- Talvez...
Eu parei. Mas ela no disse uma palavra at que eu 
terminasse minha frase.
- ... talvez tenha sido um pouco cedo demais. As 
pessoas no estavam prontas para isso. 
Athena riu.
- Claro que estavam. Por isso os confrontos, as 
agresses, o obscurantismo. Porque as foras das trevas esto 
agonizando, e  neste momento que elas usam seus ltimos 
recursos. Parecem ser mais fortes, como os animais antes de 
morrer; mas, depois disso, j no conseguem mais se levantar do 
cho - estaro exaustas. 
"Semeei em muitos coraes, e cada um manifestar este 
Renascimento  sua maneira. Mas existe um destes coraes que ir 
seguir a tradio completa: Andrea."
Andrea. 
Que a detestava, que a culpava pelo fim de nosso 
relacionamento, que dizia para quem desejasse ouvir que Athena 
deixara-se dominar pelo egosmo, pela vaidade, e terminara 
destruindo um trabalho que fora to difcil de ser colocado em 
p. 
Ela levantou-se e pegou sua bolsa - Hagia Sofia 
continuava com ela. 
- Vejo sua aura. Ela est sendo curada de um 
sofrimento intil. 
- Evidente que voc sabe que Andrea no gosta de voc.
- Claro que sei. Falamos quase meia hora sobre amor, 
no  verdade? Gostar no tem nada a ver com isso.
"Andrea  uma pessoa absolutamente capaz de levar a 
misso adiante. Tem mais experincia e mais carisma que eu. 
Aprendeu com meus erros; sabe que deve manter certa prudncia, 
porque os tempos em que a fera do obscurantismo est agonizando 
sero tempos de confronto. Andrea pode me odiar como pessoa, e 
talvez por isso tenha conseguido desenvolver seus dons com tanta 
velocidade; para provar que era mais capaz que eu. 
"Quando o dio faz uma pessoa crescer, ele se 
transforma em uma das muitas maneiras de amar." 
Pegou seu gravador, colocou-o dentro da bolsa, e 
partiu. 
No final daquela mesma semana o tribunal se 
pronunciava: diversas testemunhas foram ouvidas, e Sherine 
Khalil, conhecida como Athena, tinha direito de manter a guarda 
de seu filho. 
Alm disso, o diretor da escola onde o menino estudava 
ficava oficialmente alertado de que qualquer tipo de 
discriminao contra o menino seria punvel por lei. 
Sabia que no adiantava ligar para a casa onde morava; 
tinha deixado a chave com Andrea, levado seu aparelho de som, 
algumas roupas, dizendo que no pretendia retornar to cedo.
 Fiquei aguardando o telefonema para comemorarmos 
juntos a vitria. A cada dia que passava, o meu amor por Athena 
deixava de ser uma fonte de sofrimento, e se transformava em um 
lago de alegria e serenidade. Eu j no me sentia to sozinho, em 
algum lugar no espao nossas almas - as almas de todos os 
exilados que estavam voltando - tornavam a celebrar com alegria o 
reencontro.
Passou-se a primeira semana, e imaginei que talvez 
estivesse procurando recuperar-se da tenso dos ltimos tempos. 
Um ms depois, imaginei que teria voltado a Dubai e retornado ao 
seu emprego; telefonei e me disseram que no tinham mais ouvido 
falar dela. Mas se soubesse onde estava, por favor lhe 
transmitisse um recado: as portas estavam abertas, ela fazia 
muita falta. 
Resolvi fazer uma srie de artigos sobre o despertar 
da Me, que provocou algumas cartas ofensivas de leitores me 
acusando de "divulgar o paganismo", mas que fez um imenso sucesso 
junto ao pblico. 
Dois meses depois, quando me preparava para almoar, 
um colega de redao me chamou: o corpo de Sherine Khalil, a 
Bruxa de Portobello, havia sido encontrado. 
Fora brutalmente assassinada em Hampstead. 






Agora que terminei de transcrever todas as gravaes, 
vou entreg-las a ela. Deve estar neste momento passeando pelo 
Snowdonian National Park, como costuma fazer todas as tardes.  
seu aniversrio - melhor dizendo, a data que seus pais escolheram 
para seu aniversrio quando a adotaram - e pretendo entregar-lhe 
este manuscrito. 
Viorel, que chegar com os avs para a celebrao, 
tambm preparou uma surpresa; gravou sua primeira msica em um 
estdio de amigos comuns, e ir toc-la durante o jantar. 
Ela ir me perguntar, depois: "por que fez isso?" 
E eu lhe responderei: "porque precisava compreend-
la". Durante todos estes anos que estivemos juntos, escutava 
apenas aquilo que julgava serem lendas a seu respeito, e agora 
sei que estas lendas so realidade. 
Sempre que pensava em acompanh-la, fosse s 
celebraes das segundas-feiras em seu apartamento, fosse  
Romnia, fosse aos encontros com amigos, ela pedia que no o 
fizesse. Queria estar livre - um policial sempre intimida as 
pessoas, dizia. Diante de algum como eu, at mesmo os inocentes 
se sentem culpados. 
Estive duas vezes no armazm de Portobello sem que ela 
soubesse. Tambm sem que ela soubesse, destaquei homens para 
proteg-la em suas chegadas e sadas do local - e pelo menos uma 
pessoa, mais tarde identificada como militante de uma seita, foi 
detida com um punhal. Dizia que tinha sido instrudo por 
espritos para conseguir um pouco de sangue da Bruxa de 
Portobello, que manifestava a Me, precisavam us-lo para 
consagrar certas oferendas. No pretendia mat-la, apenas 
recolher o sangue em um leno. A investigao mostrou que no 
havia realmente tentativa de homicdio; mesmo assim foi 
indiciado, e pegou seis meses de priso. 
No foi minha a idia de "assassin-la" para o mundo - 
Athena queria desaparecer, e me perguntou se isso seria possvel. 
Expliquei que, se a Justia tivesse decidido que o Estado deveria 
manter a guarda de seu filho, eu no poderia contrariar a lei. 
Mas a partir do momento em que o juiz manifestou-se a seu favor, 
estvamos livres para cumprir o seu plano. 
Athena tinha plena conscincia que, quando os 
encontros no armazm ganharam publicidade local, a sua misso 
estava desencaminhada para sempre. De nada adiantava ir diante da 
multido e negar que no era uma rainha, uma bruxa, uma 
manifestao divina - j que o povo escolheu seguir os poderosos 
e dar poder a quem deseja. E isso iria contra tudo que ela 
pregava - a liberdade de escolher, de consagrar o prprio po, de 
despertar os dons individuais, sem guias ou pastores. 
Tampouco adiantava desaparecer: as pessoas entenderiam 
tal gesto como um retiro ao deserto, uma ascenso aos cus, uma 
viagem ao encontro de mestres secretos que vivem no Himalaia, e 
ficariam sempre esperando sua volta. As lendas cresceriam ao seu 
redor, e possivelmente seria formado um culto em torno de sua 
pessoa. Comeamos a notar isso quando ela deixou de freqentar 
Portobello; meus informantes diziam que, ao contrrio do que todo 
mundo pensava, seu culto estava aumentando de maneira 
assustadora: outros grupos semelhantes comearam a ser criados, 
pessoas apareciam como "herdeiras" de Hagia Sofia, sua foto 
publicada no jornal, com o menino nos braos, era vendida de 
maneira secreta, mostrando-a como uma vtima, uma mrtir da 
intolerncia. Ocultistas comearam a falar de uma "Ordem de 
Athena", onde se conseguia - depois de algum pagamento - um 
contato com a fundadora. 
Portanto, s restava a "morte". Mas em circunstncias 
absolutamente normais, como qualquer pessoa que termina 
encontrando o fim dos seus dias nas mos de um assassino em uma 
grande cidade. Isso nos obrigava a uma srie de precaues:
A] o crime no poderia estar associado ao martrio por
razes religiosas, porque a situao que estvamos tentando
evitar seria agravada;
B] a vtima deveria estar em condies que no pudesse
ser reconhecida;
C] o assassino no poderia ser preso;
D] precisaramos de um cadver. 
Em uma cidade como Londres, todos os dias temos gente 
morta, desfigurada, queimada - mas normalmente terminamos por 
prender o criminoso. De modo que foi preciso esperar quase dois 
meses at o ocorrido em Hampstead. Tambm neste caso terminamos 
por encontrar o assassino, mas ele estava morto - viajara para 
Portugal e se suicidara com um tiro na boca. A justia estava 
feita, e tudo que eu precisava era um pouco de cooperao de 
amigos mais prximos. Uma mo lava a outra, eles s vezes me 
pedem coisas que tambm no so muito ortodoxas, e desde que 
nenhuma lei importante seja quebrada, existe - digamos - uma 
certa flexibilidade de interpretao. 
Foi o que ocorreu. Assim que o cadver foi descoberto, 
fui designado junto com um companheiro de muitos anos para 
acompanhar o caso, e tivemos a notcia - quase simultnea - de 
que a polcia portuguesa havia descoberto o corpo de um suicida 
em Guimares, {Paulo, no pargrafo anterior foi dito que o 
suicida tinha viajado para a Espanha - MUDAMOS O PARAGRAFO ACIMA, 
 PORTUGAL} junto com um bilhete onde confessava um assassinato 
com os detalhes que correspondiam ao caso que tnhamos em mos, e 
dava instrues para a distribuio de sua herana a instituies 
de caridade. Havia sido um crime passional - enfim, o amor com 
muita freqncia termina acabando nisso. 
No bilhete que havia deixado, o morto dizia ainda que 
ele trouxera a mulher de uma ex-repblica da Unio Sovitica, 
fizera tudo que fora possvel para ajud-la. Estava pronto a 
casar-se com ela de modo que tivesse todos os direitos de um 
cidado ingls, e terminara descobrindo uma carta que estava 
prestes a enviar a um alemo que a convidara para passar alguns 
dias em seu castelo. 
Nesta carta, dizia que estava louca para partir, e que 
ele enviasse logo a passagem de avio, de modo que pudessem se 
encontrar o mais breve possvel. Tinham se encontrado em um caf 
londrino, e haviam trocado apenas duas correspondncias, nada 
mais que isso. 
Estava diante do quadro perfeito. 
Meu amigo vacilou um pouco - ningum gosta de ter um 
crime no resolvido em sua ficha -, mas eu terminei dizendo que 
assumiria a culpa, e ele concordou. 
Fui at onde Athena se encontrava - uma simptica casa 
em Oxford. Com uma seringa, colhi um pouco de seu sangue. Cortei 
pedaos de seus cabelos, queimei-os um pouco, mas no 
completamente. De volta  cena do crime, espalhei as "provas". 
Como sabia que o exame de DNA seria impossvel, j que ningum 
sabia quem era sua me ou seu pai verdadeiros, tudo que precisava 
agora era cruzar os dedos, e esperar que a notcia no tivesse 
muita repercusso na imprensa. 
Alguns jornalistas apareceram. Contei a histria do 
suicdio do assassino, mencionando apenas o pas, sem precisar a 
cidade. Disse que no fora encontrada nenhuma razo para o crime, 
mas que estava descartada completamente a hiptese de vingana ou 
de motivos religiosos; no meu entender (afinal, os policiais tm 
o direito de errar), a vtima havia sido violentada. Como deve 
ter reconhecido seu agressor, terminou sendo morta e desfigurada. 
Se o alemo voltou a escrever, suas cartas devem ter 
retornado com o sinal de "destinatrio ausente". A foto de Athena 
aparecera apenas uma vez no jornal, durante o primeiro confronto 
em Portobello, de modo que as chances de ser reconhecida eram 
mnimas. Alm de mim, apenas trs pessoas sabem da histria: seus 
pais e seu filho. Todos ns comparecemos ao "enterro" de seus 
restos, e a sepultura tem uma lpide com seu nome. 
O menino vem visit-la todos os finais de semana, e 
est com uma brilhante carreira na escola. 
Claro, um dia Athena pode cansar-se desta vida 
isolada, e decidir voltar a Londres. Mesmo assim, a memria das 
pessoas  curta, e exceto pelos seus amigos mais ntimos, ningum 
se lembrar dela. A esta altura, Andrea ser o elemento 
catalisador e - justia seja feita - tem muito mais capacidade 
que Athena para continuar a tal misso. Alm de possuir os dons 
necessrios,  uma atriz - sabe como lidar com o pblico. 
Ouvi dizer que seu trabalho tem crescido 
significativamente, sem chamar ateno desnecessria. Escuto 
histrias de gente em posies-chave na sociedade que esto em 
contato com ela, e quando for necessrio, quando atingirem uma 
massa crtica suficiente, terminaro por acabar com toda a 
hipocrisia dos reverendos Ian Buck da vida.
E  isso que Athena deseja; no sua projeo pessoal, 
como muitos pensavam (inclusive Andrea), mas que a misso seja 
cumprida.
No incio de minhas investigaes que resultaram neste 
manuscrito, pensava que estava levantando sua vida para que 
soubesse o quanto foi corajosa e importante. Mas,  medida que as 
conversas prosseguiam, eu ia descobrindo tambm a minha parte 
oculta - embora no acredite muito nestas coisas. E chegava  
concluso de que a razo principal de todo este trabalho era 
responder a uma pergunta que nunca soube explicar: por que Athena 
me amava, se somos to diferentes, e no dividimos a mesma viso 
de mundo? 
Lembro-me de quando lhe dei o primeiro beijo, em um 
bar ao lado de Victoria Station. Ela trabalhava em um banco, eu 
j era um detetive da Scotland Yard. Depois de alguns dias saindo 
juntos, convidou-me para danar na casa do proprietrio do seu 
apartamento, coisa que jamais aceitei - no condiz com meu 
estilo. 
E em vez de irritar-se, respondeu apenas que 
respeitava minha deciso. Relendo os depoimentos que me deram 
seus amigos, fico realmente orgulhoso; Athena parecia no 
respeitar a deciso de mais ningum. 
Meses depois, antes de partir para Dubai, eu disse que 
a amava. Ela respondeu que sentia a mesma coisa - embora, 
acrescentou, devssemos nos educar para longos momentos de 
separao. Cada um trabalharia em um pas diferente, mas o 
verdadeiro amor pode resistir  distncia. 
Foi a nica vez que ousei perguntar-lhe: "por que me 
ama?". 
Ela respondeu:"no sei e no tenho o menor interesse 
em saber".
Agora, ao concluir todas estas pginas, acho que 
encontrei a resposta na sua conversa com o tal jornalista.
O amor . 

25/2/2006 19:47:00 
Terminada a reviso no dia de Santo Expedito, 2006







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